A Origem das Espécies - Capítulo IV: A Seleção Natural, ou a Sobrevivência do Mais Apto 7

A Seleção Natural

On the Degree to which Organisation tends to advance

A seleção natural age exclusivamente preservando e acumulando variações que sejam benéficas sob as condições orgânicas e inorgânicas a que cada criatura está exposta em todos os períodos da vida. O resultado final é que cada criatura tende a se tornar cada vez mais aprimorada em relação às suas condições. Esse aprimoramento leva inevitavelmente ao avanço gradual da organização da maioria dos seres vivos pelo mundo todo. Mas aqui entramos num assunto bastante intrincado, pois os naturalistas não definiram, a contento uns dos outros, o que se entende por avanço na organização. Entre os vertebrados, o grau de inteligência e a aproximação da estrutura em relação ao homem claramente entram em jogo. Poderíamos pensar que a quantidade de mudança pela qual as várias partes e órgãos passam em seu desenvolvimento, do embrião à maturidade, bastaria como padrão de comparação. Mas casos, como o de certos crustáceos parasitas, em que várias partes da estrutura se tornam menos perfeitas, de modo que o animal adulto não pode ser chamado de superior à sua larva. O padrão de Von Baer parece o mais amplamente aplicável e o melhor, a saber, o grau de diferenciação das partes de um mesmo ser orgânico no estado adulto, e (como eu me inclinaria a acrescentar) sua especialização para funções distintas. Ou, como Milne Edwards diria, a perfeição da divisão do trabalho fisiológico. Mas veremos como esse assunto é obscuro se olharmos, por exemplo, para os peixes. Alguns naturalistas classificam como mais elevados aqueles que, como os tubarões, mais se aproximam dos anfíbios. Outros classificam como mais elevados os peixes ósseos ou teleósteos comuns, justamente por serem os mais estritamente peixes e por mais diferirem das outras classes de vertebrados. Vemos com mais clareza ainda a obscuridade do assunto ao nos voltarmos para as plantas, entre as quais o padrão da inteligência está, é claro, totalmente excluído. Aqui alguns botânicos classificam como mais elevadas as plantas que têm cada órgão (como sépalas, pétalas, estames e pistilos) plenamente desenvolvido em cada flor, enquanto outros botânicos, provavelmente com mais razão, consideram mais elevadas as plantas cujos vários órgãos são muito modificados e reduzidos em número.
Se tomarmos como padrão de organização elevada o grau de diferenciação e especialização dos vários órgãos de cada ser quando adulto (e isso incluirá o avanço do cérebro para fins intelectuais), a seleção natural claramente conduz a esse padrão. Pois todos os fisiologistas admitem que a especialização dos órgãos, na medida em que nesse estado eles desempenham melhor suas funções, é uma vantagem para cada ser. E, portanto, o acúmulo de variações que tendem à especialização está dentro do alcance da seleção natural. Por outro lado, podemos ver, tendo em mente que todos os seres orgânicos lutam por se multiplicar a uma taxa elevada e por se apossar de cada lugar desocupado ou menos bem ocupado na economia da natureza, que é perfeitamente possível à seleção natural adaptar gradualmente um ser a uma situação na qual vários órgãos seriam supérfluos ou inúteis. Em tais casos haveria retrocesso na escala da organização. Se a organização, no conjunto, de fato avançou desde os períodos geológicos mais remotos até os dias de hoje é algo que discutirei com mais conveniência no capítulo sobre a Sucessão Geológica.
Mas pode-se objetar que, se todos os seres orgânicos tendem assim a subir na escala, como é que por todo o mundo ainda existe uma multidão das formas mais baixas? E como é que, em cada grande classe, algumas formas são muito mais desenvolvidas do que outras? Por que as formas mais desenvolvidas não suplantaram e exterminaram as inferiores em toda parte? Lamarck, que acreditava numa tendência inata e inevitável à perfeição em todos os seres orgânicos, parece ter sentido essa dificuldade tão fortemente que foi levado a supor que formas novas e simples são continuamente produzidas por geração espontânea. A ciência ainda não provou a verdade dessa crença, seja o que o futuro revele. Na nossa teoria, a existência continuada de organismos rudimentares não oferece dificuldade alguma. Pois a seleção natural, ou a sobrevivência do mais apto, não inclui necessariamente o desenvolvimento progressivo: ela apenas tira proveito das variações que surgem e que são benéficas a cada criatura sob suas complexas relações de vida. E pode-se perguntar que vantagem, até onde podemos ver, teria um animálculo infusório, um verme intestinal, ou mesmo uma minhoca, em ser altamente organizado. Se não houvesse vantagem alguma, essas formas seriam deixadas pela seleção natural sem aprimoramento, ou com muito pouco, e poderiam permanecer por idades indefinidas em sua atual condição rudimentar. E a geologia nos diz que algumas das formas mais baixas, como os infusórios e os rizópodes, permaneceram por um período enorme quase no mesmo estado atual. Mas supor que a maioria das muitas formas baixas hoje existentes não avançou nem um pouco desde o primeiro alvorecer da vida seria algo extremamente precipitado. Pois todo naturalista que dissecou alguns dos seres hoje classificados como muito baixos na escala deve ter ficado impressionado com sua organização realmente admirável e bela.
Quase as mesmas observações se aplicam se olharmos para os diferentes graus de organização dentro de um mesmo grande grupo. Por exemplo, nos vertebrados, à coexistência de mamíferos e peixes; entre os mamíferos, à coexistência do homem e do ornitorrinco; entre os peixes, à coexistência do tubarão e do anfioxo (Amphioxus), peixe este que, na extrema simplicidade de sua estrutura, se aproxima das classes de invertebrados. Mas mamíferos e peixes dificilmente entram em competição um com o outro. O avanço de toda a classe dos mamíferos, ou de certos membros dela, até o grau mais elevado não levaria a que tomassem o lugar dos peixes. Os fisiologistas acreditam que o cérebro precisa ser banhado por sangue quente para ser altamente ativo, e isso requer respiração aérea. De modo que mamíferos de sangue quente, ao habitarem a água, ficam em desvantagem por terem de vir continuamente à superfície para respirar. Quanto aos peixes, os membros da família dos tubarões não tenderiam a suplantar o anfioxo. Pois o anfioxo, conforme me conta Fritz Müller, tem como único companheiro e competidor, na costa arenosa e estéril do sul do Brasil, um anelídeo anômalo. As três ordens mais baixas de mamíferos, a saber, marsupiais, desdentados e roedores, coexistem na América do Sul, na mesma região, com numerosos macacos, e provavelmente interferem pouco uns nos outros. Embora a organização, no conjunto, possa ter avançado e ainda esteja avançando pelo mundo todo, a escala sempre apresentará muitos graus de perfeição. Pois o grande avanço de certas classes inteiras, ou de certos membros de cada classe, não leva de modo algum necessariamente à extinção daqueles grupos com os quais elas não entram em competição estreita. Em alguns casos, como veremos adiante, formas de organização baixa parecem ter sido preservadas até os dias de hoje por habitarem nichos restritos ou peculiares, onde estiveram sujeitas a uma competição menos severa e onde seu número escasso retardou a chance de surgirem variações favoráveis.
Por fim, acredito que muitas formas de organização baixa existem hoje pelo mundo todo, por várias causas. Em alguns casos, variações ou diferenças individuais de natureza favorável talvez nunca tenham surgido para a seleção natural agir sobre elas e acumulá-las. Em nenhum caso, provavelmente, o tempo bastou para a maior quantidade possível de desenvolvimento. Em alguns poucos casos houve o que devemos chamar de retrocesso na organização. Mas a causa principal está no fato de que, sob condições de vida muito simples, uma organização elevada não seria de serventia alguma. Possivelmente seria até de prejuízo real, por ser de natureza mais delicada e mais sujeita a se desregular e a se danificar.
Olhando para o primeiro alvorecer da vida, quando todos os seres orgânicos, como podemos crer, apresentavam a estrutura mais simples, perguntou-se: como teria surgido o primeiro passo no avanço ou na diferenciação das partes? O sr. Herbert Spencer provavelmente responderia que, assim que organismos unicelulares simples passaram, por crescimento ou divisão, a ser compostos de várias células, ou se fixaram a alguma superfície de apoio, entraria em ação a lei dele segundo a qual "unidades homólogas de qualquer ordem se diferenciam na proporção em que suas relações com forças incidentes se tornam diferentes". Mas, como não temos fatos que nos guiem, especular sobre o assunto é quase inútil. É, contudo, um erro supor que não haveria luta pela existência, e, por consequência, nenhuma seleção natural, até que muitas formas tivessem sido produzidas. Variações numa única espécie que habita um nicho isolado poderiam ser benéficas, e assim toda a massa de indivíduos poderia ser modificada, ou poderiam surgir duas formas distintas. Mas, como observei perto do fim da introdução, ninguém deveria se surpreender de que muita coisa ainda permaneça inexplicada sobre a origem das espécies, se levarmos em devida conta a nossa profunda ignorância acerca das relações mútuas entre os habitantes do mundo no momento presente, e mais ainda durante as idades passadas.