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Descida de Cristo ao Inferno
Relato apócrifo do que Cristo teria feito entre a sexta-feira da crucificação e a manhã da ressurreição: a entrada no reino dos mortos, o confronto com Satanás e o Inferno personificados, e a libertação dos justos que ali esperavam desde Adão. Circula como segunda parte do Evangelho de Nicodemos, colada ao final dos Atos de Pilatos, e é o texto que deu forma narrativa ao episódio que a arte e o teatro medievais chamariam de harrowing of hell, o saque do inferno.
Autoria e datação
A obra é anônima e pseudoepigráfica. O texto se apresenta como depoimento escrito por dois mortos que voltaram, e a recensão latina os nomeia Karino e Lêucio; a grega os chama apenas de "os dois irmãos gêmeos" e os identifica como filhos do Simeão que tomou o menino Jesus nos braços. Editores e estudiosos desde o século XIX notam que os dois nomes juntos formam Lêucio Karino, o autor lendário a quem a antiguidade tardia atribuía vários Atos apócrifos, e leem aí uma assinatura disfarçada do compilador. É uma hipótese, não um dado: não se sabe sequer quando esse nome se ligou à Descida, e nenhum autor real é conhecido.
A datação é debatida, e convém separar duas camadas. Os Atos de Pilatos, a primeira parte, retomam uma tradição antiga: Justino Mártir (por volta de 150) e Tertuliano (por volta de 197) já remetem o leitor a atas redigidas no tempo de Pilatos, embora não se saiba se falavam deste texto ou de um documento perdido.
(1 Apologia de Justino Mártir 35:9)
A Descida é mais tardia, e nada indica que tenha nascido junto com os Atos de Pilatos: ela não aparece na recensão grega A do Evangelho de Nicodemos nem nas versões orientais antigas (copta, siríaca, armênia), que transmitem só a primeira parte.
As propostas se espalham. Autores que veem no episódio um núcleo antigo o puxam para os séculos II e III, apoiados na difusão precoce do tema da pregação aos mortos. M. R. James (1924) já conjecturava que a Descida não fora anexada aos Atos de Pilatos antes do século V, e essa é a faixa que manuais de apócrifos ainda repetem. Rémi Gounelle, que reeditou e estudou a tradição, argumenta que a Descida só foi concebida como terceira parte da obra a partir do século VI, em meio latino. Não há consenso, e a incerteza é estrutural: a obra circulou como apêndice de outra obra, sofrendo acréscimos a cada cópia.
Sobre a língua de origem a discussão também segue aberta, mas com um lado mais forte. Tischendorf e a erudição do século XIX supunham um original grego antigo. Hoje a leitura predominante é a de que a Descida é uma composição latina e a forma grega é tradução do latim: Gounelle trata a recensão grega B não como descendente direta do apócrifo grego antigo, mas como retroversão ampliada do latim A, feita por volta dos séculos IX e X.
As duas recensões publicadas aqui
Disponibilizamos as duas formas em que a obra chegou, e elas não são a mesma história contada duas vezes: divergem no enquadramento, na extensão e em episódios inteiros. Comparar as duas colunas é a maneira mais direta de ver como um apócrifo cresce na transmissão.
| Recensão | Transmissão | O que a caracteriza |
|---|---|---|
| Latina | Base manuscrita enorme. O censo de Zbigniew Izydorczyk (1993) registra mais de quatrocentos códices latinos do Evangelho de Nicodemos (cerca de 424 preservados, além de uma dúzia perdidos ou destruídos), quase todos medievais. É a via pela qual o texto entrou na Europa ocidental. | Tem moldura judiciária completa: os três mestres galileus, o interrogatório na sinagoga, os dois ressuscitados escrevendo em salas separadas, e a conferência dos dois rolos ao final. Inclui o episódio de Seth e o óleo da misericórdia, o bom ladrão chegando com a cruz às costas e o desfecho com o luto dos judeus. |
| Grega | Transmitida como recensão B dos Atos de Pilatos, em cerca de trinta manuscritos bizantinos. São tardios: os mais antigos são do século XIV. | Mais curta e mais direta. Abre com José de Arimateia apontando os filhos de Simeão, e no lugar do óleo da misericórdia traz João Batista pregando aos mortos e o encontro com Enoque e Elias na porta do paraíso. Os dois relatores ficam sem nome. |
A diferença de peso manuscrito tem uma consequência prática: a recensão latina é o testemunho mais completo e o mais copiado, mas é também a mais retrabalhada. A tradição latina, por sua vez, não é homogênea, e os editores costumam separá-la em pelo menos duas famílias, chamadas latim A e latim B, com diferenças de extensão e de detalhes narrativos.
Conteúdo da recensão latina
A moldura: dois mortos depõem em Jerusalém
- Três mestres vindos da Galileia contam ao conselho que encontraram mortos vestidos de branco, entre eles Karino e Lêucio — (Descida de Cristo ao Inferno 1:1)
- Os dois declaram que ressuscitaram com Cristo e que só podem falar por permissão do Espírito Santo — (Descida de Cristo ao Inferno 1:2)
- Quinze homens verificam os sepulcros e os encontram abertos, sem ossos nem cinzas — (Descida de Cristo ao Inferno 1:4)
- Impedidos de falar, os dois pedem papel e tinta e escrevem em salas separadas — (Descida de Cristo ao Inferno 1:8)
A disputa entre Satanás e o Inferno
- Uma luz rasga as trevas e a voz do Filho ordena que as portas eternas se abram — (Descida de Cristo ao Inferno 2:1)
- Satanás manda trancar as portas e reforçar os ferrolhos — (Descida de Cristo ao Inferno 2:2)
- O Inferno teme receber o recém-chegado e adverte Satanás de que ambos podem ficar presos — (Descida de Cristo ao Inferno 3:1)
- Satanás se gaba de ter incitado os judeus e de ter armado a traição por meio de um dos discípulos — (Descida de Cristo ao Inferno 3:2)
- O Inferno lembra Lázaro, arrancado de suas entranhas por uma só palavra, e conclui que aquele não é apenas homem — (Descida de Cristo ao Inferno 3:3)
Os santos que esperavam
- Adão responde a Satanás e anuncia que ele será acorrentado para sempre — (Descida de Cristo ao Inferno 4:1)
- Adão manda Seth contar o que ouviu na porta do paraíso sobre o óleo da misericórdia — (Descida de Cristo ao Inferno 4:2)
- Seth relata que o arcanjo Miguel adiou o óleo até a vinda do Filho de Deus e seu batismo no Jordão — (Descida de Cristo ao Inferno 4:3)
- Isaías se identifica e reconhece na luz o cumprimento da própria profecia — (Descida de Cristo ao Inferno 5:1)
- Davi e Jeremias recordam suas profecias, e os patriarcas passam a se reconhecer — (Descida de Cristo ao Inferno 6:1)
A entrada do Rei da Glória
- A voz repete a ordem de abrir as portas, e o Inferno pergunta quem é o Rei da Glória — (Descida de Cristo ao Inferno 7:1)
- Chega um homem com aspecto de ladrão, carregando uma cruz, e conta que foi crucificado ao lado de Jesus — (Descida de Cristo ao Inferno 7:2)
- Portas, fechaduras e ferrolhos se despedaçam, e Satanás é acorrentado e lançado ao Tártaro — (Descida de Cristo ao Inferno 8:1)
- Adão e Eva beijam as mãos do Senhor e reconhecem nelas as mãos que os criaram — (Descida de Cristo ao Inferno 9:1)
- A pedido dos santos, a cruz é deixada no meio do Inferno como sinal de vitória — (Descida de Cristo ao Inferno 10:1)
- Os dois relatores saem com o Senhor e são enviados a dar testemunho da ressurreição e do que viram nos Infernos — (Descida de Cristo ao Inferno 10:2)
- Lidos os dois rolos, verifica-se que não diferem em uma só letra, e o povo chora quarenta dias — (Descida de Cristo ao Inferno 11:2)
Eis as mãos que me criaram, elas dão testemunho a todos.
Conteúdo da recensão grega
A forma grega conta a mesma sequência, mas com moldura mínima e sem os episódios longos do latim. Não há o interrogatório na sinagoga da Galileia, não há Karino e Lêucio nomeados, não há Seth nem o óleo da misericórdia, e não há o bom ladrão com a cruz às costas. Em compensação, ela traz três cenas que a latina não tem: João Batista pregando entre os mortos, a repreensão longa do Inferno a Satanás depois da derrota, e o encontro com Enoque e Elias na porta do paraíso.
A narrativa na recensão grega
- José de Arimateia lembra que Simeão e seus dois filhos também ressuscitaram, e os sepulcros são achados vazios — (Descida de Cristo ao Inferno 1:1)
- A luz da meia-noite ilumina o Hades e Isaías reconhece nela a própria profecia — (Descida de Cristo ao Inferno 2:1)
- João Batista aparece entre os mortos e anuncia a chegada do Filho de Deus àquele lugar — (Descida de Cristo ao Inferno 2:2)
- Satanás pede ao Inferno que prepare a prisão de Jesus, alegando que é apenas um homem — (Descida de Cristo ao Inferno 4:1)
- O Inferno recusa: lembra Lázaro, arrancado de suas entranhas por uma palavra, e teme perder todos os mortos — (Descida de Cristo ao Inferno 4:3)
- Davi e Isaías zombam do Inferno citando as profecias que escreveram em vida — (Descida de Cristo ao Inferno 5:2)
- As portas de bronze e os ferrolhos se desfazem, os mortos perdem as correntes e o Rei da Glória entra em figura humana — (Descida de Cristo ao Inferno 5:3)
- O Rei da Glória prende Satanás pelo pescoço e o entrega ao Inferno até a segunda vinda — (Descida de Cristo ao Inferno 6:2)
- O Inferno repreende Satanás: o que ele ganhou pela árvore, perdeu pela cruz — (Descida de Cristo ao Inferno 7:1)
- O Rei da Glória estende a mão direita e levanta Adão, e todos agradecem por serem tirados do Inferno — (Descida de Cristo ao Inferno 8:1)
- O Salvador assinala Adão na testa com o sinal da cruz e faz o mesmo com patriarcas, profetas e mártires — (Descida de Cristo ao Inferno 8:2)
- Na porta do paraíso, Enoque e Elias explicam que ainda enfrentarão o anticristo — (Descida de Cristo ao Inferno 9:1)
- Os relatores se identificam apenas como os dois irmãos gêmeos, entregam metade do escrito aos pontífices e metade a José e Nicodemos, e desaparecem — (Descida de Cristo ao Inferno 11:1)
Tudo o que ganhaste pela árvore da ciência puseste a perder pela cruz. Todo o teu gozo converteu-se em tristeza.
A base bíblica e o que o texto acrescenta
O Novo Testamento fala de uma pregação aos mortos e de uma descida, mas em passagens breves e disputadas. A primeira carta de Pedro é o núcleo do debate: quem são os "espíritos em prisão", quando ocorreu a pregação e a quem ela se destinava seguem sem leitura única entre os intérpretes.
Paulo, citando o Salmo 68, fala de uma descida às "partes mais baixas da terra" e de uma subida acima de todos os céus. A expressão é lida por uns como o mundo dos mortos e por outros simplesmente como a encarnação.
Mateus registra que, na morte de Jesus, sepulcros se abriram e muitos santos ressuscitaram. Esse é o gancho narrativo de que a obra parte: os dois relatores são apresentados como parte desse grupo.
O texto litúrgico que estrutura toda a cena, repetido nas duas recensões como o grito diante das portas, é o Salmo 24. A pergunta "quem é este Rei da Glória?" e a resposta "o Senhor forte e poderoso" vêm daí, palavra por palavra.
As portas de bronze e os ferrolhos de ferro que se despedaçam vêm de outro salmo, citado pelo Davi da narrativa.
A luz que amanhece sobre os que habitam na região das sombras é Isaías, atribuído no texto ao próprio profeta, presente entre os mortos.
A recensão grega amplia o repertório: o Isaías dela cita a terra de Zabulão e de Neftali, e mais adiante junta a promessa de que os mortos ressuscitarão com o desafio "onde está, ó morte, a tua vitória?", que no Novo Testamento aparece na boca de Paulo.
O que o Novo Testamento não oferece, e a obra fornece, é o roteiro: o diálogo entre Satanás e o Inferno, a resistência armada às portas, o acorrentamento do adversário, o nome dos que foram libertados e a cena de Adão beijando as mãos do Senhor. Nada disso é escritura; é desenvolvimento narrativo de um punhado de versículos.
Antecedentes e paralelos
A ideia da pregação aos mortos é bem anterior a esta obra. O Evangelho de Pedro, do século II, traz uma cena curta e estranha em que uma voz do céu pergunta se houve pregação aos que dormem, e a própria cruz responde que sim.
O episódio do óleo da misericórdia, exclusivo da recensão latina, é retomado da Vida de Adão e Eva, onde Seth vai à porta do paraíso pedir o óleo e o arcanjo Miguel o adia para o fim dos tempos. A obra reaproveita a promessa e a declara cumprida.
O elo com a primeira parte do Evangelho de Nicodemos é explícito: os três mestres galileus que abrem a Descida latina são os mesmos que, no fim dos Atos de Pilatos, depõem sobre a ascensão, com pequenas variações nos nomes entre uma cópia e outra.
Entre os autores cristãos antigos, o tema aparece bem antes do texto: Inácio de Antioquia, Irineu, Melitão de Sardes, Tertuliano e Orígenes tratam de alguma forma da ação de Cristo entre os mortos. A obra não inventou a crença; deu a ela enredo, personagens e diálogo.
Recepção e canonicidade
A obra nunca foi canônica em tradição alguma, nem no Oriente nem no Ocidente, e não consta de nenhuma lista canônica antiga. Isso não a tornou marginal: no Ocidente medieval, o Evangelho de Nicodemos foi um dos apócrifos mais copiados, traduzido para praticamente todas as línguas vernáculas europeias e transformado em matéria de sermão, de iluminura e de teatro. O ciclo do saque do inferno é presença fixa nos mistérios ingleses e franceses dos séculos XIV e XV.
A cena é hoje mais conhecida pela linha do Credo dos Apóstolos, "desceu aos infernos", mas convém não inverter a cronologia. A cláusula entra em texto credal primeiro em grego, na quarta fórmula de Sirmio (359) e nos textos aparentados de Nice e Constantinopla. Em latim, a forma descendit ad inferna é citada por Rufino de Aquileia por volta de 404, no comentário ao credo de Aquileia, e o próprio Rufino observa que a cláusula não estava nem no credo romano nem nos orientais que conhecia, e que seu sentido lhe parecia equivalente ao de "foi sepultado". Só depois ela se fixa na redação do Credo dos Apóstolos que a liturgia ocidental recebeu. Ou seja, a crença já era formulada em credo antes de a Descida assumir a forma que temos. O que a obra fez foi popularizar uma cena, não criar um artigo de fé.
A leitura da própria descida nunca foi unânime, e as diferenças continuam vivas. A teologia católica medieval e tridentina fala de um limbo dos patriarcas, de onde Cristo tira os justos que já estavam salvos. A ortodoxia lê a Anástasis como esvaziamento do Hades, com alcance mais amplo. Lutero manteve a descida como acontecimento real e triunfal; Calvino a interpretou como figura do sofrimento penal de Cristo na cruz, e boa parte da tradição reformada o segue. Entre exegetas modernos, a própria referência de Pedro aos "espíritos em prisão" é lida ora como anjos caídos, ora como os mortos do dilúvio. A obra representa uma dessas leituras, a mais dramática, não a posição comum da igreja antiga.
Edições de referência
O texto de base que circulou por mais de um século é o de Constantin von Tischendorf, Evangelia Apocrypha (1853; segunda edição em 1876), que imprimiu lado a lado a forma grega e as duas latinas. H. C. Kim editou a versão latina a partir do manuscrito Einsiedeln 326 (Toronto, 1973). O censo manuscrito de referência é o de Zbigniew Izydorczyk, Manuscripts of the Evangelium Nicodemi: A Census (Toronto, 1993), completado pelo volume coletivo The Medieval Gospel of Nicodemus (1997), organizado pelo mesmo autor. O estudo moderno de referência sobre o tema e a tradição textual é o de Rémi Gounelle, La descente du Christ aux enfers: institutionnalisation d'une croyance (Paris, 2000), a quem se deve também a reedição da recensão grega B.