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Descida de Cristo ao Inferno
Recensão latina: a forma longa, com o depoimento dos três mestres vindos da Galileia diante do conselho em Jerusalém, Karino e Lêucio nomeados, Seth e o óleo da misericórdia, e o bom ladrão com a cruz às costas
Relato apócrifo do que Cristo teria feito entre a sexta-feira da crucificação e a manhã da ressurreição: a entrada no reino dos mortos, o confronto com Satanás e o Inferno personificados, e a libertação dos justos que ali esperavam desde Adão. Circula como segunda parte do Evangelho de Nicodemos, colada ao final dos Atos de Pilatos, e é o texto que deu forma narrativa ao episódio que a arte e o teatro medievais chamariam de harrowing of hell, o saque do inferno.
Esta página traz a recensão latina, a forma longa e a mais copiada: mais de quatrocentos manuscritos latinos, quase todos medievais. Dela vêm os três mestres vindos da Galileia e o interrogatório diante do conselho em Jerusalém, os dois ressuscitados nomeados Karino e Lêucio, a busca de Seth pelo óleo da misericórdia e o bom ladrão com a cruz às costas.
A obra chegou também numa forma grega, que não é tradução desta nem esta daquela em sentido simples: divergem no enquadramento, na extensão e em episódios inteiros. Se o que você procura são João Batista pregando entre os mortos, a repreensão longa do Inferno a Satanás depois da derrota ou o encontro com Enoque e Elias na porta do paraíso, é a outra que você quer.
(Descida de Cristo ao Inferno (recensão grega) 1:1)
Autoria e datação
A obra é anônima e pseudoepigráfica. O texto se apresenta como depoimento escrito por dois mortos que voltaram, e a recensão latina os nomeia Karino e Lêucio; a grega os chama apenas de "os dois irmãos gêmeos" e os identifica como filhos do Simeão que tomou o menino Jesus nos braços. Editores e estudiosos desde o século XIX notam que os dois nomes juntos formam Lêucio Karino, o autor lendário a quem a antiguidade tardia atribuía vários Atos apócrifos, e leem aí uma assinatura disfarçada do compilador. É uma hipótese, não um dado: não se sabe sequer quando esse nome se ligou à Descida, e nenhum autor real é conhecido.
A datação é debatida, e convém separar duas camadas. Os Atos de Pilatos, a primeira parte, retomam uma tradição antiga: Justino Mártir (por volta de 150) manda o leitor conferir "as Atas redigidas no tempo de Pôncio Pilatos", e Tertuliano (por volta de 197) afirma que Pilatos relatou o caso a Tibério. Não se sabe se falavam deste texto, de um documento hoje perdido ou de nada além de uma suposição.
(1 Apologia de Justino Mártir 35:9)
A Descida é mais tardia, e nada indica que tenha nascido junto com os Atos de Pilatos: ela não aparece na recensão grega A do Evangelho de Nicodemos nem nas versões orientais antigas (copta, siríaca, armênia), que transmitem só a primeira parte.
As propostas se espalham. Autores que veem no episódio um núcleo antigo o puxam para os séculos II e III, apoiados na difusão precoce do tema da pregação aos mortos. M. R. James (1924) já conjecturava que a Descida não fora anexada aos Atos de Pilatos antes do século V, e essa é a faixa que manuais de apócrifos ainda repetem. Rémi Gounelle, que reeditou e estudou a tradição, argumenta que a Descida só foi concebida como terceira parte da obra a partir do século VI, em meio latino. Não há consenso, e a incerteza é estrutural: a obra circulou como apêndice de outra obra, sofrendo acréscimos a cada cópia.
Sobre a língua de origem a discussão segue aberta. Tischendorf e a erudição do século XIX supunham um original grego antigo. Um ponto hoje é pacífico: a forma grega que temos não é o texto antigo. Gounelle trata a recensão grega B não como descendente direta de um apócrifo grego perdido, mas como retroversão ampliada do latim A, feita por volta dos séculos IX e X. O que continua em disputa é o que existia antes disso. Izydorczyk admite que o enredo pode ter nascido em meio grego, já que homilias gregas dos séculos V e VI atribuídas a Eusébio de Alexandria e a Epifânio contam cena parecida, e conclui que a Descida provavelmente se juntou aos Atos de Pilatos em latim entre os séculos V e IX; se foi traduzida do grego para isso ou se já era latina, ele mesmo classifica como especulação. O que se pode afirmar sem hedge é que o texto que sobreviveu é latino, e que ao menos um episódio dele, o de Seth e o óleo, foi montado sobre a Vida de Adão e Eva latina.
As duas recensões publicadas aqui
Disponibilizamos as duas formas em que a obra chegou, e elas não são a mesma história contada duas vezes: divergem no enquadramento, na extensão e em episódios inteiros. Comparar as duas colunas é a maneira mais direta de ver como um apócrifo cresce na transmissão.
| Recensão | Transmissão | O que a caracteriza |
|---|---|---|
| Latina | Base manuscrita enorme. O censo de Zbigniew Izydorczyk (1993) registra mais de quatrocentos códices latinos do Evangelho de Nicodemos (cerca de 424 preservados, além de uma dúzia perdidos ou destruídos), quase todos medievais. É a via pela qual o texto entrou na Europa ocidental. | Tem moldura judiciária completa: os três mestres galileus, o interrogatório diante do conselho, os dois ressuscitados escrevendo em salas separadas, e a conferência dos dois rolos ao final. Inclui o episódio de Seth e o óleo da misericórdia, o bom ladrão chegando com a cruz às costas e o desfecho com o luto dos judeus. |
| Grega | Transmitida como recensão B dos Atos de Pilatos, em cerca de trinta códices bizantinos, que Gounelle (2008) edita em sinopse segundo três formas textuais sucessivas (M1, M2 e M3). São tardios: M. R. James (1924) registrava não conhecer cópia da recensão B anterior ao século XV. | Mais curta e mais direta. Abre com José de Arimateia apontando os filhos de Simeão, e no lugar do óleo da misericórdia traz João Batista pregando aos mortos e o encontro com Enoque e Elias na porta do paraíso. Os dois relatores ficam sem nome. |
A diferença de peso manuscrito tem uma consequência prática: a recensão latina é o testemunho mais completo e o mais copiado, mas é também a mais retrabalhada. A tradição latina, por sua vez, não é homogênea, e os editores costumam separá-la em pelo menos duas famílias, chamadas latim A e latim B, com diferenças de extensão e de detalhes narrativos.
Conteúdo da recensão latina
A moldura: dois mortos depõem em Jerusalém
- Três mestres vindos da Galileia contam ao conselho que encontraram mortos vestidos de branco, entre eles Karino e Lêucio — (Descida de Cristo ao Inferno 1:1)
- Os dois declaram que ressuscitaram com Cristo e que só podem falar por permissão do Espírito Santo — (Descida de Cristo ao Inferno 1:2)
- Quinze homens verificam os sepulcros e os encontram abertos, sem ossos nem cinzas — (Descida de Cristo ao Inferno 1:4)
- Impedidos de falar, os dois pedem papel e tinta e escrevem em salas separadas — (Descida de Cristo ao Inferno 1:8)
A disputa entre Satanás e o Inferno
- Uma luz rasga as trevas e a voz do Filho ordena que as portas eternas se abram — (Descida de Cristo ao Inferno 2:1)
- Satanás manda trancar as portas e reforçar os ferrolhos — (Descida de Cristo ao Inferno 2:2)
- O Inferno teme receber o recém-chegado e adverte Satanás de que ambos podem ficar presos — (Descida de Cristo ao Inferno 3:1)
- Satanás se gaba de ter incitado os judeus e de ter armado a traição por meio de um dos discípulos — (Descida de Cristo ao Inferno 3:2)
- O Inferno lembra Lázaro, arrancado de suas entranhas por uma só palavra, e conclui que aquele não é apenas homem — (Descida de Cristo ao Inferno 3:3)
Os santos que esperavam
- Adão responde a Satanás e anuncia que ele será acorrentado para sempre — (Descida de Cristo ao Inferno 4:1)
- Adão manda Seth contar o que ouviu na porta do paraíso sobre o óleo da misericórdia — (Descida de Cristo ao Inferno 4:2)
- Seth relata que o arcanjo Miguel adiou o óleo até a vinda do Filho de Deus e seu batismo no Jordão — (Descida de Cristo ao Inferno 4:3)
- Isaías se identifica e reconhece na luz o cumprimento da própria profecia — (Descida de Cristo ao Inferno 5:1)
- Davi e Jeremias recordam suas profecias, e os patriarcas passam a se reconhecer — (Descida de Cristo ao Inferno 6:1)
A entrada do Rei da Glória
- A voz repete a ordem de abrir as portas, e o Inferno pergunta quem é o Rei da Glória — (Descida de Cristo ao Inferno 7:1)
- Chega um homem com aspecto de ladrão, carregando uma cruz, e conta que foi crucificado ao lado de Jesus — (Descida de Cristo ao Inferno 7:2)
- Portas, fechaduras e ferrolhos se despedaçam, e Satanás é acorrentado e lançado ao Tártaro — (Descida de Cristo ao Inferno 8:1)
- Adão e Eva beijam as mãos do Senhor e reconhecem nelas as mãos que os criaram — (Descida de Cristo ao Inferno 9:1)
- A pedido dos santos, a cruz é deixada no meio do Inferno como sinal de vitória — (Descida de Cristo ao Inferno 10:1)
- Os dois relatores saem com o Senhor e são enviados a dar testemunho da ressurreição e do que viram nos Infernos — (Descida de Cristo ao Inferno 10:2)
- Lidos os dois rolos, verifica-se que não diferem em uma só letra, e o povo chora quarenta dias — (Descida de Cristo ao Inferno 11:2)
Eis as mãos que me criaram, elas dão testemunho a todos.
O que muda na recensão grega
A forma grega conta a mesma sequência, mas com moldura mínima e sem os episódios longos daqui. Lá não há os três mestres galileus, não há os dois escrevendo em salas separadas nem a conferência dos rolos, não há Karino e Lêucio nomeados, não há Seth nem o óleo da misericórdia, e não há o bom ladrão com a cruz às costas. No lugar disso, uma cena curta de juramento na sinagoga, aberta por José de Arimateia, e três episódios que esta recensão não tem.
As três cenas exclusivas da recensão grega
- João Batista aparece entre os mortos e anuncia a chegada do Filho de Deus àquele lugar — (Descida de Cristo ao Inferno (recensão grega) 2:2)
- Depois da derrota, o Inferno repreende Satanás longamente por ter providenciado a crucificação — (Descida de Cristo ao Inferno (recensão grega) 7:1)
- Na porta do paraíso, os libertados encontram Enoque e Elias, que ainda enfrentarão o anticristo — (Descida de Cristo ao Inferno (recensão grega) 9:1)
A narrativa grega completa, com manuscritos e datação próprios, está no índice da outra recensão.
(Descida de Cristo ao Inferno (recensão grega) 1:1)
Tudo o que ganhaste pela árvore da ciência puseste a perder pela cruz. Todo o teu gozo converteu-se em tristeza.
A base bíblica e o que o texto acrescenta
O Novo Testamento fala de uma pregação aos mortos e de uma descida, mas em passagens breves e disputadas. A primeira carta de Pedro é o núcleo do debate: quem são os "espíritos em prisão", quando ocorreu a pregação e a quem ela se destinava seguem sem leitura única entre os intérpretes.
Paulo, citando o Salmo 68, fala de uma descida às "partes mais baixas da terra" e de uma subida acima de todos os céus. A expressão é lida por uns como o mundo dos mortos e por outros simplesmente como a encarnação.
Mateus registra que, na morte de Jesus, sepulcros se abriram e muitos santos ressuscitaram. Esse é o gancho narrativo de que a obra parte: os dois relatores são apresentados como parte desse grupo.
O texto litúrgico que estrutura toda a cena, repetido nas duas recensões como o grito diante das portas, é o Salmo 24. A pergunta "quem é este Rei da Glória?" e a resposta "o Senhor forte e poderoso" vêm daí, palavra por palavra.
As portas de bronze e os ferrolhos de ferro que se despedaçam vêm de outro salmo, citado pelo Davi da narrativa.
A luz que amanhece sobre os que habitam na região das sombras é Isaías, atribuído no texto ao próprio profeta, presente entre os mortos.
A recensão grega amplia o repertório: o Isaías dela cita a terra de Zabulão e de Neftali, e mais adiante junta a promessa de que os mortos ressuscitarão com o desafio "onde está, ó morte, a tua vitória?", que no Novo Testamento aparece na boca de Paulo.
O que o Novo Testamento não oferece, e a obra fornece, é o roteiro: o diálogo entre Satanás e o Inferno, a resistência armada às portas, o acorrentamento do adversário, o nome dos que foram libertados e a cena de Adão beijando as mãos do Senhor. Nada disso é escritura; é desenvolvimento narrativo de um punhado de versículos.
Antecedentes e paralelos
A ideia da pregação aos mortos é bem anterior a esta obra. O Evangelho de Pedro, do século II, traz uma cena curta e estranha em que uma voz do céu pergunta se houve pregação aos que dormem, e a própria cruz responde que sim.
O episódio do óleo da misericórdia, exclusivo da recensão latina, é retomado da Vida de Adão e Eva, onde Seth vai à porta do paraíso pedir o óleo e o arcanjo Miguel o adia para o fim dos tempos. A obra reaproveita a promessa e a declara cumprida.
O elo com a primeira parte do Evangelho de Nicodemos é explícito: os três mestres galileus que abrem a Descida latina são os mesmos que, no fim dos Atos de Pilatos, depõem sobre a ascensão, com pequenas variações nos nomes entre uma cópia e outra.
Entre os autores cristãos antigos, o tema aparece bem antes do texto: Inácio de Antioquia, Irineu, Melitão de Sardes, Tertuliano e Orígenes tratam de alguma forma da ação de Cristo entre os mortos. A obra não inventou a crença; deu a ela enredo, personagens e diálogo.
Recepção e canonicidade
A obra nunca foi canônica em tradição alguma, nem no Oriente nem no Ocidente, e não consta de nenhuma lista canônica antiga. Isso não a tornou marginal: no Ocidente medieval, o Evangelho de Nicodemos foi um dos apócrifos mais copiados, traduzido para praticamente todas as línguas vernáculas europeias e transformado em matéria de sermão, de iluminura e de teatro. O ciclo do saque do inferno é presença fixa nos mistérios ingleses e franceses dos séculos XIV e XV.
A cena é hoje mais conhecida pela linha do Credo dos Apóstolos, "desceu aos infernos", mas convém não inverter a cronologia. A cláusula aparece em texto credal pela primeira vez na quarta fórmula de Sirmio (359), formulário de linha homeia, retomado nos textos aparentados de Nice e Constantinopla. A forma latina descendit ad inferna é citada por Rufino de Aquileia por volta de 404, no comentário ao credo de Aquileia. O próprio Rufino observa duas coisas: a cláusula não estava nem no credo romano nem nos orientais que conhecia, e seu sentido lhe parecia equivalente ao de "foi sepultado". Só depois ela se fixa na redação do Credo dos Apóstolos que a liturgia ocidental recebeu. Ou seja, a crença já era formulada em credo antes de a Descida assumir a forma que temos. O que a obra fez foi popularizar uma cena, não criar um artigo de fé.
A leitura da própria descida nunca foi unânime, e as diferenças continuam vivas. A teologia católica medieval e tridentina fala de um limbo dos patriarcas, de onde Cristo tira os justos que já estavam salvos. A ortodoxia lê a Anástasis como esvaziamento do Hades, com alcance mais amplo. Lutero manteve a descida como acontecimento real e triunfal; Calvino a interpretou como figura do sofrimento penal de Cristo na cruz, e boa parte da tradição reformada o segue. Entre exegetas modernos, a própria referência de Pedro aos "espíritos em prisão" é lida ora como anjos caídos, ora como os mortos do dilúvio. A obra representa uma dessas leituras, a mais dramática, não a posição comum da igreja antiga.
Edições de referência
O texto de base que circulou por mais de um século é o de Constantin von Tischendorf, Evangelia Apocrypha (1853; segunda edição em 1876), que imprimiu lado a lado a forma grega e as duas latinas. H. C. Kim editou a versão latina a partir do manuscrito Einsiedeln 326 (Toronto, 1973). O censo manuscrito de referência é o de Zbigniew Izydorczyk, Manuscripts of the Evangelium Nicodemi: A Census (Toronto, 1993), completado pelo volume coletivo The Medieval Gospel of Nicodemus (1997), organizado pelo mesmo autor. O estudo moderno de referência sobre o tema e a tradição textual é o de Rémi Gounelle, La descente du Christ aux enfers: institutionnalisation d'une croyance (Paris, 2000), a quem se deve também a reedição da recensão grega B.