Descida de Cristo ao Inferno 4
O Inferno respondeu: “Herdeiro das trevas, filho da perdição, caluniador, acabas de dizer-me que ele fazia reviver somente com sua palavra a muitos dos que tu havias preparado para a sepultura; se, pois, ele livrou outros do sepulcro, como e com que forças nós seremos capazes de subjugá-lo? Há pouco tempo devorei um cadáver chamado Lázaro; porém, pouco depois, um dos vi-vos, somente com sua palavra, arrancou-o à força das minhas entranhas. E penso que ele é o mesmo ao qual tu te referes. Se, pois, viermos a recebê-lo aqui, tenho medo de que corramos perigo também com relação aos demais porque deves saber que vejo agitados todos os que devorei desde o princípio, e sinto dores na minha barriga. E Lázaro, aquele que me foi arrebatado anteriormente, não é um bom presságio, pois voou para longe de mim, não como um morto mas sim como uma águia: tão rapidamente arremessou-o fora da terra. Assim, pois, conjuro-te por tuas artes e pelas minhas, não o tragas aqui. Tenho para mim que o fato de ele ter-se apresentado em nossa mansão quer dizer que todos os mortos cometeram pecado. E considera que, pelas trevas que possuímos, se o trouxeres aqui, não me restará nem um só dos mortos”.