Quem é crucificado. Nos evangelhos canônicos, é o próprio Jesus que é pregado na cruz e morre. No Apocalipse Copta de Pedro, Pedro vê o Jesus vivo rir acima da cruz enquanto apenas o seu substituto carnal é pregado, uma cristologia docética que nega o sofrimento real do Salvador.
Capítulos
Apocalipse Copta de Pedro
Autoria e Data de Composição
O Apocalipse Copta de Pedro é um texto gnóstico anônimo, atribuído de forma pseudoepigráfica ao apóstolo Pedro. A composição original, em grego, costuma ser datada entre o final do século II e o século III d.C. A obra usa o nome de Pedro como personagem e selo de autoridade, não como assinatura: o enquadramento de uma revelação secreta dada ao apóstolo serve para legitimar a tradição gnóstica diante da igreja majoritária.
É preciso não confundir esta obra com o Apocalipse de Pedro etíope (ou grego), um texto proto-ortodoxo do século II com visões do céu e do inferno. São livros distintos: o que se apresenta aqui é o apocalipse gnóstico, conhecido apenas pela cópia de Nag Hammadi, marcado por uma cristologia docética e por forte polêmica contra a hierarquia eclesiástica.
Descoberta e Manuscrito
O texto sobreviveu numa tradução copta (dialeto saídico) preservada no Códice VII de Nag Hammadi, onde ocupa o terceiro tratado (designado VII,3), nas páginas 70 a 84 do códice. A biblioteca de Nag Hammadi foi achada no Alto Egito em 1945 e os códices são datados, em geral, do século IV d.C. Esta é a única cópia conhecida da obra, e a versão copta é a base de todas as traduções modernas.
Conteúdo Principal
A obra tem a forma de um diálogo de revelação. O Salvador, sentado no templo, fala a Pedro e o prepara para uma visão. Boa parte do texto é uma polêmicacontra outros cristãos: os que se apegam ao "nome de um morto", os falsos mestres, e os que "se nomeiam bispos e diáconos" sem terem o conhecimento verdadeiro, comparados a canais secos. O clímax é a cena da crucificação, na qual Pedro vê o Salvador desdobrado em duas figuras.
- O Salvador, sentado no templo, declara bem-aventurados os que pertencem ao Pai — (Apocalipse Copta de Pedro 1:1)
- Pedro é chamado a tornar-se perfeito "de acordo com seu nome", fundamento do remanescente — (Apocalipse Copta de Pedro 1:3)
- Sacerdotes e povo correm com pedras, e Pedro teme pela própria vida — (Apocalipse Copta de Pedro 2:1)
- Os que virão depois se apegarão ao "nome de um morto", pensando que ficarão puros — (Apocalipse Copta de Pedro 3:3)
- Os que se nomeiam bispos e diáconos são chamados de "canais secos" — (Apocalipse Copta de Pedro 5:6)
- Não se colhem figos de espinhos: cada natureza produz segundo a sua origem — (Apocalipse Copta de Pedro 4:4)
- Pedro vê dois: aquele que prendem e aquele que está alegre e rindo sobre a cruz — (Apocalipse Copta de Pedro 6:2)
- O Salvador explica: o que ri é o Jesus vivo, e o pregado é só a parte carnal, o substituto — (Apocalipse Copta de Pedro 6:3)
- O que soltaram foi o corpo incorpóreo: o verdadeiro Salvador é o Espírito intelectual — (Apocalipse Copta de Pedro 6:9)
- Encerrada a revelação, Pedro volta a si — (Apocalipse Copta de Pedro 7:4)
A Revelação no Templo
A Polêmica Contra a Igreja Majoritária
A Visão Docética da Crucificação
A Cristologia Docética
O ponto mais debatido do livro é a sua leitura da cruz. Na visão de Pedro, o que os algozes prendem e pregam é a parte carnal de Jesus, o "substituto", enquanto o Jesus vivo está acima, alegre e rindo, intocado pelo sofrimento. Essa é a posição que a heresiologia antiga chamou de docetismo (do grego dokein, "parecer"): a tese de que Cristo apenas aparentou sofrer e morrer. Autores como Irineu de Lyon combateram explicitamente esse tipo de cristologia. O texto a apresenta, ao contrário, como o conhecimento secreto reservado aos eleitos.
Comparação com o Relato Canônico
O contraste fica claro ao alinhar a cena da cruz com o evangelho de João:
Status Canônico
O Apocalipse Copta de Pedro não é canônico em nenhuma tradição cristã: nem católica, nem ortodoxa, nem protestante. Sua negação do sofrimento real de Cristo e sua oposição direta à autoridade dos bispos o tornavam incompatível com o cristianismo que veio a se firmar como maioria. O valor da obra hoje é histórico: ela documenta tanto a cristologia docética quanto o conflito de autoridade entre correntes gnósticas e a igreja institucional do século II.
Sobre Esta Tradução
O texto em português disponibilizado aqui foi traduzido a partir da versão em inglês de domínio público preparada pela equipe do Coptic Gnostic Library Project (tradução de James Brashler e Roger A. Bullard), com base no copta do Códice VII de Nag Hammadi. As lacunas e reconstruções do manuscrito original aparecem indicadas por colchetes ao longo do texto.