Quando Joseph Smith Foi Juiz do Próprio Caso

Cinco cargos, um homem

Entre 1842 e 1844, Joseph Smith ocupou simultaneamente cinco posições de autoridade em Nauvoo, Illinois. Era presidente da Igreja desde 1830, tenente-general da Legião de Nauvoo desde o início de 1841, membro e presidente do conselho municipal, prefeito da cidade a partir de 19 de maio de 1842, e, por força do mesmo cargo de prefeito, juiz-presidente do tribunal municipal. A acumulação não era clandestina nem irregular pelos termos da lei local: ela decorria diretamente do texto da carta que criou a cidade.

A Carta de Nauvoo foi aprovada pela legislatura de Illinois e sancionada pelo governador Thomas Carlin em 16 de dezembro de 1840. Ela previa um conselho municipal formado pelo prefeito, quatro vereadores (aldermen) e nove conselheiros. A Seção 17 estabelece que o tribunal municipal seria composto pelo prefeito como juiz-presidente (chief justice) e pelos vereadores como juízes associados. Ou seja, o mesmo grupo de pessoas legislava e julgava. Isso não era invenção mórmon: cartas municipais da época em Illinois costumavam misturar funções. O que era incomum era a extensão do que aquele tribunal podia fazer.

O mecanismo do habeas corpus de Nauvoo

A cláusula decisiva está na mesma Seção 17 e precisa ser citada com exatidão, porque a limitação que ela contém é o núcleo de toda a controvérsia. O tribunal municipal recebeu poder de conceder mandados de habeas corpus "em todos os casos surgidos sob as ordenanças do conselho municipal". Habeas corpus é o instrumento pelo qual um preso pede a um juiz que examine a legalidade da prisão. A leitura restrita da cláusula, defendida por juristas de Illinois na época, é que a expressão "surgidos sob as ordenanças" limitava o poder a prisões feitas com base no direito da própria cidade, o que a tornaria quase inútil fora de multas locais. A leitura ampla, adotada pelo conselho de Nauvoo em ordenanças de 1842 e 1843, é que o tribunal podia examinar qualquer prisão feita dentro dos limites da cidade, inclusive prisões determinadas por autoridades estaduais ou por requisições vindas de outro estado.

O efeito prático da leitura ampla foi este: quando um oficial chegava a Nauvoo com um mandado para levar Joseph Smith, ele podia pedir um habeas corpus ao tribunal da sua própria cidade, composto pelos vereadores que ele ajudara a eleger e com quem votava as ordenanças, e cujo juiz-presidente, fora daquele processo, era ele mesmo. O tribunal examinava o mandado, muitas vezes ia além da forma e discutia o mérito da acusação, e o soltava. Nenhuma dessas decisões era revista por instância superior, porque o tribunal municipal não estava encaixado na hierarquia judiciária do estado.

Antes de percorrer os episódios, é preciso desfazer um erro que circula muito. Em nenhum dos três casos em que Joseph Smith figurou como réu ou preso ele presidiu o próprio processo. Os registros de audiência publicados pelos Joseph Smith Papers mostram que, em cada um deles, um vereador foi eleito presidente pro tempore no lugar do juiz-presidente, exatamente por ele estar sob acusação. A objeção real não é essa, e é mais difícil de responder: quem o substituía eram seus próprios vereadores e correligionários, e num dos casos um dos juízes associados era corréu no mesmo processo e não se recusou.

Os três episódios documentados

O primeiro caso é o do atentado contra Lilburn W. Boggs, ex-governador do Missouri e autor da ordem de extermínio de 1838 contra os mórmons. Boggs foi baleado em Independence em maio de 1842 e sobreviveu. O Missouri acusou Orrin Porter Rockwell de disparar e Joseph Smith de ser cúmplice antes do fato, e o governador de Illinois, Thomas Carlin, expediu mandado de prisão. Em 8 de agosto de 1842, oficiais chegaram a Nauvoo para prender os dois. O tribunal municipal expediu os mandados de habeas corpus naquele mesmo dia, e o registro de audiência é explícito quanto a quem presidiu: Orson Spencer foi eleito presidente pro tempore "na ausência do juiz-presidente, que estava sob prisão". Compareceram como juízes associados William Marks, Newel K. Whitney, George W. Harris, o próprio Spencer e Gustavus Hills. Os oficiais recusaram a jurisdição da corte local, e Joseph Smith ficou escondido por meses. O caso só se resolveu fora de Nauvoo: em 5 de janeiro de 1843, o juiz federal Nathaniel Pope, em Springfield, declarou defeituoso o affidavit assinado por Boggs e o libertou. Vale registrar que a decisão que efetivamente resolveu o caso veio de um tribunal federal, e não do tribunal municipal.

O segundo caso é o de junho de 1843. Um grande júri do Missouri reativou a acusação de traição de 1838, e o governador Thomas Reynolds pediu extradição ao novo governador de Illinois, Thomas Ford, que expediu o mandado. Em 23 de junho de 1843, o xerife Joseph H. Reynolds, do Missouri, e o oficial Harmon T. Wilson, de Illinois, prenderam Joseph Smith perto de Dixon, longe de Nauvoo. Depois de uma disputa jurídica que envolveu mandados cruzados, o grupo acabou levado para Nauvoo, e em 1 de julho de 1843 o tribunal municipal ouviu testemunhas, examinou tanto a legalidade da extradição quanto o mérito dos fatos de 1838, e o soltou. Também aqui ele não presidiu: William Marks atuou como presidente pro tempore, com Daniel H. Wells, Newel K. Whitney, George W. Harris, Gustavus Hills e Hiram Kimball como juízes associados, e Joseph Smith compareceu na dupla condição de preso e peticionário. Foi esse episódio que consolidou, na imprensa de Illinois, a percepção de que Nauvoo havia se tornado um território fora do alcance da lei estadual.

O terceiro caso é o mais citado, e é preciso descrevê-lo com exatidão porque a versão popular exagera num ponto e deixa passar outro, mais grave. Em 10 de junho de 1844, o conselho municipal, presidido por Joseph Smith como prefeito, declarou o jornal Nauvoo Expositor uma "nuisance" pública, e o prefeito ordenou ao marshal municipal que a destruísse. Dois dias depois, em 12 de junho, um mandado de prisão por tumulto (riot) chegou contra ele e mais dezesseis pessoas. O caso foi ao tribunal municipal naquela mesma tarde, e ele não sentou como juiz: por ser o peticionário, recusou-se, e o vereador George W. Harris foi eleito presidente pro tempore. A corte decidiu que o prefeito agira sob autoridade legítima, que a ordem fora executada de forma ordeira, que a acusação era maliciosa, e o desobrigou.

Duas ressalvas documentadas pesam sobre essa recusa. A primeira é que os juízes associados eram os mesmos vereadores que dois dias antes haviam votado a declaração de nuisance. A segunda é que um deles, Samuel Bennett, era corréu de Joseph Smith no mesmo processo de tumulto e não se recusou.

E aí vem o fato mais forte do episódio, que a versão popular perde de vista justamente por estar ocupada com a acusação errada. No dia seguinte, 13 de junho de 1844, o registro de audiência do tribunal municipal começa com "Present Joseph Smith Chief justice", tendo como associados William Marks, Newel K. Whitney, George W. Harris, Gustavus Hills e Elias Smith. O diário dele naquele dia anota, às nove da manhã, ter presidido a corte municipal. E o que a corte fez foi descarregar os dezesseis corréus acusados do mesmo tumulto, entre eles Hyrum Smith, John Taylor e Orrin Porter Rockwell. Ou seja: ele não julgou a acusação contra si, mas presidiu pessoalmente, como juiz-presidente, o tribunal que absolveu os demais acusados pelo ato que ele próprio havia ordenado como prefeito.

Cinco dias depois, em 17 de junho, o grupo compareceu diante de Daniel H. Wells, juiz de paz que não era membro da Igreja àquela altura, numa tentativa de responder à acusação de parcialidade. Wells também os absolveu, mas a opinião pública do condado de Hancock já não distinguia as audiências.

Quem presidiu cada caso

EpisódioDataQuem presidiuPapel de Joseph SmithDesfecho
Extradição pelo atentado a Boggs8 de agosto de 1842Orson Spencer, presidente pro tempore, na ausência do juiz-presidente sob prisãoPreso e peticionárioHabeas corpus expedido; caso só resolvido pelo juiz federal Nathaniel Pope em 5 de janeiro de 1843
Extradição por traição, prisão por Reynolds e Wilson1 de julho de 1843William Marks, presidente pro tempore, com Wells, Whitney, Harris, Hills e KimballPreso e peticionárioLiberado pelo tribunal municipal
Tumulto pela destruição do Expositor, acusação contra ele12 de junho de 1844George W. Harris, presidente pro tempore; Samuel Bennett, corréu, não se recusouRéu e peticionário; recusou-se a presidirDesobrigado da acusação
Tumulto pela destruição do Expositor, acusação contra os corréus13 de junho de 1844Joseph Smith, como juiz-presidente, com Marks, Whitney, Harris, Hills e Elias SmithJuiz do processo sobre a ordem que ele mesmo dera como prefeitoDezesseis corréus descarregados
Tumulto, audiência fora do tribunal municipal17 de junho de 1844Daniel H. Wells, juiz de paz que não era membro da IgrejaRéuAbsolvido; sem efeito sobre a opinião pública do condado

Os cargos, lado a lado

CargoDesde quandoO que dava poder para fazer
Presidente da Igreja1830Autoridade sobre doutrina, disciplina, ordenação e excomunhão
Tenente-general da Legião de NauvooFevereiro de 1841Comandar a milícia da cidade, unidade da milícia estadual de Illinois
Membro e presidente do conselho municipal1841Redigir, propor e votar as ordenanças que regiam a cidade
Regente da Universidade da Cidade de Nauvoo1841Governar a instituição de ensino criada pela carta
Prefeito de Nauvoo19 de maio de 1842Chefiar o Executivo municipal e expedir ordens diretas ao marshal
Juiz da corte do prefeito19 de maio de 1842Julgar infrações menores e violações de ordenanças municipais
Juiz-presidente do tribunal municipal19 de maio de 1842, por ser prefeitoJulgar apelações e conceder habeas corpus nos casos sob as ordenanças da cidade

Os registros legais publicados pelos Joseph Smith Papers mostram que ele presidiu cerca de setenta e sete casos entre a corte do prefeito e o tribunal municipal, dos quais sobrevivem registros de trinta e sete. Ele não tinha formação jurídica e trabalhava consultando os estatutos do estado, as ordenanças da cidade e os comentários de William Blackstone.

O contraste com o próprio cânone

A ironia deste capítulo é que o texto que a Igreja considera escritura, publicado em 1830, é em boa medida um tratado contra a concentração de poder. No Livro de Mórmon, o rei Mosias abole a monarquia justamente porque um governante injusto contamina todo o sistema, e propõe substituí-la por juízes escolhidos pela voz do povo.

16 Agora vos digo que, por não serem todos os homens justos, não é aconselhável que tenhais um rei ou reis que vos governem.

17 Pois eis que quanta iniquidade um rei iníquo faz com que se cometa; sim, e que grandes destruições!

21 E eis que agora vos digo que não podeis destronar um rei iníquo, a não ser com muitas lutas e derramamento de muito sangue.

22 Pois eis que ele tem companheiros de iniquidade e conserva-se rodeado de seus guardas; e anula as leis dos que reinaram com retidão antes dele e pisoteia os mandamentos de Deus;

23 E decreta leis e envia-as ao povo, sim, leis segundo sua própria iniquidade; e quem a elas não obedece ele faz com que seja destruído; e, contra os que se rebelam, envia seus exércitos para guerreá-los; e, se pode, destrói-os; e assim, um rei injusto perverte os caminhos de toda retidão.

25 Portanto, escolhei juízes pela voz deste povo, para que sejais julgados de acordo com as leis que vos foram dadas por nossos pais, as quais são corretas e foram dadas a eles pela mão do Senhor.

Mais direto ainda é o caso de Alma, que era ao mesmo tempo juiz supremo e sumo sacerdote e que decide, no nono ano do governo dos juízes, separar as duas funções. Ele entrega a cadeira do juízo a Nefia e fica só com o sacerdócio. O texto explica a razão: ele queria poder pregar e corrigir o povo pela palavra, e não pela autoridade civil.

18 Ora, Alma não lhe concedeu o ofício de sumo sacerdote da igreja, mas reservou para si próprio o ofício de sumo sacerdote; entregou, porém, a Nefia a cadeira de juiz.

20 E assim, no começo do nono ano em que os juízes governaram o povo de Néfi, Alma entregou a cadeira de juiz a Nefia e dedicou-se exclusivamente ao sumo sacerdócio da santa ordem de Deus, ao testemunho da palavra, de acordo com o espírito de revelação e profecia.

O mesmo livro descreve o que acontece quando a magistratura é capturada: em Helamã, as leis foram corrompidas porque quem preferia o mal era maioria, e em 3 Néfi o juiz supremo é assassinado na própria cadeira e o governo se desfaz em tribos.

2 Porque como as suas leis e os seus governos eram estabelecidos pela voz do povo, e os que preferiam o mal eram mais numerosos do que os que preferiam o bem, estavam, portanto, amadurecendo para a destruição, porque as leis haviam sido corrompidas.

1 Ora, eis que vos mostrarei que não estabeleceram um rei na terra; mas nesse mesmo ano, sim, no trigésimo ano, destruíram, sim, assassinaram o juiz supremo da terra na cadeira de juiz.

2 E os do povo dividiram-se, uns contra os outros; e separaram-se em tribos, cada homem segundo sua família, parentes e amigos; e assim destruíram o governo da terra.

E o próprio Livro de Mórmon insiste que a lei nefita punia atos, não crenças, o que é uma separação explícita entre autoridade civil e autoridade religiosa.

11 Porque havia uma lei que os homens deveriam ser julgados segundo seus crimes. Não obstante, nenhuma lei havia contra a crença de um homem; portanto, o homem somente era castigado pelos crimes que cometia; portanto, todos se achavam em igualdade de condições.

O décimo segundo Artigo de Fé, escrito por Joseph Smith em 1842, declara submissão a reis, presidentes, governantes e magistrados, e obediência à lei. A tensão entre esse artigo e o uso do habeas corpus municipal para bloquear mandados estaduais é o problema histórico central deste tema, e ela é interna ao mormonismo, não uma objeção importada de fora.

12 Cremos na submissão a reis, presidentes, governantes, e magistrados; na obediência, honra, e manutenção da lei.

A tradição bíblica de que Joseph Smith se dizia herdeiro trata do mesmo problema. Samuel adverte Israel sobre o que um rei fará quando tiver poder, e a lei do rei em Deuteronômio impõe limites explícitos ao governante: ele não deve multiplicar cavalos, mulheres nem prata, e deve manter uma cópia da lei diante de si para não se elevar acima de seus irmãos.

11 E disse: Este será o costume do rei que houver de reinar sobre vós; ele tomará os vossos filhos, e os empregará nos seus carros, e como seus cavaleiros, para que corram adiante dos seus carros.

12 E os porá por chefes de mil, e de cinqüenta; e para que lavrem a sua lavoura, e façam a sua sega, e fabriquem as suas armas de guerra e os petrechos de seus carros.

13 E tomará as vossas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras.

14 E tomará o melhor das vossas terras, e das vossas vinhas, e dos vossos olivais, e os dará aos seus servos.

15 E as vossas sementes, e as vossas vinhas dizimará, para dar aos seus oficiais, e aos seus servos.

16 Também os vossos servos, e as vossas servas, e os vossos melhores moços, e os vossos jumentos tomará, e os empregará no seu trabalho.

17 Dizimará o vosso rebanho, e vós lhe servireis de servos.

18 Então naquele dia clamareis por causa do vosso rei, que vós houverdes escolhido; mas o Senhor não vos ouvirá naquele dia.

14 Quando entrares na terra que te o Senhor teu Deus, e a possuíres, e nela habitares, e disseres: Porei sobre mim um rei, assim como têm todas as nações que estão em redor de mim;

15 Porás certamente sobre ti como rei aquele que escolher o Senhor teu Deus; dentre teus irmãos porás rei sobre ti; não poderás pôr homem estranho sobre ti, que não seja de teus irmãos.

16 Porém ele não multiplicará para si cavalos, nem fará voltar o povo ao Egito para multiplicar cavalos; pois o Senhor vos tem dito: Nunca mais voltareis por este caminho.

17 Tampouco para si multiplicará mulheres, para que o seu coração não se desvie; nem prata nem ouro multiplicará muito para si.

18 Será também que, quando se assentar sobre o trono do seu reino, então escreverá para si num livro, um traslado desta lei, do original que está diante dos sacerdotes levitas.

19 E o terá consigo, e nele lerá todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer ao Senhor seu Deus, para guardar todas as palavras desta lei, e estes estatutos, para cumpri-los;

20 Para que o seu coração não se levante sobre os seus irmãos, e não se aparte do mandamento, nem para a direita nem para a esquerda; para que prolongue os seus dias no seu reino, ele e seus filhos no meio de Israel.

A conclusão factual precisa ficar nas duas metades. Joseph Smith nunca presidiu um processo em que ele mesmo era o acusado: em 1842, 1843 e em 12 de junho de 1844 há sempre um presidente pro tempore no lugar dele, e os registros de audiência dizem isso com todas as letras. A defesa formal contra o conflito de interesse existia e foi acionada. O que não mudava era o resultado, porque quem o substituía eram seus vereadores e correligionários, num dos casos um corréu que não se recusou, e porque em 13 de junho de 1844 ele presidiu sim, como juiz-presidente, o processo sobre a ordem que ele havia assinado como prefeito, ainda que os acusados fossem outros. O problema, portanto, não é de pessoa, é de desenho institucional: a carta pôs legislador, executor e julgador no mesmo grupo de treze homens, e nenhuma recusa individual conserta isso.

Historiadores dividem-se sobre como ler a acumulação. Richard Bushman a situa no contexto de uma comunidade que havia sido expulsa do Missouri sob ordem de extermínio, que não obtivera reparação, e que construiu instituições próprias para se defender de um Estado que julgava não protegê-la. Críticos contemporâneos, incluindo os dissidentes que fundaram o Nauvoo Expositor, viam nela exatamente o que o próprio Livro de Mórmon condena. Os dois lados usam fatos que não estão em disputa: os cargos existiam, a cláusula da carta existia, e as decisões do tribunal municipal estão registradas.

O debate

Perspectivas sobre este tema

Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.

Crítico HistóricoEle não sentava no banco quando era a parte, e isso nunca mudava o resultado: os juízes eram seus subordinados, e em 13 de junho de 1844 ele presidiu.

O ponto de partida honesto é o texto da carta, não a caricatura dela. A Nauvoo Charter, aprovada em 16 de dezembro de 1840, estabelece na Seção 17 um tribunal municipal composto pelo prefeito como chief justice e pelos vereadores como juízes associados, com poder de conceder writs de habeas corpus "in all cases arising under the ordinances of the City Council", isto é, em casos surgidos sob as ordenanças do próprio conselho. Essa última cláusula é o nó jurídico inteiro. Cidades de Illinois recebiam pacotes de poderes parecidos no período, e a carta em si não era uma anomalia. O que se tornou anômalo foi a prática: o conselho legislou ampliando o alcance do writ até alcançar prisões feitas sob mandados de outras jurisdições, e o tribunal passou a examinar não apenas se a custódia era formalmente regular, que é a função clássica do habeas corpus, mas se a acusação de fundo tinha mérito. Uma cidade não pode alargar por ordenança própria a jurisdição que a legislatura estadual lhe concedeu, porque então o limite deixa de limitar. Vale registrar que a libertação que de fato encerrou o caso Boggs não veio de Nauvoo: veio do juiz federal Nathaniel Pope, em Springfield, em 5 de janeiro de 1843, ao declarar defeituoso o affidavit do ex-governador. O sistema externo funcionou onde o interno apenas adiava.

É preciso ser preciso sobre quem sentava no banco, porque a versão fácil dessa acusação é falsa e não precisa ser usada. Joseph Smith não presidiu os processos em que ele próprio figurava como réu ou peticionário, e os registros documentam que ele não sentava no banco quando era a parte, anotando que o chief justice estava preso ou sob julgamento. Em 8 de agosto de 1842, no caso Boggs, o tribunal expediu os writs com Orson Spencer eleito president pro tem, o docket anotando a ausência do chief justice "who was under arrest". Em 1 de julho de 1843, depois da prisão por Reynolds e Wilson perto de Dixon em 23 de junho, quem presidiu foi William Marks, com Daniel H. Wells, Newel K. Whitney, George W. Harris, Gustavus Hills e Hiram Kimball como associados; Smith estava ali como preso e peticionário. Em 12 de junho de 1844, no caso do Expositor, George W. Harris foi eleito president pro tempore porque o prefeito estava sob julgamento, como o docket registra, e Smith estava ali como réu preso por Bettisworth, não apenas como peticionário. Quem afirma que o réu presidiu o próprio julgamento está errado quanto ao fato, e a crítica que depende disso desaba. O problema real é outro, e é mais interessante: a forma foi cumprida e o resultado não mudou nenhuma vez.

O que os mesmos registros mostram é a irrelevância prática da recusa. Os president pro tempore não eram magistrados neutros trazidos de fora: eram os vereadores da cidade que Smith presidia, correligionários e subordinados diretos dele na hierarquia eclesiástica. Em 12 de junho de 1844, enquanto Smith se recusava, o juiz associado Samuel Bennett, que era corréu no mesmo caso, não se recusou e permaneceu no banco. E no dia seguinte, 13 de junho, o docket registra "Present Joseph Smith Chief justice", com Marks, Whitney, Harris, Hills e Elias Smith como associados, e esse tribunal descarregou os dezesseis corréus, entre eles Hyrum Smith, John Taylor e Porter Rockwell, acusados do mesmo motim, ou seja, da destruição da imprensa que Smith havia ordenado como prefeito. O diário dele naquele dia é lacônico: "9 A M. Presided in Munic[i]pal Court". Ele não julgou a si mesmo, mas julgou o próprio ato na pessoa de quem o executou sob sua ordem. Dallin H. Oaks, escrevendo na Utah Law Review em 1965 quando era professor de direito na Universidade de Chicago, concedeu que declarar um jornal nuisance tinha sustentação na doutrina jurídica de 1844, pelas acusações de difamação e imoralidade e não pelo conteúdo político ou religioso, e sustentou que destruir os exemplares impressos ainda cabia na doutrina de abatement, mas que não havia justificação legal em 1844 para destruir a prensa. A concessão vem de dentro, não de um adversário.

É preciso engajar o que torna isso difícil, e depois separar explicar de justificar. A perseguição no Missouri foi real: a ordem de extermínio do governador Lilburn Boggs, de outubro de 1838, e os meses de Smith preso em Liberty sem julgamento não são retórica. Illinois falhou repetidamente, e Carthage provou o ponto da pior maneira, com o prisioneiro morto sob custódia do estado e os acusados absolvidos no julgamento que Oaks e Marvin Hill reconstruíram em Carthage Conspiracy. Uma comunidade que aprendeu que os tribunais externos não a protegiam tinha motivo racional para erguer um escudo jurídico próprio, e Richard Bushman descreve essa lógica sem hostilidade. Mas o teste mais duro dessa prática não vem da doutrina jurídica americana e sim do cânone que a própria igreja publica, e o leitor pode abrir os textos aqui. Em Mosias 29 a monarquia é abolida sob o argumento de que o poder concentrado num homem contamina o povo inteiro. Em Alma 4:15-20 Alma larga a cadeira do juízo para ficar só no ministério, separando de propósito o civil do religioso. Helamã e 3 Néfi 7 narram o colapso nefita pela corrupção dos juízes. O décimo segundo Artigo de Fé declara sujeição a magistrados e obediência à lei. Samuel adverte Israel em 1 Samuel 8:11-18, e Deuteronômio 17:14-20 põe o rei sob a lei escrita. A tensão é interna, e a devoção não a dissolve.

Apologista EvidencialJoseph Smith não julgou o próprio caso: recusou-se por impedimento. No dia seguinte julgou os dezesseis homens que cumpriram sua ordem.

Convém começar pelo que a documentação sustenta, porque a versão cética popular erra num ponto verificável e o erro custa caro. A doutrina de nuisance no direito americano de 1844 de fato alcançava publicações em alguns precedentes estaduais, e quem estabeleceu isso com rigor não foi um defensor devocional: foi Dallin H. Oaks, então professor da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, em The Suppression of the Nauvoo Expositor, na Utah Law Review de 1965. Também é verdade que as cartas municipais da era jacksoniana concediam poderes hoje impensáveis, e que a Seção 17 da carta de Nauvoo, aprovada pela legislatura de Illinois em 16 de dezembro de 1840, previa expressamente uma corte composta pelo prefeito como juiz-presidente e pelos vereadores como juízes associados. Isso não foi arranjo clandestino: foi voto de uma legislatura estadual num período em que ambos os partidos cortejavam o eleitorado mórmon. E a acumulação de funções executivas, legislativas e judiciais numa mesma pessoa era rotina em cidades de fronteira, onde havia pouquíssima gente com formação jurídica. O contexto de ameaça tampouco é retórica defensiva: a ordem executiva de Lilburn Boggs, de outubro de 1838, autorizava tratar os mórmons como inimigos a serem exterminados ou expulsos, dias antes do massacre de Haun's Mill, e Illinois falharia de novo em junho de 1844, quando Smith foi morto sob custódia estatal em Carthage.

A formulação de que ele foi juiz do próprio caso é literalmente falsa, e vale corrigi-la porque a correção não absolve, apenas desloca o problema para onde ele de fato está. Em agosto de 1842, no caso do atentado contra Boggs, os writs de 8 de agosto registram Orson Spencer eleito president pro tem, na ausência do juiz-presidente, que estava sob prisão. Smith não presidiu. A libertação definitiva veio meses depois, em 5 de janeiro de 1843, de um juiz federal, Nathaniel Pope, em Springfield, que julgou defeituoso o affidavit de Boggs. Em 1 de julho de 1843, no caso Reynolds e Wilson, quem presidiu foi William Marks como president pro tem, com Daniel H. Wells, Newel K. Whitney, George W. Harris, Gustavus Hills e Hiram Kimball como associados; Smith compareceu como preso e peticionário. E em 12 de junho de 1844, no caso do Expositor, George W. Harris atuou como president pro tempore porque Smith se recusou, sendo ele o peticionário. Havia, portanto, uma regra de impedimento, e ela foi observada nos três episódios em que ele era a parte. Em 17 de junho, um exame perante Daniel H. Wells, vereador e juiz de paz que naquela altura não era membro da igreja, chegou ao mesmo resultado e descarregou os réus.

Dito isso, há um registro que nenhuma leitura caridosa dissolve, e ele é mais grave do que a acusação imprecisa que circula. No dia 13 de junho de 1844, o docket da corte municipal traz Present Joseph Smith Chief justice, com Marks, Whitney, Harris, Hills e Elias Smith como associados, e o tribunal descarregou os dezesseis corréus acusados do mesmo motim, entre eles Hyrum Smith, John Taylor e Porter Rockwell. O diário dele naquele dia anota, sem constrangimento, ter presidido a corte municipal às nove da manhã. Ou seja: recusou-se na véspera por ser peticionário, e vinte e quatro horas depois presidiu o julgamento dos homens que executaram a ordem que ele próprio expedira como prefeito. A recusa formal foi cumprida; o interesse material continuou intacto. Some-se a isso que o juiz associado Samuel Bennett, corréu de Smith no mesmo caso, não se recusou. E o mérito continua desfavorável: a carta autorizava habeas corpus em casos surgidos sob as ordenanças da cidade, e usá-lo para revisar mandados de outro estado excedeu o texto aprovado, conclusão à qual juristas mórmons como Edwin Firmage e Collin Mangrum também chegaram. Oaks é explícito ao dizer que não havia justificação legal em 1844 para destruir a prensa.

A tensão mais dura é interna, e o leitor deveria senti-la antes de qualquer resolução. O Livro de Mórmon é, nesse ponto, quase antimonárquico: Mosias 29 abole a realeza porque um rei injusto corrompe tudo, e a queda nefita é narrada como corrupção do sistema de juízes. Alma 4:15-20 vai adiante e entrega a cadeira do juízo justamente para não somar poder civil e sacerdócio. Regras de Fé 1:12 professa sujeição a magistrados e obediência à lei. Deuteronômio 17:14-20 submete o rei a uma lei que ele não escreveu, e 1 Samuel 8:11-18 antecipa o custo da autoridade sem contrapeso. Nauvoo inverteu esse desenho, e a inversão é fato, não polêmica hostil. O que se pode dizer com integridade é pouco e deve ser dito sem amortecedor: que a concentração de poder tenha nascido de uma emergência documentada não a torna compatível com o padrão que os próprios textos publicaram, e alegar que um profeta é isento do critério que ele mesmo divulgou é evasão, não apologética. Quem sustenta a origem revelada desses textos precisa aceitar que eles julgam quem os trouxe. Quem os lê como composição do século dezenove precisa explicar por que o autor plantaria neles a crítica mais exata que já se fez à sua própria administração. O episódio não decide a questão da inspiração: fecha as saídas fáceis dos dois lados.