Emma Hale
Emma Hale nasceu em 10 de julho de 1804, na Pensilvânia, e casou-se com Joseph Smith em 18 de janeiro de 1827, em South Bainbridge, Nova York. O pai dela, Isaac Hale, recusou consentimento, e o casal fugiu para casar. Ela morreu em Nauvoo em 30 de abril de 1879, aos 74 anos.
A vida familiar dela é indissociável de perda. De nove filhos biológicos, quatro morreram no nascimento ou nas primeiras horas, e Don Carlos morreu aos 14 meses. Em 1831 Emma e Joseph adotaram os gêmeos de Julia Murdock, morta no parto, nove dias depois de Emma perder os seus próprios gêmeos. Um dos adotados morreu em março de 1832, dias depois de uma turba invadir a casa, arrastar Joseph Smith para fora no frio da noite e deixar a porta aberta com a criança doente dentro. Cinco chegaram à idade adulta, incluindo Joseph Smith III, nascido em 1832, e David Hyrum, nascido em novembro de 1844, cinco meses depois do assassinato do pai.
A Sociedade de Socorro
Em 17 de março de 1842, na sala superior da loja de tijolos de Joseph Smith em Nauvoo, foi organizada a Sociedade de Socorro Feminina, com vinte mulheres presentes. Emma foi eleita presidente por unanimidade e escolheu como conselheiras Sarah M. Cleveland e Elizabeth Ann Whitney; Eliza R. Snow ficou como secretária e Elvira Cowles como tesoureira. O propósito registrado nas atas incluía corrigir os costumes e fortalecer a virtude da comunidade feminina. Três dessas quatro mulheres da mesa diretora eram, naquele momento, esposas plurais de Joseph Smith.
Nas atas de 19 de maio de 1842, Emma declarou que era necessário expor o pecado, que havia pecados graves entre eles, e que muito dessa iniquidade era praticada por alguns em autoridade, fingindo ser sancionados pelo presidente Smith. O alvo declarado era John C. Bennett e seu sistema de esposas espirituais, que Joseph Smith repudiava em público. A mesma linguagem, porém, descrevia sem alteração alguma o que acontecia em sigilo.
Em março de 1844 Emma apresentou à Sociedade um documento chamado "A voz da inocência de Nauvoo", que ela mesma revisou, e submeteu a votação o compromisso de sustentar a presidência em pôr abaixo a iniquidade, aprovado por unanimidade. As últimas atas são de 16 de março de 1844, e a Sociedade nunca mais se reuniu enquanto Joseph viveu; em março de 1845 Brigham Young bloqueou sua retomada, e ela só foi restabelecida em 1867. Historiadores leem o episódio como o uso da Sociedade por Emma contra o casamento plural, inclusive o autorizado pelo marido. John Taylor, recordando em 1881, disse que a Sociedade foi suspensa porque Emma ensinava que o casamento celestial praticado por Joseph Smith não era de Deus.
Fanny Alger e a excomunhão de Oliver Cowdery
O primeiro caso é o de Fanny Alger, em Kirtland, em meados da década de 1830. O ensaio da Igreja de 2014 o reconhece e acrescenta que nada se sabe sobre as conversas entre Joseph e Emma a respeito. Os relatos de que Emma descobriu a relação e expulsou Fanny de casa vêm de fontes tardias e hostis, sobretudo da família Webb, publicadas em 1886, e devem ser tratados como alegação atribuída, não como documento contemporâneo.
O que é documento é a carta de Oliver Cowdery ao irmão Warren, de 21 de janeiro de 1838, que se refere ao episódio entre Joseph e Fanny Alger com as palavras "sujo, nojento, imundo". Em 12 de abril de 1838, em Far West, Cowdery foi julgado pelo sumo conselho sob nove acusações. A segunda era procurar destruir o caráter do presidente Joseph Smith insinuando falsamente que ele era culpado de adultério. Ela foi sustentada, e Cowdery, uma das Três Testemunhas do Livro de Mórmon, perdeu a filiação.
1843: o consentimento e a retratação
Emily e Eliza Partridge, filhas do primeiro bispo da Igreja, moravam na casa dos Smith. Emily foi selada a Joseph em 4 de março de 1843 e Eliza poucos dias depois, sem que Emma soubesse e sem que uma soubesse da outra. Em maio de 1843 Emma consentiu em dar duas esposas ao marido, com a condição de escolhê-las, e escolheu justamente as duas irmãs, sem saber que já estavam seladas. Em 11 de maio de 1843 uma segunda cerimônia foi realizada na presença de Emma, que colocou a mão de cada moça na de Joseph.
A retratação foi imediata. Emily escreveu que Emma pareceu bem até o fim da cerimônia e que, quase antes de tomar o segundo fôlego, virou-se e ficou mais amarga que antes; que quis que as duas se divorciassem na hora, como se bastasse dizer a palavra; e que ela e a irmã foram rejeitadas e tiveram de deixar a cidade. As irmãs Lawrence, Sarah e Maria, órfãs sob tutela legal de Joseph, foram seladas no mesmo mês, também com o conhecimento de Emma segundo Lovina Walker, e essas permaneceram na casa. Já com Flora Ann Woodworth houve confronto aberto: o diário de William Clayton registra, em 23 de agosto de 1843, que Emma exigiu o relógio de ouro que Joseph dera a Flora e que o casal brigou duramente na volta para casa.
A revelação de 12 de julho de 1843
Hyrum Smith, convencido da doutrina em maio de 1843, insistiu que Joseph pusesse a revelação por escrito para persuadir Emma, dizendo que a leria a ela e a convenceria. Naquela manhã, William Clayton escreveu sob ditado um texto de dez páginas sobre a ordem do sacerdócio, tratando dos desígnios de Moisés, Abraão, Davi e Salomão terem muitas esposas. É o documento que se tornaria a seção 132 de Doutrina e Convênios, obra que não hospedamos e que por isso fica aqui como menção textual. O diário de Clayton daquele mesmo dia registra que Joseph e Hyrum apresentaram o texto a Emma, que disse não acreditar numa palavra dele.
A revelação dirige-se a Emma pelo nome. Ela ordena que Emma receba todas as que foram dadas a Joseph e que são virtuosas e puras, e determina que Emma permaneça e se apegue a seu servo Joseph e a nenhum outro, acrescentando que, se ela não obedecer a este mandamento, será destruída. Em seguida prevê que, caso ela recuse, Joseph será abençoado e multiplicado, o que na prática o isenta da condição. Os dois movimentos estão no mesmo texto: a exigência de consentimento e a cláusula que dispensa esse consentimento se ele não vier.
O manuscrito original foi destruído. Nenhuma fonte contemporânea registra a queima: ela repousa no afidávit de Clayton de 1874 e em recordações paralelas, e os editores dos Joseph Smith Papers preferem dizer que o original foi destruído por Emma ou por Joseph a pedido dela. O texto sobreviveu porque Newel K. Whitney pediu permissão para copiá-lo e Joseph C. Kingsbury fez a cópia poucos dias depois, conferindo-a contra o original. A cópia Kingsbury é o texto mais antigo existente da seção 132 e a base de tudo que veio depois.
Depois de 1844
Joseph Smith foi morto em 27 de junho de 1844. Emma rompeu com Brigham Young por motivos que se somaram: a disputa sobre o que era patrimônio pessoal e o que era da Igreja, a administração do espólio, e a recusa dela em aceitar o casamento plural, mesmo em princípio, quando os Doze estavam comprometidos com ele. Ela não foi para o oeste. Em 23 de dezembro de 1847, data em que Joseph Smith teria feito 42 anos, casou-se com Lewis Crum Bidamon, que não era mórmon, e permaneceu em Nauvoo até a morte. Em 6 de abril de 1860, na conferência de Amboy, Illinois, seu filho Joseph Smith III assumiu a presidência da igreja reorganizada; Emma estava presente e foi recebida sem novo batismo. A denominação passou a chamar-se Igreja Reorganizada de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em 1872, e Comunidade de Cristo em 2001.
A negação
Emma negou a vida inteira, e a negação mais conhecida é a última. Entre 4 e 10 de fevereiro de 1879 seu filho Joseph Smith III a entrevistou em Nauvoo, na presença do marido dela, com perguntas combinadas de antemão. O texto foi publicado como "Último testemunho da irmã Emma" no Saints Herald de 1º de outubro de 1879, menos de três meses depois da morte dela.
Perguntada se Joseph não teve outras esposas além dela, respondeu que ele não teve nenhuma outra esposa senão ela, nem, até onde soubesse, jamais teve. Perguntada se ele não manteve relações conjugais com outras mulheres, respondeu que ele não teve relações impróprias com nenhuma mulher que chegasse ao conhecimento dela. Perguntada sobre a revelação, respondeu que não houve revelação alguma nem sobre poligamia nem sobre esposas espirituais. O filho anexou uma certificação de que leu as perguntas e respostas à mãe no dia anterior à partida e que ela as confirmou.
| O que Emma afirmou publicamente | O que a documentação de Nauvoo mostra |
|---|---|
| Joseph não teve outra esposa senão ela, em sentido algum, espiritual ou não | Historiadores documentam entre 30 e 40 selamentos plurais entre 1841 e 1843, número que a própria Igreja SUD publicou em 2014. |
| Não houve revelação alguma sobre poligamia | O diário de William Clayton, escrito em 12 de julho de 1843, registra que ele escreveu naquela manhã uma revelação de dez páginas sobre o assunto, e que ela foi lida a Emma. |
| Ele não teve relações impróprias com nenhuma mulher que chegasse ao conhecimento dela | Emily Partridge e Malissa Lott declararam sob juramento, no processo do Temple Lot em 1892, ter tido relação conjugal com Joseph Smith. |
| Os rumores sobre casamentos espirituais eram sem fundamento | Emma consentiu pessoalmente na segunda cerimônia com as irmãs Partridge, em 11 de maio de 1843, colocando a mão de cada uma na de Joseph, segundo o relato de Emily. |
| A prática vinha de John C. Bennett e de seu sistema de esposas espirituais | Bennett foi de fato repudiado publicamente em 1842, mas os selamentos documentados de Joseph Smith começam em abril de 1841, antes do episódio Bennett, e seguem até novembro de 1843. |
É preciso dizer o que essa tabela é e o que ela não é. Ela não estabelece que Emma mentiu com plena consciência de tudo. A prática era sigilosa por desenho, e há casos em que ela demonstravelmente não sabia, como o primeiro selamento das irmãs Partridge. Há também casos em que ela demonstravelmente sabia, porque participou da cerimônia. O que a tabela estabelece é que a afirmação pública e a documentação não podem ser as duas verdadeiras. Os dois lados tinham motivo evidente: Emma defendia a memória do marido e a legitimidade sucessória do filho, e os coletores de afidávits em Utah construíam o registro jurídico e doutrinário do casamento plural contra exatamente essa negação.
Vale registrar ainda que a mesma entrevista de 1879 contém a descrição de Emma do processo de tradução do Livro de Mórmon, com Joseph lendo de uma pedra dentro do chapéu, e que essa parte é hoje tratada como historicamente confiável, inclusive em materiais da própria Igreja SUD. Ou seja, a entrevista não é descartada em bloco por ninguém: é a seção sobre poligamia que colide com o resto da documentação.
Por que isso ainda separa duas tradições
A negação de Emma não ficou como episódio biográfico. Ela virou fundamento institucional. A Igreja Reorganizada construiu boa parte de sua identidade sobre a tese de que Joseph Smith nunca praticou nem ensinou o casamento plural, e que a prática foi originada por Brigham Young. O testemunho de 1879 é o documento fundador dessa posição, e o confronto probatório maior foi o processo do Temple Lot, entre 1892 e 1894, em que o advogado da Reorganizada contra-interrogou as viúvas sobreviventes que testemunhavam o contrário.
A posição foi cedendo por dentro. O próprio Joseph Smith III, ao fim da vida, disse não estar seguro da inocência do pai, acrescentando que, se houvesse praticado, a prática ainda assim era falsa. No século 20, o historiador oficial Richard P. Howard foi encarregado de investigar a origem da poligamia e concluiu que Joseph Smith a originou, contra a posição vigente da denominação, publicando depois uma análise própria em 1983. A Comunidade de Cristo de hoje já não sustenta institucionalmente a tese antiga, ainda que continue afirmando que ela mesma nunca praticou poligamia, e que parte da membresia siga não convencida.
É por isso que este assunto não é uma curiosidade histórica. Duas igrejas com o mesmo fundador divergem sobre um fato verificável de 1843, e cada uma organizou um século de identidade em torno da resposta que deu. A documentação existente aponta numa direção. A afirmação de Emma, a pessoa que estava mais perto do fato do que qualquer historiador jamais estará, aponta na outra.