A paixão amplificada
O Evangelho de Pedro sobreviveu num fragmento encontrado em 1886 num túmulo em Akhmim, no Egito. O que resta começa no julgamento e vai até depois da ressurreição. A narrativa segue de perto os evangelhos canônicos na estrutura, mas amplifica tudo: a culpa recai mais explicitamente sobre Herodes e os judeus, Pilatos é quase inocentado, e os prodígios da ressurreição ganham proporções espetaculares ausentes do Novo Testamento.
1 Mas, dos judeus, ninguém lavou as mãos, nem Herodes nem nenhum dos seus juízes. E, como não quiseram lavar, Pilatos se levantou.
2 Então Herodes, o rei, ordenou que o Senhor fosse entregue às mãos deles, dizendo: Tudo o que ordenei que fizessem a ele, façam.
24 Então Pilatos, vendo que nada aproveitava, antes o tumulto crescia, tomando água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Estou inocente do sangue deste justo. Considerai isso.
25 E, respondendo todo o povo, disse: O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos.
26 Então soltou-lhes Barrabás, e, tendo mandado açoitar a Jesus, entregou-o para ser crucificado.
A cruz que fala e os anjos gigantes
O traço mais extraordinário é a cena da ressurreição. Os guardas veem dois homens descerem do céu e entrarem no túmulo; depois saem três figuras, duas delas tão altas que suas cabeças tocam o céu, e a terceira, ainda mais alta, ultrapassa os céus. Atrás deles segue uma cruz. E então uma voz do céu pergunta se a pregação alcançou "os que dormem", e a própria cruz responde: "Sim". É a célebre cruz que fala, sem qualquer paralelo nos canônicos.
39 e, enquanto ainda lhes contavam as coisas que tinham visto, viram de novo três homens saírem do sepulcro, e dois deles sustentavam o outro, e uma cruz os seguia.
40 E das cabeças dos dois eles viram que alcançavam o céu, mas a daquele que era conduzido por eles ultrapassava os céus.
42 E ouviu-se uma resposta da cruz, dizendo: Sim.
1 E, no fim do sábado, quando já despontava o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro.
2 E eis que houvera um grande terremoto, porque um anjo do Senhor, descendo do céu, chegou, removendo a pedra da porta, e sentou-se sobre ela.
3 E o seu aspecto era como um relâmpago, e as suas vestes brancas como neve.
4 E os guardas, com medo dele, ficaram muito assombrados, e como mortos.
5 Mas o anjo, respondendo, disse às mulheres: Não tenhais medo; pois eu sei que buscais a Jesus, que foi crucificado.
6 Ele não está aqui, porque já ressuscitou, como havia dito. Vinde, vede o lugar onde o Senhor jazia.
7 Ide pois, imediatamente, e dizei aos seus discípulos que já ressuscitou dentre os mortos. E eis que ele vai adiante de vós para a Galiléia; ali o vereis. Eis que eu vo-lo tenho dito.
A suspeita de docetismo
Há na crucificação um detalhe teologicamente carregado: ao ser pregado, Jesus "ficou em silêncio, como quem não sente dor", e seu grito na cruz é "Meu poder, meu poder, tu me abandonaste", seguido de ele ser "levado para o alto". A frase sobre a ausência de dor sugere docetismo, a ideia de que Cristo só parecia ter um corpo humano e não sofria de verdade. Foi exatamente isso que levou o bispo Serapião de Antioquia, por volta de 200 d.C., a examinar o texto e proibir sua leitura nas igrejas, por achá-lo afim a um grupo herético.
10 E trouxeram dois malfeitores e crucificaram o Senhor entre eles. Mas ele ficou em silêncio, como quem não sente dor.
19 E o Senhor clamou em alta voz, dizendo: Meu poder, meu poder, tu me abandonaste. E, tendo dito isto, foi levado para o alto.
34 E, à hora nona, Jesus exclamou com grande voz, dizendo: Eloí, Eloí, lamá sabactâni? que, traduzido, é: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
Datação e o debate sobre a fonte
O texto é geralmente datado no século 2. O ponto disputado é se ele depende inteiramente dos canônicos, apenas amplificando-os com lenda, ou se preserva, sob a camada lendária, uma tradição antiga e independente da paixão. A maioria dos estudiosos vê amplificação tardia; uma minoria defende um núcleo primitivo. De qualquer modo, os prodígios sem paralelo e o tom antijudaico marcam a distância entre este evangelho e os quatro.