A Descida de Cristo ao Inferno (Evangelho de Nicodemos)

Duas obras costuradas

O que se chama Evangelho de Nicodemos é, na prática, a junção de dois blocos. O primeiro são os Atos de Pilatos, um relato pormenorizado do julgamento, da crucificação e do sepultamento de Jesus, narrado do ponto de vista das autoridades judaicas e romanas, com testemunhos a favor de Jesus diante de Pilatos. O segundo é a descida de Cristo ao inferno, talvez a parte mais influente do apócrifo na imaginação cristã.

1 Depois de se haverem reunido em conselho os príncipes dos sacerdotes e os escribas, Anás e Caifás e Semes e Dothaim e Gamaliel, Judas, Levi e Neftali, Alexandre e Jairo e os restantes dentre os judeus apresentaram-se diante de Pilatos acusando Jesus de muitos feitos, dizendo: “Sabemos que ele é filho de José o carpinteiro e que nasceu de Maria, e chama-se a si mesmo Filho de Deus e rei; além disso profana o sábado e ainda pretende abolir a lei de nossos pais”, Disse-lhes Pilatos: “E o que ele faz e o que pretende abolir?” Os judeus disseram: “Temos uma lei que proíbe a cura no Sábado; pois bem, este, servindo-se das más artes, curou durante o Sábado coxos, machucados, cegos, paralíticos, surdos e endemoninhados”, Disse-lhes Pilatos: “Se realiza honestamente suas curas, não faz mal algum.” Os judeus replicaram: “Se realizasse suas curas honestamente, não seria mal maior; mas para fazê-las usa a virtude de Belzebu, príncipe dos demônios, expulsa a estes e a todos que lhes são submissos”, Disse-lhes Pilatos: “Isto não é tirar os demônios pela virtude de um espírito imundo, mas sim pela virtude do deus Esculápio”.

O Hades libertado

Na segunda parte, dois homens ressuscitados contam o que viram no mundo dos mortos. Enquanto os patriarcas e profetas aguardavam nas trevas, uma grande luz invade o Hades. Ouve-se a ordem: "Levantai vossas portas, ó príncipes". O inferno se põe a tremer, as portas e ferrolhos da morte se despedaçam, e Cristo entra, vence a Morte e Satanás, e arranca Adão e os justos do cativeiro. É um drama cósmico de resgate, contado com nomes, diálogos e cenário, que a Bíblia canônica não desenvolve.

1 “E novamente ressoou a voz do Filho do Pai Altíssimo, como o estrondo de um grande trovão, que dizia: ‘Levantai vossas portas, ó príncipes, e elevai-vos, ó portas eternas, que o Rei da Glória vai entrar’. Então Satanás e o Inferno puseram-se a gritar assim: ‘Quem é esse Rei da Glória?’ E a voz do Senhor lhes respondeu: ‘o Senhor forte e poderoso, o Senhor forte na batalha’.

1 “E no mesmo instante o Inferno pôs-se a tremer e as portas da morte, bem como as fechaduras, despedaçaram-se, e os ferrolhos do Inferno romperam-se e caíram ao chão, deixando todas as coisas a descoberto. Satanás permaneceu no meio em pé, confuso e prostrado, com os pés presos por grilhões. E eis que o Senhor Jesus Cristo entrou rodeado de uma claridade sublime, manso, grande e humilde, levando em suas mãos uma corrente; com ela amarrou o pescoço de Satanás e depois de novamente unir suas mãos às costas, arremessou-o ao Tártaro e pôs seu santo em sua garganta, dizendo: ‘Fizeste muitas coisas más no decorrer dos séculos; não deste nenhum descanso; hoje entrego-te ao fogo eterno’. E chamando novamente o Inferno,disse-lhe com autoridade: ‘To-ma este amaldiçoado e perverso Satanás e mantêm-no sob tua custódia até o dia que eu determinar’. O Inferno aceitou-o e ambos precipitaram-se no profundo do abismo.

1 “Quando os santos ouviram isto exultaram. E um deles ali presente, chamado Isaías, exclamou em altos brados: ‘Pai Adão e todos os presentes, escutai minhas palavras: enquanto vivia eu na terra, inspirado pelo Espírito Santo compus um cântico profético sobre esta luz, dizendo: ‘O povo que permanecia nas trevas viu uma grande luz, amanheceu a luz para os habitantes da região das sombras da morte’. Ao ouvir isto, Adão e todos os presentes o interrogaram: ‘Quem és tu? Porque é verdade o que estás dizendo’. E ele respondeu: ‘Eu me chamo Isaías’.

As alusões canônicas

A ideia não nasce do nada. O Novo Testamento contém alusões breves e enigmáticas que a tradição posterior leu como descida ao mundo dos mortos: a pregação de Cristo "aos espíritos em prisão", a afirmação de que ele "subiu" depois de ter "descido às partes mais baixas da terra", e os "santos" que ressuscitam ao morrer Jesus, em Mateus. O apócrifo pega esses fios soltos e os transforma em narrativa completa.

18 Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito;

19 No qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão;

20 Os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água;

8 Por isso diz: Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro,e deu dons aos homens.

9 Ora, isto— - ele subiu— - que é, senão que também antes tinha descido às partes mais baixas da terra?

10 Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para cumprir todas as coisas.

52 E abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados;

53 E, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição dele, entraram na cidade santa, e apareceram a muitos.

Datação e influência

Os Atos de Pilatos circulavam por volta dos séculos 4 e 5, e a seção da descida ao inferno cresceu e se fixou em camadas ainda posteriores, com forte desenvolvimento medieval. O texto teve enorme influência: alimentou a doutrina e a arte do "harrowing of hell", presente em credos, dramas e iluminuras. O atrito está em saber se o apócrifo desdobra de modo legítimo uma doutrina já implícita nas alusões do Novo Testamento, ou se inventa uma cena piedosa onde a Bíblia só insinuava.

Perspectivas sobre este tema

Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.

Crítico Histórico

A descida ao Hades do Nicodemos não é doutrina implícita desdobrada: é cena medieval colada num apêndice latino tardio, lendo como itinerário o que o Novo Testamento deixou enigmático.

A própria estrutura do texto, como a página reconhece, já trai a história da doutrina. O que chamamos Evangelho de Nicodemos é uma costura: os Atos de Pilatos de um lado, a descida ao inferno de outro. E a crítica textual é específica quanto a essa segunda peça. O Descensus ad Inferos não existe nos manuscritos gregos mais antigos; ele aparece como um terceiro bloco, um apêndice, nas versões latinas, e cresceu em camadas posteriores com forte desenvolvimento medieval. Isso importa para a pergunta de atrito. Não estamos diante de uma tradição que acompanha o relato da paixão desde o início e depois se perde, mas de um acréscimo que se anexa séculos depois à obra mais antiga. A cronologia que a página apresenta (Atos de Pilatos pelos séculos 4 e 5, descida fixada ainda mais tarde) é exatamente o perfil de uma lenda que se sedimenta, não de um núcleo primitivo recuperado.

O ponto honesto a conceder é que a ideia não foi inventada do nada, e a página acerta ao dizer isso. Há de fato fios soltos no Novo Testamento: a pregação aos espíritos em prisão (1 Pe 3:18-20), o descer às partes mais baixas da terra (Ef 4:8-10) e os santos que ressuscitam em Mateus (Mt 27:52-53). Mas reconhecer os fios não é conceder a tapeçaria. O caso de 1 Pe 3:19 é instrutivo: uma linha exegética forte, defendida por especialistas como Dalton, não lê ali descida alguma ao Hades, e sim uma proclamação aos anjos rebeldes presos, os Vigilantes da tradição enóquica que cresce a partir de Gn 6:1-4 e reaparece em Jd 1:6 e 2 Pe 2:4. Ou seja, o versículo que mais sustenta o harrowing of hell é justamente o que a melhor crítica entende falar de outra coisa. Ef 4:9, por sua vez, pode significar apenas descer à terra ou ao túmulo, e o prodígio de Mt 27 é material sem paralelo nos outros evangelhos, do tipo que a própria página classifica como ampliação.

A conclusão não é que a doutrina da descida seja ilegítima como confissão de fé; o Credo dos Apóstolos a manteve e isso é um fato eclesial respeitável. A conclusão é mais modesta e mais cortante: o Nicodemos não recupera uma revelação antiga, ele preenche um silêncio. Onde o texto canônico insinuava com três frases ambíguas e disputadas, o apócrifo entrega nomes, diálogos, o cenário das portas que se despedaçam e a ordem levantai vossas portas, ó príncipes (Sl 24 relido cristologicamente). Isso é o procedimento da imaginação piedosa operando sobre versículos enigmáticos, não a transmissão de informação histórica sobre o que aconteceu entre a sexta-feira e o domingo. Quem afirma que a cena é desenvolvimento legítimo de algo já implícito carrega o ônus de mostrar a tradição antes do apêndice latino, e ela não está lá. O que está documentado é o caminho inverso: o silêncio do texto primeiro, o drama cósmico depois.

Apologista Evidencial

A descida ao Hades é doutrina antiga e pré-medieval; o Nicodemos dramatiza o que credos e Padres já confessavam, mas a cena com diálogos e cenário é construção literária tardia, não dado apostólico.

A pagina acerta ao chamar 1Pe 3:18-20, Ef 4:8-10 e Mt 27:52-53 de fios soltos. Sao alusoes breves, e seria desonesto fingir que a cena dos patriarcas saudando Adao no Hades esta escrita ali. Concedo mais do que a propria pagina concede: a critica patristica mostra que, embora a descida de Cristo aos mortos fosse amplamente confessada ja nos seculos 2 e 3, 1Pe 3:19 raramente era o texto que os Padres citavam para fundamenta-la, e a secao da descida no Nicodemos so sobrevive nos ramos latinos e ocidentais. Ou seja, parte do drama narrativo e mesmo desenvolvimento tardio. Isso e honesto reconhecer e nao dissolve nada.

O que nao se segue e que a doutrina seja invencao medieval projetada sobre versiculos enigmaticos. A descida aos mortos esta no Credo dos Apostolos e na confissao das igrejas muito antes de o Nicodemos ganhar sua forma latina; o apocrifo herda a doutrina, nao a inventa. E o pano de fundo nao depende so dos tres versiculos da pagina. A expectativa de um Hades onde os justos aguardam, de portas da morte que se quebram e de uma intervencao divina nas trevas ja circulava no judaismo do Segundo Templo, na mesma corrente que produziu 1 Enoque 1:9, citado literalmente em Jd 1:14, e que lia Gn 6:5 e o destino dos espiritos do diluvio dentro de um mapa do alem. O grito 'levantai vossas portas', alias, e citacao direta do Salmo 24, nao ficcao livre. O Nicodemos faz exegese narrativa de material que ja existia, do mesmo modo que os Padres faziam exegese argumentativa.

A distincao que proponho e entre nucleo e cenografia. O nucleo (Cristo desce ao reino dos mortos e liberta os justos da antiga alianca) tem ancoragem canonica indireta e atestacao credal antiga: e desenvolvimento legitimo, no sentido de John Henry Newman, de uma semente real. A cenografia (os nomes, os dialogos de Satanas com o Hades, a coreografia das portas) e composicao literaria de seculos posteriores, e tratar isso como reportagem seria erro de genero. O que fica genuinamente em aberto, e a critica tem razao em pressionar aqui, e quanto do nucleo o Novo Testamento de fato afirma: se 1Pe 3:19 fala de pregacao aos justos do Antigo Testamento ou de proclamacao de juizo aos anjos caidos da geracao do diluvio muda o peso da fundamentacao. A fe na descida nao depende de vencer essa disputa exegetica, mas tambem nao pode fingir que ela esta resolvida pelo texto.