Viver conforme a natureza: a providência no estoicismo de Marco Aurélio

Um universo que tem razão por dentro

Até aqui falamos do mundo interior. Esta página é a visão de mundo que sustenta tudo. Os estoicos acreditavam que o universo não é um amontoado de acasos, mas um todo organizado, atravessado por uma razão que tudo governa. Eles chamavam essa razão de logos, e às vezes a chamavam de natureza, de providência ou de Zeus. É uma espécie de inteligência divina que é o próprio mundo, não um deus de fora dele.

Marco Aurélio põe a questão como uma escolha de duas portas: ou o universo é caos de átomos sem rumo, ou é ordem, providência e razão. E ele aposta na segunda: se há providência, ele a reverencia e confia em quem governa.

10 O universo é ou uma confusão, um emaranhado de coisas e uma dispersão, ou é unidade, ordem e providência. Se for a primeira opção, por que desejaria permanecer numa mistura sem rumo e numa desordem assim? Por que me importaria com qualquer outra coisa além de como vou, enfim, virar terra? Por que me perturbaria, se a dispersão dos meus elementos vai acontecer faça eu o que fizer? Mas se a outra opção é verdadeira, eu reverencio, fico firme e confio naquele que governa.

Viver bem é fluir com o todo

Se o mundo é governado por uma razão boa, então tudo o que acontece tem um lugar no plano do todo, mesmo o que parece ruim para mim, parte minúscula desse todo. "Viver conforme a natureza" é, então, parar de brigar com o que acontece e fluir com ele. A frase mais lírica do livro diz isso quase como uma oração: tudo o que o universo traz é fruto, dele vêm todas as coisas e a ele todas retornam.

23 Tudo o que se harmoniza com você, ó Universo, se harmoniza comigo. Nada é cedo demais nem tarde demais para mim, se chega no tempo certo para você. Tudo o que as tuas estações trazem é fruto para mim, ó Natureza: de ti vêm todas as coisas, em ti estão todas as coisas, a ti todas as coisas retornam. O poeta diz "querida cidade de Cécrops"; e você não dirá "querida cidade de Zeus"?

Daí a postura estoica diante do destino: aceitar com gosto o que vem, como um doente aceita o remédio amargo do médico porque sabe que leva à saúde. Marco Aurélio usa exatamente essa comparação com Asclépio, o deus da medicina.

8 Quando se diz que Asclépio receitou a alguém montar a cavalo, ou banhos frios, ou andar descalço, é preciso entender da mesma forma quando se diz que a natureza do todo receitou a alguém uma doença, uma mutilação, uma perda ou algo assim. No primeiro caso, receitou significa que ele prescreveu aquilo como adequado à saúde daquele homem. No segundo, significa que o que acontece a cada um foi de algum modo ajustado a ele conforme o seu destino. É nesse sentido que dizemos que as coisas nos convêm, como os pedreiros dizem das pedras quadradas nos muros ou nas pirâmides que elas se ajustam, quando as encaixam umas nas outras. Pois uma harmonia em tudo. Assim como de todos os corpos se completa o mundo, formando este corpo que ele é, do mesmo modo de todas as causas se completa o destino, formando esta causa que ele é. Até os mais ignorantes entendem o que digo, pois dizem: o destino lhe trouxe isto. Logo, isto lhe foi trazido e isto lhe foi prescrito. Aceitemos essas coisas, então, como aceitamos as que Asclépio prescreve. Muitas das prescrições dele são desagradáveis, mas as aceitamos na esperança da saúde. Considere que o cumprimento daquilo que a natureza comum julga bom é da mesma espécie que a sua saúde. E assim aceite tudo o que acontece, ainda que pareça desagradável, porque leva a isto: à saúde do todo e ao bom rumo do universo. Pois ele não traria a ninguém o que traz, se não fosse útil ao conjunto. Por duas razões, então, é justo ficar contente com o que acontece a você: primeiro, porque foi feito e prescrito para você, e de algum modo dizia respeito a você, fiado desde as causas mais antigas com o seu destino; segundo, porque mesmo aquilo que toca a cada um é, para a força que governa o universo, uma causa do seu bom rumo, da sua perfeição e até da sua própria continuidade. Pois a integridade do todo fica mutilada se você cortar qualquer coisa da ligação e da continuidade das partes ou das causas. E você de fato corta, no que depende de você, quando fica insatisfeito e de algum modo tenta empurrar algo para longe.

Amar o que acontece

No grau mais alto, isso não é só aceitar, é amar. O estoico maduro chega a querer o que acontece, porque confia que vem da mesma fonte boa. Marco Aurélio fala diretamente ao universo: "amo o que tu amas".

21 A terra ama a chuva, e o solene éter ama, e o universo ama fazer tudo aquilo que está para acontecer. Eu digo ao universo: amo o que tu amas. E não se diz também desse jeito: tal coisa costuma acontecer?