Meditações 5

O caderno pessoal do imperador-filósofo Marco Aurélio (séc. II): anotações estoicas sobre o dever, a razão, a aceitação do destino e a brevidade da vida

Quando se diz que Asclépio receitou a alguém montar a cavalo, ou banhos frios, ou andar descalço, é preciso entender da mesma forma quando se diz que a natureza do todo receitou a alguém uma doença, uma mutilação, uma perda ou algo assim. No primeiro caso, receitou significa que ele prescreveu aquilo como adequado à saúde daquele homem. No segundo, significa que o que acontece a cada um foi de algum modo ajustado a ele conforme o seu destino. É nesse sentido que dizemos que as coisas nos convêm, como os pedreiros dizem das pedras quadradas nos muros ou nas pirâmides que elas se ajustam, quando as encaixam umas nas outras. Pois uma harmonia em tudo. Assim como de todos os corpos se completa o mundo, formando este corpo que ele é, do mesmo modo de todas as causas se completa o destino, formando esta causa que ele é. Até os mais ignorantes entendem o que digo, pois dizem: o destino lhe trouxe isto. Logo, isto lhe foi trazido e isto lhe foi prescrito. Aceitemos essas coisas, então, como aceitamos as que Asclépio prescreve. Muitas das prescrições dele são desagradáveis, mas as aceitamos na esperança da saúde. Considere que o cumprimento daquilo que a natureza comum julga bom é da mesma espécie que a sua saúde. E assim aceite tudo o que acontece, ainda que pareça desagradável, porque leva a isto: à saúde do todo e ao bom rumo do universo. Pois ele não traria a ninguém o que traz, se não fosse útil ao conjunto. Por duas razões, então, é justo ficar contente com o que acontece a você: primeiro, porque foi feito e prescrito para você, e de algum modo dizia respeito a você, fiado desde as causas mais antigas com o seu destino; segundo, porque mesmo aquilo que toca a cada um é, para a força que governa o universo, uma causa do seu bom rumo, da sua perfeição e até da sua própria continuidade. Pois a integridade do todo fica mutilada se você cortar qualquer coisa da ligação e da continuidade das partes ou das causas. E você de fato corta, no que depende de você, quando fica insatisfeito e de algum modo tenta empurrar algo para longe.