Sofrimento, Confissão e Renascimento

A confissão e a cruz

Contra a lógica fria da teoria, o romance opõe um caminho que vem da espiritualidade ortodoxa russa: o do sofrimento aceito como volta para casa. Quem o aponta é Sônia. Quando Raskólnikov confessa a ela que foi o assassino, ela não recua: chora com ele, manda-o beijar a terra que profanou e declarar o crime diante de todos, e lhe dá uma cruz de cipreste, para que carreguem juntos o peso. Onde a teoria isolava, o amor de Sônia o reata aos outros homens.

15 De novo, depois de sua primeira compaixão apaixonada e angustiada pelo homem infeliz, a ideia terrível do assassinato a dominou. No tom alterado dele, parecia-lhe ouvir o assassino falando. Olhou-o desnorteada. Ainda não sabia de nada, por quê, como, com que objetivo aquilo acontecera. Agora todas essas perguntas se atropelavam de uma vez em sua mente. E de novo não conseguia acreditar: "Ele, ele é um assassino! Será possível que seja verdade?"

28 "Você tem uma cruz?" perguntou ela, como se de repente pensasse nisso. A princípio ele não entendeu a pergunta. "Não, claro que não. Tome, fique com esta, de madeira de cipreste. Eu tenho outra, de cobre, que pertenceu a Lizavéta. Troquei com Lizavéta: ela me deu a cruz dela, e eu lhe dei o meu pequeno ícone. Vou usar a de Lizavéta agora e dar esta a você. Tome... é minha! É minha, você sabe," implorou ela. "Vamos sofrer juntos, e juntos vamos carregar nossa cruz!"

A entrega

O suicídio de Svidrigáilov, o homem que é o espelho sombrio de Raskólnikov, o destino sem saída que ele poderia ter, acaba empurrando o protagonista para a decisão. Raskólnikov vai à delegacia e confessa. Mas o livro é honesto: a confissão é jurídica, e não ainda um arrependimento de verdade. Ele se entrega mais por exaustão e por causa de Sônia do que por reconhecer que matar foi errado.

45 Raskólnikov repetiu sua declaração.

A regeneração apenas anunciada

No epílogo, na prisão da Sibéria, Sônia o segue e espera com paciência. Por muito tempo Raskólnikov continua orgulhoso, sem se render. A virada vem sem argumento, num impulso súbito de amor por ela, e o narrador a chama de ressurreição. Mas Dostoiévski recusa narrar a vida nova: o livro termina no limiar, com o Novo Testamento debaixo do travesseiro e a história de Lázaro de volta, deixando a conversão como promessa que começa, não como fato consumado.

47 Debaixo do travesseiro estava o Novo Testamento. Ele o pegou de modo mecânico. O livro pertencia a Sônia; era aquele de que ela lhe lera a ressurreição de Lázaro. No início, ele teve medo de que ela o importunasse sobre religião, falasse do evangelho e o atormentasse com livros. Mas, para sua grande surpresa, ela nem uma vez tocou no assunto, e nem sequer lhe ofereceu o Testamento. Ele mesmo o pedira a ela pouco antes de adoecer, e ela lhe trouxe o livro sem dizer uma palavra. Até agora ele não o tinha aberto.