Sônia e a Ressurreição de Lázaro

Quem é Sônia

Sônia Marmeládova é a chave cristã do romance. Filha do bêbado Marmeládov, ela se prostitui para sustentar a madrasta tísica e os irmãos pequenos, vivendo com o "bilhete amarelo" das prostitutas registradas. Aos olhos do mundo, é a mais degradada das criaturas. Aos olhos de Dostoiévski, é a que melhor vive o Evangelho: ela ama, sacrifica-se e crê, sem nada pregar. Quando Raskólnikov finalmente busca alguém para quem contar o crime, é a ela que vai, não a um padre nem à polícia.

A leitura de João 11

No encontro mais importante do livro, Raskólnikov pede que Sônia leia em voz alta a passagem do Evangelho de João sobre a ressurreição de Lázaro, o amigo de Jesus que estava morto e sepultado havia quatro dias. A escolha não é casual. O Evangelho que ela lê pertencera a Lizavéta, a inocente que ele assassinou. E o texto funciona como um espelho: Lázaro, morto há quatro dias, é a imagem de Raskólnikov, morto por dentro; e a pergunta de Jesus a Marta, se ela crê, atinge em cheio o assassino que escuta.

21 "Disse-lhe Jesus: Teu irmão de ressuscitar. Disse-lhe Marta: Eu sei que ele de ressuscitar na ressurreição, no último dia. Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá. Crês nisto?"

25 Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá;

26 E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?

Por que Dostoiévski usa essa cena

Lázaro não ressuscita por mérito próprio: é chamado de volta de um túmulo de onde ninguém volta. Essa é a aposta do romance inteiro sobre Raskólnikov. Ele cruzou um limite, profanou a própria alma, está morto para o amor e para os outros. A história de Lázaro não prova uma doutrina ao leitor; ela acende uma possibilidade dentro da narrativa: a de que mesmo quem já cheira a morte pode ouvir a ordem de sair do túmulo. Sônia, que crê, lê para Raskólnikov, que duvida. O resto do livro é a pergunta de saber se ele atenderá ao chamado.