Como um Cristão Deve Ler Crime e Castigo

Um romance, não um sermão

A primeira coisa a guardar é que Crime e Castigo é um romance, não um tratado devocional. Dostoiévski era cristão ortodoxo convicto, e engaja a fé de propósito, mas sempre pela boca de personagens e pela trama, nunca por pregação. As alusões bíblicas que aparecem ao longo do livro, e que este site liga às passagens reais, são quase sempre faladas por figuras concretas: o bêbado Marmeládov recita o Juízo e o convite de Cristo aos pecadores numa taverna, Lújin distorce o mandamento de amar o próximo para justificar o egoísmo, Porfiry cita o "buscai e achareis". O cristianismo do livro se mostra em ação, não em doutrina.

6 Ele virá naquele dia e perguntará: 'Onde está a filha que se entregou pela sua cruz, por uma madrasta tísica e pelos filhos pequenos de outra mulher? Onde está a filha que teve piedade do bêbado imundo, o seu pai terreno, sem se intimidar com a bestialidade dele?' E Ele dirá: 'Vem a mim! Eu te perdoei uma vez.... Eu te perdoei uma vez.... Os teus pecados, que são muitos, te são perdoados, porque amaste muito....'

O que o romance ilumina

Lido assim, o livro ilumina temas centrais da fé sem suavizá-los. Mostra a realidade do pecado e o seu peso concreto, que nenhuma teoria inteligente dissolve. Mostra a insuficiência da autojustificação: Raskólnikov tem argumentos para tudo, e nenhum deles o salva. Mostra o valor de uma figura desprezada como Sônia, que vive de fato o Evangelho que lê. E mostra, na imagem de Lázaro, a esperança de que ninguém está morto demais para ser chamado de volta. A consciência que não cala, no romance, é o lugar onde Deus age sem ser nomeado.

A tensão honesta do epílogo

É justo reconhecer a parte debatida. Muitos críticos consideram o epílogo, com a sua conversão anunciada, o trecho mais frágil do romance: uma resolução cristã que o resto do livro, brutalmente realista, não chega a demonstrar passo a passo. Dostoiévski não mostra a fé nova de Raskólnikov funcionando; ele a promete. O leitor encontra aqui as duas coisas, o realismo impiedoso do crime e da culpa, e a aposta na graça, e pode julgar por si se a segunda convence.

50 Mas isso é o começo de uma nova história, a história da renovação gradual de um homem, a história de sua regeneração gradual, de sua passagem de um mundo para outro, de sua iniciação numa vida nova e desconhecida. Isso poderia ser o tema de uma nova história, mas a nossa história presente está terminada.

O que levar: poucos romances expõem com tanta força aonde leva a ideia de que alguns homens estão acima da lei moral em nome de um bem maior, e poucos retratam com tanta ternura a graça que chega pela porta dos fundos, na pessoa de uma prostituta que crê. A imagem que organiza tudo é a de Lázaro: mesmo quem já cruzou o limite pode ouvir a ordem de sair do túmulo. O romance não garante que Raskólnikov a obedecerá. Deixa ele, e deixa você, diante da pergunta.