Contra Celso - Livro V 7
Anjos, ressurreição e o culto a um só Deus
Depois dessas observações, ele prossegue assim: Que ninguém suponha que eu ignoro que alguns deles admitirão que o seu Deus é o mesmo dos judeus, enquanto outros sustentarão que é um Deus diferente, oposto àquele dos judeus, e que foi do primeiro que veio o Filho. Ora, se ele imagina que a existência de inúmeras heresias entre os cristãos é motivo de acusação contra o cristianismo, por que, do mesmo modo, não seria motivo de acusação contra a filosofia o fato de que as várias seitas dos filósofos discordam umas das outras, não em pontos pequenos e indiferentes, mas nos de maior importância? Mais ainda, a medicina também deveria ser alvo de ataque, por causa de suas muitas escolas conflitantes. Que se admita, então, que há entre nós alguns que negam que o nosso Deus seja o mesmo dos judeus: ainda assim, por causa disso não se devem censurar aqueles que provam, a partir das mesmas Escrituras, que uma só e mesma Divindade é o Deus tanto dos judeus quanto dos gentios, como também diz claramente Paulo, que se converteu do judaísmo ao cristianismo: dou graças ao meu Deus, a quem sirvo com pura consciência desde os meus antepassados. E que se admita também que há uma terceira classe que chama certas pessoas de carnais e outras de espirituais (penso que aqui ele se refere aos seguidores de Valentino): ainda assim, de que vale isso contra nós, que pertencemos à Igreja, e que fazemos uma acusação contra os que sustentam que certas naturezas são salvas e outras perecem em consequência de sua constituição natural? E que se admita ainda que há alguns que se apresentam como gnósticos, do mesmo modo que aqueles epicureus que se dizem filósofos: contudo, nem aqueles que aniquilam a doutrina da providência serão considerados verdadeiros filósofos, nem aqueles que introduzem invenções monstruosas, reprovadas pelos que são discípulos de Jesus, serão considerados verdadeiros cristãos. Que se admita, além disso, que há alguns que aceitam Jesus e que por isso se gabam de ser cristãos, e que no entanto regulariam suas vidas, como a multidão judaica, de acordo com a lei judaica (e estes são a dupla seita dos ebionitas, que ou reconhecem conosco que Jesus nasceu de uma virgem, ou negam isso e sustentam que ele foi gerado como os demais seres humanos): de que vale isso como acusação contra os que pertencem à Igreja, e a quem Celso chamou de gente da multidão? Ele acrescenta também que certos cristãos creem na Sibila, tendo provavelmente entendido mal alguns que censuravam os que criam na existência de uma Sibila profética, e chamou de sibilistas os que tinham essa crença.