Contra Celso - Livro V 7
Anjos, ressurreição e o culto a um só Deus
Ora, que aparições miraculosas foram às vezes testemunhadas por seres humanos é relatado pelos gregos; e não só por aqueles dentre eles que se poderia suspeitar de compor narrativas fabulosas, mas também por aqueles que deram toda evidência de serem filósofos genuínos, e de terem relatado com perfeita verdade o que lhes tinha acontecido. Relatos desse tipo lemos nos escritos de Crisipo de Solos, e também algumas coisas do mesmo gênero relativas a Pitágoras; assim como em alguns dos escritores mais recentes que viveram há muito pouco tempo, como no tratado de Plutarco de Queroneia sobre a Alma, e no segundo livro da obra de Numênio, o pitagórico, sobre a Incorruptibilidade da Alma. Ora, quando tais relatos são feitos pelos gregos, e especialmente pelos filósofos dentre eles, não devem ser recebidos com zombaria e ridículo, nem tidos como ficções e fábulas; mas, quando aqueles que são dedicados ao Deus de todas as coisas, e que suportam todo tipo de injúria, até a própria morte, em vez de deixarem escapar dos lábios uma falsidade a respeito de Deus, anunciam as aparições de anjos que eles mesmos testemunharam, são considerados indignos de crédito, e as suas palavras não são tidas como verdadeiras! Ora, é contrário à reta razão julgar dessa maneira se os indivíduos dizem a verdade ou a falsidade. Pois aqueles que agem honestamente só depois de um longo e cuidadoso exame dos detalhes de um assunto, lenta e cautelosamente exprimem a sua opinião sobre a veracidade ou a falsidade desta ou daquela pessoa a respeito das maravilhas que possa relatar; já que acontece que nem todos os homens se mostram dignos de crédito, nem todos tornam claramente evidente que estão relatando aos homens apenas ficções e fábulas. Além disso, a respeito da ressurreição de Jesus dentre os mortos, temos esta observação a fazer: não é nada admirável que, em tal ocasião, um ou dois anjos tenham aparecido para anunciar que Jesus tinha ressuscitado dentre os mortos, e para prover a segurança daqueles que creram em tal acontecimento para proveito das suas almas. Tampouco me parece de modo algum irrazoável que aqueles que creem na ressurreição de Jesus, e que manifestam, como fruto da sua fé que não deve ser desprezado, a sua posse de uma vida virtuosa e o seu afastamento da torrente dos males, não estejam desacompanhados de anjos que prestam o seu auxílio para realizar a conversão deles a Deus.
Mas Celso contesta também o relato de que um anjo removeu a pedra do sepulcro onde jazia o corpo de Jesus, agindo como um rapaz na escola, que faz uma acusação contra alguém com a ajuda de uma série de lugares-comuns. E, como se tivesse descoberto alguma objeção esperta à narrativa, ele observa: O Filho de Deus, então, ao que parece, não pôde abrir o seu túmulo, mas precisou do auxílio de outro para remover a pedra. Ora, para não exagerar na discussão dessa matéria, ou ter a aparência de introduzir desarrazoadamente observações filosóficas, explicando o sentido figurado no momento, direi simplesmente, quanto à narrativa em si, que parece em si mesma um procedimento mais respeitoso que o servo e inferior tenha removido a pedra, do que tal ato fosse realizado por Aquele cuja ressurreição seria para proveito da humanidade. Não falo do desejo daqueles que conspiraram contra o Verbo, e que queriam matá-Lo, e mostrar a todos os homens que Ele estava morto e inexistente, de que o seu túmulo não fosse aberto, para que ninguém pudesse ver o Verbo vivo depois da conspiração deles; mas o Anjo de Deus que veio ao mundo para a salvação dos homens, com a ajuda de outro anjo, mostrou-se mais poderoso que os conspiradores, e removeu a pesada pedra, para que aqueles que julgavam que o Verbo estava morto se convencessem de que Ele não está com os que partiram, mas está vivo, e precede aqueles que estão dispostos a segui-Lo, para que lhes manifeste aquelas verdades que vêm depois das que Ele lhes mostrou primeiro no tempo da sua primeira entrada na escola do cristianismo, quando ainda eram incapazes de receber instrução mais profunda. Em seguida, não entendo que vantagem ele pensa que advirá ao seu propósito quando ridiculariza o relato da visita do anjo a José a respeito da gravidez de Maria; e novamente o do anjo para advertir os pais a pegarem o recém-nascido, cuja vida corria perigo, e a fugirem com ele para o Egito. Acerca dessas matérias, contudo, respondemos às suas afirmações nas páginas anteriores. Mas o que quer dizer Celso ao afirmar que, segundo as Escrituras, anjos estão registrados como tendo sido enviados a Moisés e também a outros? Pois parece-me que isso em nada contribui para o seu propósito, e especialmente porque nenhum deles fez esforço algum para realizar, na medida do seu poder, a conversão da raça humana dos seus pecados. Que se conceda, contudo, que outros anjos foram enviados por Deus, mas que ele veio anunciar algo de maior importância do que quaisquer outros que o precederam; e que, quando os judeus tinham caído em pecado, e corrompido a sua religião, e praticado atos profanos, transferiu o reino de Deus a outros lavradores, que em todas as Igrejas cuidam especialmente de si mesmos, e empregam todo empenho, por meio de uma vida santa e de uma doutrina conforme a ela, para conquistar para o Deus de todas as coisas aqueles que se precipitariam para longe do ensino de Jesus.
Celso então continua: Os judeus, por conseguinte, e estes (querendo dizer claramente os cristãos), têm o mesmo Deus; e, como se apresentasse uma proposição que não seria concedida, ele prossegue a fazer a seguinte afirmação: É certo, de fato, que os membros da grande Igreja admitem isso, e adotam como verdadeiros os relatos a respeito da criação do mundo que correm entre os judeus, a saber, a respeito dos seis dias e do sétimo; no qual dia, como diz a Escritura, Deus cessou das suas obras, retirando-se para a contemplação de si mesmo, mas no qual, como diz Celso (que não se atém à letra da história, e que não compreende o seu sentido), Deus descansou, termo que não se encontra no registro. No que diz respeito, contudo, à criação do mundo, e ao descanso que após ela é reservado para o povo de Deus, o assunto é extenso, místico, profundo e difícil de explicar. Em seguida, ao que me parece, por um desejo de encher o seu livro e dar-lhe uma aparência de importância, ele acrescenta sem cuidado certas afirmações, como as seguintes, relativas ao primeiro homem, de quem diz: Damos o mesmo relato que os judeus, e deduzimos dele a mesma genealogia que eles. No entanto, quanto às conspirações de irmãos uns contra os outros, não conhecemos nenhuma assim, exceto que Caim conspirou contra Abel, e Esaú contra Jacó; mas não Abel contra Caim, nem Jacó contra Esaú: pois, se assim tivesse sido, Celso teria razão ao dizer que damos os mesmos relatos que os judeus a respeito das conspirações de irmãos uns contra os outros. Que se conceda, contudo, que falamos da mesma descida ao Egito que eles, e do seu regresso de lá, que não foi uma fuga, como Celso o considera ter sido; que vale isso para fundamentar uma acusação contra nós ou contra os judeus? Aqui, de fato, ele pensou lançar ridículo sobre nós quando, ao falar do povo hebreu, chamou o seu êxodo de fuga; mas, quando era seu dever investigar o relato dos castigos infligidos por Deus sobre o Egito, esse tópico ele de propósito passou por cima em silêncio.
Se, contudo, for necessário exprimirmo-nos com precisão na nossa resposta a Celso, que pensa que sustentamos as mesmas opiniões nas matérias em questão que os judeus, diríamos que ambos concordamos que os livros das Escrituras foram escritos pelo Espírito de Deus, mas que não concordamos sobre o sentido do seu conteúdo; pois não regulamos as nossas vidas como os judeus, porque somos da opinião de que a aceitação literal das leis não é a que transmite o sentido da legislação. E sustentamos que, quando Moisés é lido, o véu está sobre o coração deles, porque o sentido da lei de Moisés foi ocultado daqueles que não acolheram o caminho que é por Jesus Cristo. Mas sabemos que, se alguém se voltar para o Senhor (pois o Senhor é aquele Espírito), removido o véu, ele contempla, como num espelho com rosto descoberto, a glória do Senhor naqueles pensamentos que estão ocultos na sua expressão literal, e para a sua própria glória torna-se participante da glória divina; o termo rosto sendo usado figuradamente para o entendimento, como se o chamaria sem figura, no qual está o rosto do homem interior, cheio de luz e glória, fluindo da verdadeira compreensão do conteúdo da lei.
Depois dessas observações, ele prossegue assim: Que ninguém suponha que eu ignoro que alguns deles admitirão que o seu Deus é o mesmo dos judeus, enquanto outros sustentarão que é um Deus diferente, oposto àquele dos judeus, e que foi do primeiro que veio o Filho. Ora, se ele imagina que a existência de inúmeras heresias entre os cristãos é motivo de acusação contra o cristianismo, por que, do mesmo modo, não seria motivo de acusação contra a filosofia o fato de que as várias seitas dos filósofos discordam umas das outras, não em pontos pequenos e indiferentes, mas nos de maior importância? Mais ainda, a medicina também deveria ser alvo de ataque, por causa de suas muitas escolas conflitantes. Que se admita, então, que há entre nós alguns que negam que o nosso Deus seja o mesmo dos judeus: ainda assim, por causa disso não se devem censurar aqueles que provam, a partir das mesmas Escrituras, que uma só e mesma Divindade é o Deus tanto dos judeus quanto dos gentios, como também diz claramente Paulo, que se converteu do judaísmo ao cristianismo: dou graças ao meu Deus, a quem sirvo com pura consciência desde os meus antepassados. E que se admita também que há uma terceira classe que chama certas pessoas de carnais e outras de espirituais (penso que aqui ele se refere aos seguidores de Valentino): ainda assim, de que vale isso contra nós, que pertencemos à Igreja, e que fazemos uma acusação contra os que sustentam que certas naturezas são salvas e outras perecem em consequência de sua constituição natural? E que se admita ainda que há alguns que se apresentam como gnósticos, do mesmo modo que aqueles epicureus que se dizem filósofos: contudo, nem aqueles que aniquilam a doutrina da providência serão considerados verdadeiros filósofos, nem aqueles que introduzem invenções monstruosas, reprovadas pelos que são discípulos de Jesus, serão considerados verdadeiros cristãos. Que se admita, além disso, que há alguns que aceitam Jesus e que por isso se gabam de ser cristãos, e que no entanto regulariam suas vidas, como a multidão judaica, de acordo com a lei judaica (e estes são a dupla seita dos ebionitas, que ou reconhecem conosco que Jesus nasceu de uma virgem, ou negam isso e sustentam que ele foi gerado como os demais seres humanos): de que vale isso como acusação contra os que pertencem à Igreja, e a quem Celso chamou de gente da multidão? Ele acrescenta também que certos cristãos creem na Sibila, tendo provavelmente entendido mal alguns que censuravam os que criam na existência de uma Sibila profética, e chamou de sibilistas os que tinham essa crença.
Em seguida, ele despeja sobre nós um amontoado de nomes, dizendo que tem conhecimento da existência de certos simonianos, que adoram Helena, ou Heleno, como seu mestre, e são chamados helenianos. Mas escapou à atenção de Celso que os simonianos não reconhecem de modo algum que Jesus seja o Filho de Deus, e sim chamam Simão de o poder de Deus, a respeito de quem contam certas histórias maravilhosas, dizendo que ele imaginava que, se pudesse adquirir poderes semelhantes àqueles com que cria que Jesus estava dotado, ele também se tornaria tão poderoso entre os homens quanto Jesus era entre a multidão. Mas nem Celso nem Simão conseguiram compreender como Jesus, como um bom lavrador da palavra de Deus, foi capaz de semear sua doutrina na maior parte da Grécia e das terras bárbaras, e de encher esses países com palavras que transformam a alma, afastando-a de todo mal e trazendo-a de volta ao Criador de todas as coisas. Celso conhece, ainda, certos marcelinos, assim chamados a partir de Marcelina, e harpocratianos a partir de Salomé, e outros que tiram seu nome de Mariane, e outros ainda de Marta. Nós, no entanto, que por amor ao conhecimento examinamos, no limite de nossa capacidade, não só o conteúdo das Escrituras e as divergências a que elas dão origem, mas também, por amor à verdade, investigamos o quanto pudemos as opiniões dos filósofos, jamais, em momento algum, nos deparamos com essas seitas. Ele menciona também os marcionitas, cujo líder era Márcion.
Em seguida, para dar a impressão de saber ainda mais do que já mencionou, ele diz, conforme seu costume habitual, que há outros que inventaram perversamente algum ser como seu mestre e demônio, e que se revolvem numa grande escuridão, mais ímpia e maldita do que a dos companheiros do egípcio Antínoo. E me parece, de fato, que ao tocar nesses assuntos ele diz com certo grau de verdade que há certos outros que inventaram perversamente outro demônio e o encontraram como seu senhor, enquanto se revolvem na grande escuridão de sua ignorância. Quanto a Antínoo, no entanto, que é comparado ao nosso Jesus, não repetiremos o que já dissemos nas páginas anteriores. Além disso, ele continua, essas pessoas proferem umas contra as outras blasfêmias terríveis, dizendo toda sorte de coisas vergonhosas de se falar; e não cedem no menor ponto em prol da harmonia, odiando-se mutuamente com ódio perfeito. Ora, em resposta a isso, já dissemos que na filosofia e na medicina se encontram seitas guerreando contra seitas. Nós, no entanto, que somos seguidores da palavra de Jesus, e nos exercitamos em pensar, dizer e fazer o que está em harmonia com suas palavras, quando insultados, abençoamos; perseguidos, suportamos; difamados, suplicamos; e não diríamos toda sorte de coisas vergonhosas de se falar contra aqueles que adotaram opiniões diferentes das nossas, mas, se possível, empregamos todo esforço para elevá-los a uma condição melhor pela adesão somente ao Criador, e os conduzimos a praticar cada ato como quem um dia será julgado. E se aqueles que sustentam opiniões diferentes não se deixarem convencer, observamos o preceito estabelecido para o tratamento de tais pessoas: ao homem que é herege, depois da primeira e segunda admoestação, evita, sabendo que quem é assim está pervertido e peca, estando condenado por si mesmo. Além disso, nós, que conhecemos a máxima bem-aventurados os pacificadores, e também esta, bem-aventurados os mansos, não olharíamos com ódio para os corruptores do cristianismo, nem chamaríamos de Circes e enganadores aduladores os que caíram em erro.
Celso me parece ter entendido mal a afirmação do apóstolo, que declara que nos últimos tempos alguns se afastarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios; falando mentiras com hipocrisia, tendo a própria consciência cauterizada com ferro em brasa; proibindo casar e mandando abster-se dos alimentos que Deus criou para serem recebidos com ação de graças pelos que creem; e me parece também ter entendido mal aqueles que empregaram essas declarações do apóstolo contra os que haviam corrompido as doutrinas do cristianismo. E é por essa causa que Celso disse que certos cristãos são chamados de cauterizados nos ouvidos; e também que alguns são chamados de enigmas (um termo com que nunca nos deparamos). A expressão pedra de tropeço, na verdade, ocorre com frequência nesses escritos, denominação que costumamos aplicar aos que desviam da sã doutrina as pessoas simples e os que são facilmente enganados. Mas nem nós, nem, imagino, qualquer outro, seja cristão ou herege, conhecemos alguém que seja chamado de Sereia, que traia e engane, e tape os ouvidos, e transforme em porcos aqueles a quem ilude. E no entanto esse homem, que se vangloria de saber tudo, usa a seguinte linguagem: Você pode ouvir, diz ele, todos aqueles que tanto divergem, e que se atacam mutuamente em suas disputas com a linguagem mais despudorada, pronunciando as palavras: o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo. E essa é a única frase que, ao que parece, Celso conseguiu lembrar dos escritos de Paulo; e ainda assim, por que não empregaríamos também inúmeras outras citações das Escrituras, como esta: pois, embora andemos na carne, não militamos segundo a carne (porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas poderosas em Deus para destruir fortalezas), derrubando raciocínios e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus?
Mas, já que ele afirma que se pode ouvir todos aqueles que tanto divergem dizendo: o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo, mostraremos a falsidade de tal afirmação. Pois há certas seitas heréticas que não recebem as Epístolas do apóstolo Paulo, como as duas seitas de ebionitas e os que são chamados encratitas. Aqueles, então, que não consideram o apóstolo um homem santo e sábio, não adotarão sua linguagem nem dirão: o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo. E, por consequência, também nesse ponto Celso é culpado de falsidade. Ele continua, ademais, a se demorar nas acusações que faz contra a diversidade de seitas existentes, mas não me parece exato na linguagem que emprega, nem ter observado ou compreendido com cuidado como é que aqueles cristãos que progrediram em seus estudos dizem possuir maior conhecimento do que os judeus; e também se reconhecem as mesmas Escrituras, mas as interpretam de modo diferente, ou se não reconhecem esses livros como divinos. Pois encontramos ambas as visões prevalecendo entre as seitas. Ele então prossegue: Embora não tenham fundamento para a doutrina, examinemos o próprio sistema; e, em primeiro lugar, mencionemos as corrupções que fizeram por ignorância e mal-entendido, quando, ao discutir os princípios elementares, expressam suas opiniões do modo mais absurdo sobre coisas que não entendem, tais como as seguintes. E então, a certas expressões que estão continuamente na boca dos que creem no cristianismo, ele opõe certas outras dos escritos dos filósofos, com o objetivo de fazer parecer que os nobres pensamentos que Celso supõe serem usados pelos cristãos foram expressos em linguagem melhor e mais clara pelos filósofos, a fim de arrastar para o estudo da filosofia os que são atraídos por opiniões que de imediato evidenciam seu caráter nobre e religioso. Aqui, no entanto, encerraremos o quinto livro, e começaremos o sexto com o que se segue.