Capítulos

1 Néfi
Por volta de 600 a.C., a família de Leí deixa Jerusalém às vésperas do exílio babilônico, obtém as placas de latão com o registro dos judeus e atravessa o deserto e o oceano até uma terra prometida. Contém a visão da árvore da vida e longas citações de Isaías
O que é este livro
O Primeiro Livro de Néfi abre o Livro de Mórmon, publicado em 1830 por Joseph Smith Jr. em Palmyra, no estado de Nova York. É o texto fundador de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e das demais denominações do movimento dos Santos dos Últimos Dias, que o recebem como escritura ao lado da Bíblia.
O livro afirma ser o registro de uma família israelita que deixou Jerusalém por volta de 600 a.C., pouco antes da destruição da cidade pelos babilônios, e atravessou o oceano até um continente descrito como terra da promissão. São 22 capítulos, narrados em primeira pessoa por Néfi, filho do profeta Leí.
A posição oficial da igreja é que Joseph Smith traduziu o texto, pelo dom e poder de Deus, de placas de metal entregues por um anjo, escritas numa língua que o próprio livro chama de egípcio reformado. A posição majoritária da historiografia acadêmica não religiosa é que a obra é composição do século XIX, produzida no ambiente religioso do norte do estado de Nova York. Este índice apresenta as duas leituras e não decide entre elas.
Sim, faço um registro na língua de meu pai, que consiste no conhecimento dos judeus e na língua dos egípcios.
Quem narra e quando
O narrador é Néfi, quarto filho de Leí. O relato começa no primeiro ano do reinado de Zedequias, último rei de Judá, cujo reinado a cronologia convencional situa entre 597 e 586 a.C. Leí prega o arrependimento em Jerusalém, é ameaçado de morte e recebe em sonho a ordem de partir com a família para o deserto.
Néfi escreve depois dos fatos, já na terra nova, e explicita seu critério editorial: registra o que considera precioso, sobretudo o que é profético e espiritual, deixando a crônica política para outro conjunto de placas. Isso explica por que o livro alterna narrativa de viagem, visão apocalíptica e longos blocos de citação de Isaías.
O conteúdo
A saída de Jerusalém
- Leí profetiza em Jerusalém e é rejeitado — (1 Néfi 1:20)
- A ordem de partir com a família para o deserto — (1 Néfi 2:2)
- Néfi responde que irá e cumprirá o que o Senhor ordenar — (1 Néfi 3:7)
- A morte de Labão e a tomada das placas de latão — (1 Néfi 4:18)
- O conteúdo das placas: os cinco livros de Moisés e os profetas — (1 Néfi 5:11)
- A família de Ismael se junta ao grupo — (1 Néfi 7:5)
A visão da árvore da vida
- Leí sonha com uma árvore de fruto desejável — (1 Néfi 8:10)
- A barra de ferro que leva até a árvore — (1 Néfi 8:19)
- O grande e espaçoso edifício suspenso no ar — (1 Néfi 8:26)
- Néfi pede e recebe a mesma visão, com a interpretação — (1 Néfi 11:21)
- A virgem de Nazaré, mãe do Filho de Deus — (1 Néfi 11:18)
- A visão da grande e abominável igreja — (1 Néfi 13:26)
A travessia até a terra da promissão
- A esfera de latão que indica o caminho no deserto — (1 Néfi 16:10)
- A ordem de construir um navio — (1 Néfi 17:8)
- A chegada à terra da promissão — (1 Néfi 18:23)
- Néfi aplica as escrituras ao próprio povo, para proveito e instrução — (1 Néfi 19:23)
- Isaías 48 reproduzido no registro de Néfi — (1 Néfi 20:1)
- Isaías 49 reproduzido no registro de Néfi — (1 Néfi 21:1)
- Néfi interpreta Isaías como profecia sobre a dispersão e o recolhimento de Israel — (1 Néfi 22:8)
Os paralelos bíblicos
O livro é denso em material bíblico, de três formas distintas. A primeira é a citação direta: os capítulos 20 e 21 reproduzem, quase palavra por palavra, Isaías 48 e 49 na forma da versão King James inglesa de 1611, com pequenas diferenças. A segunda é a estrutura narrativa: a saída de uma cidade condenada, a jornada pelo deserto sob murmuração, o guia dado por Deus e a chegada a uma terra prometida repetem o padrão do Êxodo. O próprio texto faz essa comparação, quando Néfi lembra aos irmãos a travessia do Mar Vermelho. A terceira é a antecipação do Novo Testamento: a visão do capítulo 11 nomeia a virgem, o cordeiro de Deus, os doze apóstolos e a crucificação, seis séculos antes dos eventos.
Para um leitor da Bíblia, os pontos de contato mais imediatos são estes: Leí é apresentado como descendente de José do Egito, o que liga o registro à tribo de Manassés e não a Judá; as placas de latão contêm o Pentateuco, os profetas e material atribuído a Jeremias, contemporâneo de Leí; e o capítulo 22 lê Deuteronômio 18, sobre o profeta semelhante a Moisés, como profecia messiânica.
E li-lhes muitas coisas que estavam escritas nos livros de Moisés; mas, para melhor persuadi-los a acreditar no Senhor, seu Redentor, eu li o que foi escrito pelo profeta Isaías, pois apliquei todas as escrituras a nós, para nosso proveito e instrução.
O problema do Deutero-Isaías
Os capítulos 20 e 21 concentram a discussão acadêmica mais técnica sobre o livro, e vale expor o argumento inteiro antes de qualquer conclusão.
Desde os trabalhos de Johann Christoph Döderlein e Johann Gottfried Eichhorn, no fim do século XVIII, a crítica bíblica majoritária divide o livro de Isaías em pelo menos duas partes. Os capítulos 1 a 39 são atribuídos a um profeta do século VIII a.C. em Jerusalém. Os capítulos 40 a 55, chamados de Deutero-Isaías, são atribuídos a um autor anônimo do período do exílio babilônico, no século VI a.C., porque pressupõem Jerusalém já destruída, o povo já deportado e nomeiam Ciro da Pérsia, que só apareceria décadas depois.
Isaías 48 e 49 pertencem a esse bloco. Como as placas de latão teriam sido tomadas em Jerusalém por volta de 600 a.C., antes da destruição da cidade, a datação crítica implica que esse material ainda não existiria para ser copiado. É o argumento central de quem lê a obra como composição do século XIX.
As respostas dentro do mundo Santo dos Últimos Dias seguem por três caminhos. Alguns contestam a própria divisão de Isaías e sustentam a unidade autoral do livro, posição hoje minoritária na academia mas defendida também por parte da erudição evangélica conservadora. Outros aceitam a divisão e argumentam que o profeta do século VI teria trabalhado sobre material mais antigo já disponível. Um terceiro caminho, formulado por Blake Ostler em 1987 e retomado por Grant Hardy, reconhece que a objeção tem peso real e propõe que a tradução envolveu expansão e atualização do texto, não cópia mecânica de um original.
Há ainda um dado técnico que os dois lados discutem. O texto de Isaías no Livro de Mórmon segue a versão King James, incluindo escolhas de tradução do século XVII, e uma fatia expressiva das diferenças em relação à King James ocorre justamente nas palavras que aquela edição imprimia em itálico por não estarem no hebraico. As contagens variam conforme o critério: Royal Skousen chega a 23 por cento das diferenças, David Wright estima entre 22 e 38 por cento. Críticos leem isso como sinal de dependência direta da Bíblia inglesa disponível a Joseph Smith. Defensores leem como marca de um método de tradução que partia do texto familiar e o corrigia onde necessário. O padrão é reconhecido pelos dois campos; o que diverge é a explicação.
Evidências e o estado da discussão
Sobre a arqueologia, a situação é direta. Não há, até hoje, achado arqueológico em nenhum sítio das Américas que identifique cidades, povos, escrita ou eventos narrados no Livro de Mórmon. A Smithsonian Institution respondeu por décadas a consultas sobre o tema com uma carta padrão, dizendo que nunca usou o livro como guia em pesquisa arqueológica; a versão mais antiga dessa carta acrescentava que seus arqueólogos não viam conexão entre a arqueologia do Novo Mundo e o assunto da obra, e a versão curta adotada em 1998 se limita a afirmar que o livro é documento religioso e não guia científico. Itens mencionados na narrativa, como cavalos, gado, aço e trigo, não são atestados na América pré-colombiana no período em questão. Estudiosos Santos dos Últimos Dias respondem com um modelo de geografia limitada, restrito a uma área pequena da Mesoamérica, e com a hipótese de que os nomes de animais e metais foram aplicados por analogia a espécies e materiais locais. Críticos consideram essas respostas insuficientes. Não há convergência.
Sobre a língua, a expressão egípcio reformado não corresponde a nenhuma escrita conhecida pela egiptologia. O egiptólogo John A. Wilson, da Universidade de Chicago, resumiu em 1966 a posição da área: não existe tal língua. Autores Santos dos Últimos Dias respondem que escritas egípcias adaptadas para registrar outras línguas existiram no mundo antigo, o que tornaria a alegação plausível em princípio, ainda que não documentada nas Américas.
Sobre a genética, os estudos de DNA de populações indígenas americanas apontam origem majoritariamente asiática, sem marcador que indique migração do Oriente Médio no primeiro milênio a.C. A própria igreja alterou em 2006 a introdução do Livro de Mórmon, que passou a dizer que os povos do livro estão entre os antepassados dos indígenas americanos, e não que são os principais antepassados.
Sobre a transmissão do texto, há material documental sólido e não contestado: sobrevivem partes do manuscrito original ditado e o manuscrito do impressor, estudados em detalhe pelo projeto de texto crítico dirigido por Royal Skousen na Universidade Brigham Young. Esse trabalho estabeleceu que o texto foi produzido por ditado, não por cópia de um documento à vista, e mapeou as alterações entre as edições de 1830, 1837, 1840, 1920 e 1981. Isso é história textual verificável, e independe de como cada leitor responda à questão da origem.
A leitura devocional Santo dos Últimos Dias, por fim, não repousa em nenhum desses eixos. Ela repousa na promessa registrada no fim do livro de Morôni, de que a verdade da obra é confirmada ao leitor por revelação pessoal. É uma reivindicação de outra ordem, que a arqueologia e a linguística não confirmam nem refutam.