Capítulos

Anais - Livro II
Germânico no Oriente e na Germânia, sua morte na Síria e o luto de Roma
Sobre a obra
Os Anais são a última obra de Públio Cornélio Tácito (c. 56 a c. 120 d.C.), senador e considerado o maior historiador de Roma. Escritos por volta de 116 d.C., cobrem o período de 14 a 68 d.C., da morte de Augusto à de Nero. Dos dezesseis livros originais sobrevivem I a VI e XI a XVI, e mesmo esses chegaram incompletos: o V ficou reduzido a um fragmento, falta o começo do XI e o XVI se interrompe no meio de uma frase.
Este é o Livro II, que cobre os anos de 16 a 19 d.C. Ele acompanha as últimas campanhas de Germânico na Germânia, sua transferência para o Oriente, sua morte na Síria em 19 d.C. e o luto que tomou Roma. É o livro em que a rivalidade entre Tibério e o sobrinho popular se resolve, e Tácito não esconde de que lado está.
As campanhas na Germânia
Germânico venceu Armínio em batalha campal na planície de Idistaviso e de novo junto à muralha dos angrívaros, e mandou erguer um troféu declarando submetidos os povos entre o Reno e o Elba. As vitórias foram táticas: nenhuma província germânica foi criada, e a fronteira permaneceu no Reno.
O custo apareceu no retorno. A frota que descia pelo mar do Norte foi dispersada por uma tempestade, com naufrágios, homens jogados em ilhas e outros levados até a costa da Britânia. Tibério então chamou Germânico de volta, argumentando que já bastava de glória e que a Germânia poderia ser deixada às próprias discórdias. Tácito registra o argumento e sugere ciúme. Em 17 d.C. Germânico celebrou o triunfo em Roma, com Tusnelda, mulher de Armínio, entre os cativos.
O Oriente e a Judeia
Germânico recebeu um comando extraordinário sobre as províncias orientais e coroou Zenão como rei da Armênia. Nessa altura Tácito anota que a Capadócia e a Comagena foram reduzidas a províncias e que a Síria e a Judeia, esgotadas pelos encargos, pediram redução do tributo. É uma das raras menções diretas à Judeia nos Anais, e situa a região no ano de 17 d.C., dentro da vida de Jesus segundo a cronologia dos Evangelhos.
A viagem ao Egito rendeu o primeiro atrito público com Tibério. Germânico entrou na província sem autorização imperial, contrariando a regra augustana que proibia senadores de pisar no Egito sem permissão, e desceu o Nilo visitando as ruínas de Tebas. Tibério repreendeu-o em termos formais.
A morte na Síria
Em Antioquia, Germânico entrou em conflito aberto com Cneu Calpúrnio Pisão, governador da Síria nomeado por Tibério, que desfazia suas ordens e cortejava a tropa. Germânico adoeceu e morreu em 19 d.C., convencido de ter sido envenenado. Tácito descreve buscas na casa onde ele jazia, com restos de corpos, tabuinhas com maldições e o nome dele gravado em chumbo.
Aqui é preciso hedge. Tácito relata a acusação de veneno como convicção do moribundo e dos amigos, e não a afirma como fato apurado; a medicina antiga não tinha meio de distinguir envenenamento de doença. O que o livro estabelece com segurança é o conflito político e a suspeita, não a causa da morte. O julgamento de Pisão vem no Livro III.
Roma em 19 d.C.: cultos estrangeiros expulsos
No mesmo ano o senado decidiu reprimir os cultos egípcio e judaico na capital. Tácito registra que quatro mil libertos contaminados por essas práticas, em idade militar, foram embarcados para a Sardenha, a pretexto de conter o banditismo local, e que os demais deveriam deixar a Itália se não abandonassem seus ritos até certa data. Ele acrescenta, sem disfarce, que a morte deles pelo clima da ilha seria perda barata.
O episódio é conhecido também por Josefo e por Suetônio, que dão motivos diferentes, e as fontes não concordam sobre a causa. O que interessa aqui é o dado bruto: havia comunidade judaica grande o bastante em Roma para ser alvo de decreto do senado uma década antes da pregação de Jesus, e o vocabulário romano para religião estrangeira já era o de superstição a ser contida. É a mesma categoria em que os cristãos cairiam em 64.
O epitáfio de Armínio
O livro termina com a morte de Armínio, assassinado pelos próprios parentes ao tentar tornar-se rei. Tácito escreve que ele foi sem dúvida o libertador da Germânia, que enfrentou o povo romano no auge de sua força e que, indeciso nas batalhas, não foi vencido na guerra, e observa que os gregos e os romanos o ignoram porque estavam ocupados com os próprios feitos. É um dos elogios mais francos que Tácito concede a um inimigo de Roma.
Relevância histórica
Os Anais não são obra cristã, e este livro não menciona cristãos. O valor da leitura é o contexto: aqui está o império do reinado de Tibério, o mesmo em que os Evangelhos situam o ministério de Jesus. Tácito mostra as províncias da Síria e da Judeia sobrecarregadas de tributo em 17 d.C., o funcionamento do governo provincial romano que produziria prefeitos como Pôncio Pilatos, e a política religiosa de Roma diante de cultos estrangeiros.
A menção explícita a Cristo aparece no Livro XV, no relato da perseguição de Nero após o incêndio de 64.