Anais - Livro II 3

Germânico no Oriente e na Germânia, sua morte na Síria e o luto de Roma

Tibério, portanto, discutiu diante dos senadores essas questões e o que relatei sobre a Armênia, alegando que o Oriente agitado poderia ser pacificado pela sabedoria de Germânico, pois sua própria idade declinava e Druso ainda não amadurecera o bastante. Por decreto dos senadores foram então confiadas a Germânico as províncias separadas pelo mar, com poder maior, em qualquer lugar a que fosse, do que o daqueles que obtinham suas províncias por sorteio ou por nomeação do príncipe. Mas Tibério afastara da Síria Crético Silano, ligado a Germânico por parentesco, porque a filha de Silano estava prometida a Nero, o mais velho dos filhos dele, e nomeara Cneu Pisão, homem de temperamento violento e ignorante da obediência, com uma ferocidade herdada do pai, Pisão, que na guerra civil ajudou com o mais empenhado serviço a facção que ressurgia na África contra César. Depois seguiu Bruto e Cássio e, quando lhe foi permitido o retorno, absteve-se de pleitear cargos, até que, solicitado espontaneamente, aceitou o consulado oferecido por Augusto. Mas, além do espírito do pai, inflamava-o também a nobreza e a riqueza de sua esposa Plancina. Dificilmente cedia a Tibério, e desprezava os filhos dele como muito inferiores. Não tinha dúvida de que fora escolhido para governar a Síria a fim de conter as esperanças de Germânico. Alguns acreditaram que Tibério lhe dera também instruções secretas, e foi sem dúvida Augusta quem aconselhou Plancina, por rivalidade feminina, a perseguir Agripina. Pois a corte estava dividida e em discórdia, com simpatias silenciosas por Druso ou por Germânico. Tibério favorecia Druso, como filho próprio e do seu sangue; quanto a Germânico, o afastamento do tio aumentara o amor que os demais lhe tinham, e também porque ele se sobressaía pela ilustre linhagem materna, exibindo como avô Marco Antônio e como tio-avô Augusto. Druso, por outro lado, tinha como bisavô um cavaleiro romano, Pompônio Ático, que parecia desonrar as imagens dos Cláudios; e a esposa de Germânico, Agripina, superava em fecundidade e em fama a Lívia, esposa de Druso. Mas os irmãos mantinham notável concórdia e permaneciam inabaláveis diante das rivalidades dos parentes.
Pouco depois Druso foi enviado à Ilíria para acostumar-se ao serviço militar e conquistar a boa vontade do exército. Ao mesmo tempo, Tibério julgava que o jovem, que se corrompia com o luxo da cidade, ficaria melhor nos acampamentos, e considerava-se mais seguro tendo ambos os filhos no comando de legiões. Mas o pretexto eram os suevos, que pediam auxílio contra os queruscos. Pois, com a retirada dos romanos e livres do temor de um inimigo externo, esses povos, segundo o costume da raça e então sobretudo por rivalidade de glória, voltaram as armas uns contra os outros. A força das nações e o valor dos chefes eram iguais, mas o título de rei tornava Marobóduo odioso entre seus compatriotas, enquanto Armínio, lutando pela liberdade, gozava do favor popular.
Assim, não os queruscos e seus aliados, os antigos soldados de Armínio, pegaram em armas, mas até mesmo do reino de Marobóduo as nações suevas, os semnones e os longobardos, passaram para o lado dele. Com esse reforço Armínio teria sido superior, se Inguiômero não tivesse desertado para Marobóduo com um bando de seus clientes, por nenhum outro motivo senão porque o tio idoso desdenhava obedecer ao jovem filho do irmão. As linhas de batalha foram formadas, com igual esperança dos dois lados, e não, como antes entre os germanos, com investidas dispersas ou bandos desordenados: pois a longa guerra contra nós os habituara a seguir os estandartes, a apoiar-se em reservas e a receber as ordens dos generais. Naquele momento Armínio, percorrendo a cavalo todo o campo, mostrava a cada grupo a que chegava a liberdade reconquistada, as legiões massacradas, os despojos e as armas arrancados aos romanos e ainda nas mãos de muitos dos seus. Em contraste, chamava Marobóduo de fugitivo, sem experiência de combates, escondido nos esconderijos da floresta Hercínia; e dizia que logo, por meio de presentes e embaixadas, ele buscara um tratado, sendo um traidor da pátria, um satélite de César, que devia ser expulso com ânimo não menos hostil do que aquele com que haviam matado Quintílio Varo. Que se lembrassem apenas de tantas batalhas, cujo desfecho, e por fim a expulsão dos romanos, provara bastante de que lado estava a supremacia na guerra.
Marobóduo, por sua vez, tampouco se abstinha de vangloriar-se de si nem de insultar o inimigo. Segurando Inguiômero, testemunhava que naquela pessoa estava toda a honra dos queruscos, que pelos conselhos dele se realizara o que tivera bom êxito. Dizia que Armínio, insensato e ignorante das coisas, atribuía a si a glória alheia, pois enganara com perfídia três legiões errantes e um general que não suspeitava da fraude, com grande desastre para a Germânia e vergonha para si mesmo, que sua esposa e seu filho ainda suportavam a escravidão. Quanto a ele próprio, atacado por doze legiões sob o comando de Tibério, preservara intacta a glória dos germanos, e depois as partes se haviam separado em condições iguais; e não se arrependia de que estivesse em suas próprias mãos decidir se preferiam uma guerra plena contra os romanos ou uma paz sem derramamento de sangue. Estimulados por essas palavras, os exércitos eram incitados também por suas próprias causas, pois os queruscos e os longobardos lutavam pela antiga honra ou pela recente liberdade, e o outro lado pelo aumento de sua dominação. Em nenhuma outra ocasião o choque foi de maior intensidade nem o resultado mais incerto, com as alas direitas de ambos os lados postas em fuga; e esperava-se que a batalha recomeçasse, se Marobóduo não tivesse recolhido o acampamento para as colinas. Esse foi o sinal de sua derrota; e, despojado aos poucos pelas deserções, retirou-se para junto dos marcomanos e enviou legados a Tibério para pedir auxílio. A resposta foi que ele não tinha o direito de invocar as armas romanas contra os queruscos, que não prestara nenhuma ajuda aos romanos quando lutavam contra o mesmo inimigo. Druso, contudo, foi enviado, como relatamos, para firmar a paz.
Naquele mesmo ano, doze célebres cidades da Ásia desabaram num terremoto noturno, o que tornou a catástrofe mais inesperada e mais grave. Nem servia de auxílio a fuga habitual em tal caso, a de correr para os espaços abertos, porque, abrindo-se a terra, as pessoas eram tragadas. Contam que montanhas imensas se afundaram, que o que era plano se ergueu nas alturas e que fogos brilharam entre as ruínas. A calamidade caiu com maior violência sobre os habitantes de Sardes, e atraiu para eles a maior parte da compaixão: pois César prometeu dez milhões de sestércios e perdoou por cinco anos tudo o que pagavam ao erário ou ao fisco. Os magnésios do monte Sípilo foram considerados os seguintes em prejuízo e em necessidade de socorro. Decidiu-se que os habitantes de Temno, Filadélfia, Égas, Apolônide, os que se chamam mostenos ou macedônios hircânios, e ainda Hierocesareia, Mirina, Cime e Tmolo seriam aliviados dos tributos pelo mesmo período, e que se enviaria alguém do senado para examinar a situação e socorrê-los. Foi escolhido Marco Ateio, dentre os ex-pretores, para que, sendo um ex-cônsul governador da Ásia, não surgisse rivalidade entre iguais e daí algum embaraço.
César aumentou a magnífica largueza pública com uma liberalidade não menos bem recebida: os bens de Emília Musa, mulher rica que morrera sem testamento, reclamados pelo fisco, ele os entregou a Emílio Lépido, a cuja casa ela parecia pertencer; e a herança de Pantuleio, rico cavaleiro romano, embora ele próprio fosse nomeado herdeiro em parte, entregou-a a Marco Servílio, cujo nome descobrira escrito num testamento anterior e insuspeito, declarando antes que a nobreza de ambos devia ser amparada com dinheiro. Tampouco aceitou a herança de quem quer que fosse, a não ser quando a tivesse merecido pela amizade; mantinha afastados os desconhecidos e os que, hostis a outros, por isso nomeavam o príncipe como herdeiro. Aliás, assim como aliviou a honesta pobreza dos inocentes, também expulsou do senado, ou deixou que se retirassem por vontade própria, os pródigos arruinados por seus vícios: Vibídio Varrão, Mário Nepos, Ápio Apiano, Cornélio Sula e Quinto Vitélio.
Por esse mesmo tempo, dedicou templos dos deuses arruinados pela velhice ou pelo fogo, cuja restauração Augusto começara: a Líber, Líbera e Ceres, junto ao Circo Máximo, templo que o ditador Aulo Postúmio votara; no mesmo lugar, o templo de Flora, erguido pelos edis Lúcio e Marco Publício; e o templo de Jano, que Caio Duílio construíra no mercado de hortaliças, ele que foi o primeiro a conduzir com êxito o poder romano no mar e a merecer um triunfo naval sobre os cartagineses. O templo da Esperança foi consagrado por Germânico: este Aulo Atílio votara naquela mesma guerra.
Enquanto isso, ganhava força a lei de lesa-majestade. E um delator acusou de lesa-majestade Apuleia Varila, sobrinha-neta de Augusto, por ter zombado, em comentários injuriosos, do divino Augusto, de Tibério e da mãe deste, e por estar comprometida com adultério, embora ligada à casa de César. Quanto ao adultério, julgou-se que a lei Júlia oferecia salvaguarda suficiente; o crime de lesa-majestade César exigiu que fosse tratado à parte, e que ela fosse condenada se tivesse falado de modo ímpio sobre Augusto, mas declarou não querer que as ofensas dirigidas a ele próprio fossem levadas a julgamento. Interrogado pelo cônsul sobre o que pensava das acusações de ter ela falado mal de sua mãe, calou-se; depois, no dia seguinte de reunião do senado, pediu também em nome dela que palavras ditas contra ela, de qualquer modo, não fossem consideradas crime para ninguém. E absolveu Apuleia da lei de lesa-majestade; quanto ao adultério, deprecou a pena mais grave e aconselhou que, segundo o exemplo dos antepassados, ela fosse afastada por seus parentes para além do marco da ducentésima milha. Ao adúltero Mânlio foram interditadas a Itália e a África.
Surgiu então uma disputa sobre a eleição de um pretor para o lugar de Vipstano Galo, que a morte arrebatara. Germânico e Druso (pois ainda então estavam em Roma) apoiavam Hatério Agripa, parente de Germânico; muitos, ao contrário, esforçavam-se para que o número de filhos prevalecesse entre os candidatos, como a lei ordenava. Tibério alegrava-se ao ver o senado disputar entre os filhos dele e as leis. Sem dúvida a lei foi vencida, mas não de imediato e por poucos votos, do mesmo modo como eram vencidas mesmo quando estavam em vigor.
No mesmo ano começou na África uma guerra, tendo por chefe dos inimigos Tacfarinas. De nação númida, servira como auxiliar no acampamento romano e depois desertou. A princípio reuniu uma turba errante e habituada ao banditismo para o saque e a pilhagem; em seguida organizou-os à maneira militar, em estandartes e esquadrões; por fim passou a ser tido como chefe não de uma multidão desordenada, mas do povo musulâmio. Essa nação poderosa, vizinha dos desertos da África, ainda então sem nenhuma cultura urbana, pegou em armas e arrastou para a guerra os mauros seus vizinhos, que também tinham um chefe, Mazipa. E o exército foi dividido de modo que Tacfarinas retinha no acampamento homens escolhidos e armados à maneira romana, habituando-os à disciplina e às ordens, enquanto Mazipa, com tropa ligeira, espalhava ao redor incêndios, mortes e terror. Tinham forçado os cinítios, nação nada desprezível, a aderir à mesma causa, quando Fúrio Camilo, procônsul da África, conduziu contra o inimigo, reunidos numa força, uma legião e o contingente de aliados que estava sob os estandartes, tropa modesta se se considerasse a multidão de númidas e mauros; mas nada se temia tanto quanto que evitassem a guerra por medo. Foram induzidos pela esperança de vitória a serem vencidos. Assim, a legião foi colocada no centro, e as coortes ligeiras e duas alas de cavalaria nos flancos. Tacfarinas tampouco recusou o combate. Os númidas foram postos em fuga, e depois de muitos anos a glória militar voltou ao nome dos Fúrios. Pois, depois daquele que libertou a cidade e de seu filho Camilo, a fama de general coubera a outras famílias; e este de quem falamos era tido como inexperiente na guerra. Tanto mais de bom grado Tibério celebrou seus feitos diante do senado, e os senadores decretaram as insígnias triunfais, honra que a Camilo, pela modéstia de sua vida, não causou dano.
O ano seguinte teve por cônsules Tibério, pela terceira vez, e Germânico, pela segunda. Mas Germânico assumiu esse cargo em Nicópolis, cidade da Acaia, aonde chegara pela costa da Ilíria, depois de ter visto seu irmão Druso, que então estava na Dalmácia, e de ter suportado uma travessia adversa pelo mar Adriático e em seguida pelo Jônio. Dedicou, pois, alguns dias ao reparo da frota; ao mesmo tempo, em recordação de seus antepassados, visitou o golfo tornado famoso pela vitória de Áccio, os despojos consagrados por Augusto e o acampamento de Antônio. Pois, como mencionei, Augusto era seu tio-avô e Antônio seu avô, e ali havia uma forte imagem de tristezas e alegrias. Dali foi a Atenas, e, como concessão ao tratado com aquela cidade aliada e antiga, fez-se acompanhar por um único litor. Os gregos o receberam com as mais rebuscadas honras, exibindo os antigos feitos e ditos de seus compatriotas para dar mais dignidade à adulação.
Dirigiu-se de à Eubeia e passou a Lesbos, onde Agripina, em seu último parto, deu à luz Júlia. Depois penetrou nas partes mais remotas da Ásia e nas cidades trácias Perinto e Bizâncio; em seguida entrou no estreito da Propôntide e na boca do Ponto, pelo desejo de conhecer lugares antigos e célebres pela fama; ao mesmo tempo restaurava as províncias esgotadas por discórdias internas ou por injustiças dos magistrados. E, quando, no regresso, ele se esforçava por ver os sagrados mistérios dos samotrácios, ventos do norte que enfrentou o desviaram. Assim, depois de visitar Ílion e o que ali era venerável pela variedade da fortuna e pela origem do nosso povo, costeou de novo a Ásia e tocou em Cólofon, para consultar o oráculo de Apolo Clário. Ali não é uma mulher, como em Delfos, mas um sacerdote escolhido de certas famílias, geralmente trazido de Mileto, que ouve apenas o número e os nomes dos consulentes; depois, descendo a uma gruta e bebendo a água de uma fonte secreta, o homem, geralmente ignorante das letras e da poesia, profere as respostas em versos compostos sobre as coisas que cada um concebeu na mente. E dizia-se que ele predissera a Germânico, por enigmas, como é costume dos oráculos, um fim próximo.
Cneu Pisão, entretanto, para iniciar quanto antes seus planos, aterrorizou a cidade dos atenienses com uma entrada tumultuosa e a repreendeu com um discurso violento, atingindo de viés Germânico, porque ele, contra a honra do nome romano, cultivara com excessiva cortesia não os atenienses, extintos por tantos desastres, mas aquela mistura de nações: pois estes, dizia, haviam sido aliados de Mitridates contra Sula e de Antônio contra o divino Augusto. Lançava-lhes em rosto até fatos antigos, o que tinham feito sem êxito contra os macedônios e com violência contra os seus, ressentido com a cidade também por uma cólera pessoal, porque não cederam a seus rogos um tal Teófilo, condenado por falsificação pelo Areópago. Em seguida, navegando com rapidez pelas Cíclades e por atalhos do mar, alcançou Germânico junto à ilha de Rodes, não ignorando ele com que perseguições fora atacado; mas Germânico agia com tamanha brandura que, ao levantar-se uma tempestade que arrastava Pisão para os rochedos e quando a morte do inimigo poderia ser atribuída ao acaso, enviou trirremes com cujo auxílio ele foi salvo do perigo. Nem por isso Pisão se abrandou, e, mal suportando o atraso de um dia, deixou Germânico e seguiu à frente. E, depois de chegar à Síria e às legiões, mediante distribuição de dinheiro, suborno e favorecendo os mais baixos dos soldados, removia os antigos centuriões e os tribunos severos e atribuía os lugares deles a seus protegidos ou aos piores dos homens, permitia a indolência no acampamento, a licença nas cidades e o soldado vagueando e devasso pelos campos, a tal ponto chegou na corrupção que era chamado, na fala do vulgo, de pai das legiões. Nem Plancina se mantinha dentro do que convém às mulheres, mas participava dos exercícios da cavalaria e das manobras das coortes, lançava insultos contra Agripina e contra Germânico, estando até alguns bons soldados dispostos a uma complacência, pois corria o boato oculto de que isso se fazia sem desagrado do imperador. Tudo isso era sabido por Germânico, mas seu cuidado mais urgente era dirigir-se primeiro à Armênia.
Essa nação foi desde a antiguidade instável, pelo caráter de seu povo e pela posição de suas terras, que, estendendo-se amplamente diante de nossas províncias, prolonga-se ao fundo até os medos; e, situados entre os maiores impérios, estão muitas vezes em discórdia, por ódio aos romanos e por inveja dos partos. Naquele tempo não tinham rei, removido Vonones; mas o favor da nação inclinava-se para Zenão, filho de Polêmon, rei do Ponto, porque ele, desde a primeira infância, imitara os costumes e o modo de vida dos armênios, a caça, os banquetes e tudo o mais que os bárbaros celebram, e assim prendera a si igualmente os nobres e a plebe. Germânico, portanto, na cidade de Artaxata, com a aprovação dos nobres e cercado pela multidão, colocou o diadema régio na cabeça dele. Os demais, reverenciando-o, saudaram-no como rei Artáxias, nome que lhe deram a partir do nome da cidade. a Capadócia, reduzida à forma de província, recebeu como legado Quinto Verânio; e alguns dos tributos régios foram diminuídos, para que se esperasse mais brando o domínio romano. À Comagena foi posto à frente Quinto Servêo, então pela primeira vez transferida para a jurisdição de um pretor.
Embora todos os assuntos dos aliados estivessem felizmente resolvidos, isso não deixava Germânico contente, por causa da soberba de Pisão, que, tendo recebido ordem de conduzir à Armênia parte das legiões, ele próprio ou por meio do filho, negligenciara ambas as coisas. Encontraram-se enfim em Cirro, nos quartéis de inverno da décima legião, com o rosto firme, Pisão contra o medo e Germânico para que não parecesse ameaçar; e ele era, como relatei, o mais clemente. Mas amigos hábeis em atiçar ressentimentos exageravam o verdadeiro, acrescentavam falsidades e acusavam de vários modos o próprio Pisão, Plancina e os filhos. Por fim, na presença de poucos íntimos, iniciou-se uma conversa por parte de César, do tipo que a ira e a dissimulação geram, à qual Pisão respondeu com desculpas insolentes; e separaram-se com ódios abertos. Depois disso Pisão era raro no tribunal de César, e, se alguma vez ali se sentava, mostrava-se carrancudo e manifestamente em desacordo. Ouviu-se também sua voz num banquete, quando, junto ao rei dos nabateus, coroas de ouro de grande peso eram oferecidas a César e a Agripina e leves a Pisão e aos demais, dizendo que aquele banquete era dado ao filho de um imperador romano, não ao de um rei parto; e ao mesmo tempo atirou fora a coroa e acrescentou muitas palavras contra o luxo, que, embora amargas para Germânico, foram ainda assim toleradas por ele.
Nesse meio-tempo chegaram legados de Artabano, rei dos partos. Ele os enviara para recordar a amizade e a aliança, dizendo que desejava renovar os apertos de mão e que, em honra a Germânico, se aproximaria da margem do Eufrates; pedia, entretanto, que Vonones não fosse mantido na Síria, para que não arrastasse à discórdia os nobres das nações por meio de mensageiros que estavam perto. A isso Germânico respondeu com grandeza sobre a aliança entre romanos e partos, e com elegância e moderação sobre a vinda do rei e a deferência para com ele. Vonones foi removido para Pompeiópolis, cidade marítima da Cilícia. Concedeu-se isso não aos rogos de Artabano, mas como afronta a Pisão, a quem ele era muito grato pelos numerosos favores e presentes com que cativara Plancina.
No consulado de Marco Silano e Lúcio Norbano, Germânico partiu para o Egito a fim de conhecer suas antiguidades. Mas alegava-se como pretexto o cuidado com a província, e ele baixou os preços dos grãos abrindo os celeiros e adotou muitas práticas agradáveis ao povo: andava sem soldados, com os pés descalços e em traje igual ao dos gregos, em imitação de Públio Cipião, que, segundo soubemos, costumava fazer o mesmo na Sicília, embora ainda ardesse a guerra contra os cartagineses. Tibério, depois de censurar com palavras brandas seu modo de vestir e seus hábitos, repreendeu-o muito asperamente por ter entrado em Alexandria, contra as disposições de Augusto, sem a permissão do príncipe. Pois Augusto, entre outros segredos do poder, tendo proibido senadores ou cavaleiros romanos ilustres de entrarem sem permissão, reservou para si o Egito, para que não oprimisse a Itália com a fome quem quer que tivesse ocupado aquela província e os acessos por terra e por mar, mesmo com uma guarnição pequena, contra exércitos imensos.
Mas Germânico, ainda não sabendo que aquela viagem era censurada, navegava Nilo acima, partindo da cidade de Canopo. Espartanos a fundaram por causa de Canopo, piloto de um navio, ali sepultado, no tempo em que Menelau, voltando para a Grécia, foi lançado a um mar distante e à terra da Líbia. Dali foi à boca mais próxima do rio, consagrada a um Hércules que os nativos afirmam ter nascido entre eles e ser o mais antigo, e que aqueles que depois tiveram igual valor foram admitidos ao seu nome. Em seguida visitou os grandes vestígios da antiga Tebas. E permaneciam, nas moles construídas, inscrições egípcias que abarcavam a opulência anterior; e um dos mais velhos dos sacerdotes, encarregado de interpretar a língua pátria, relatava que ali habitaram um dia setecentos mil homens em idade militar, e que com esse exército o rei Ramsés se apoderou da Líbia, da Etiópia, dos medos, dos persas, da Bactriana e da Cítia, e que teve sob seu império as terras habitadas pelos sírios, pelos armênios e pelos vizinhos capadócios, do mar da Bitínia, de um lado, ao da Lícia, do outro. Liam-se também os tributos impostos às nações, o peso de prata e ouro, o número de armas e cavalos, e os presentes aos templos, marfim e perfumes, e que quantidades de trigo e de todos os mantimentos cada nação pagava, ordens não menos magníficas do que as que agora se impõem pela força dos partos ou pelo poder romano.
De resto, Germânico voltou o ânimo também para outras maravilhas, das quais as principais foram a efígie de pedra de Mêmnon, que, ferida pelos raios do sol, emite um som de voz humana; as pirâmides erguidas como montanhas entre areias dispersas e mal transitáveis, fruto da rivalidade e das riquezas dos reis; o lago escavado no solo, receptáculo das águas que transbordam do Nilo; e, em outro lugar, os estreitos e a profunda altura que nenhuma sonda dos que investigam consegue penetrar. Dali foi a Elefantina e Siena, antes os limites do império romano, que agora se estende até o mar Vermelho.
Enquanto Germânico passava aquele verão em visitas a várias províncias, Druso conquistou não pequena glória ao incitar os germanos à discórdia e ao instigar que, quebrado o poder de Marobóduo, se insistisse até a sua destruição. Havia entre os gótones um jovem de nobre nascimento, de nome Catualda, antes expulso pela força de Marobóduo e que então, sendo incertas as fortunas dele, ousou a vingança. Ele penetrou com forte tropa nos territórios dos marcomanos e, corrompidos os chefes para a aliança, irrompeu no palácio régio e numa fortaleza situada ao lado. Ali foram encontrados os antigos despojos dos suevos e, vindos de nossas províncias, vivandeiros e negociantes, a quem o direito de comércio, depois o desejo de aumentar o dinheiro e, por fim, o esquecimento da pátria haviam transferido, cada um de suas moradias, para o território inimigo.