Anais - Livro II 1
Germânico no Oriente e na Germânia, sua morte na Síria e o luto de Roma
No consulado de Sisena Estatílio Tauro e Lúcio Libão, houve agitação nos reinos do Oriente e nas províncias romanas, com início entre os partos, que desprezavam, como se fosse estrangeiro, um rei que haviam pedido a Roma e recebido, ainda que fosse da linhagem dos Arsácidas. Esse rei era Vonones, dado por Fraates como refém a Augusto. Pois Fraates, embora houvesse repelido os exércitos e generais romanos, prestara a Augusto todos os sinais de reverência e lhe enviara parte de seus filhos para firmar a amizade, não tanto por medo de nós quanto por desconfiar da lealdade de seu próprio povo.
Depois da morte de Fraates e dos reis seguintes, mortos em matanças internas, vieram a Roma embaixadores dos principais partos para buscar Vonones, o mais velho dos filhos dele. César considerou isso uma honra para si e cumulou Vonones de riquezas. Os bárbaros o receberam com alegria, como costuma acontecer com novos governantes. Logo, no entanto, surgiu a vergonha de ver os partos degenerados: haviam buscado um rei de outro mundo, contaminado pelos hábitos do inimigo; agora o trono dos Arsácidas era tratado e concedido como uma das províncias romanas. Onde estava aquela glória dos que mataram Crasso e expulsaram Antônio, se um escravo de César, que suportara tantos anos de servidão, governasse os partos? Aumentava o desprezo o próprio Vonones, distante dos costumes dos antepassados: caçava raramente, cuidava pouco dos cavalos, andava de liteira ao atravessar as cidades e tinha desdém pelos banquetes da pátria. Riam também de seus companheiros gregos e de seu hábito de guardar sob selo até os utensílios mais comuns. Mas era de fácil acesso, de cortesia franca, virtudes desconhecidas dos partos, vícios novos para eles; e, por serem alheias aos próprios costumes, despertavam igual ódio tanto as suas qualidades más quanto as boas.
Por isso convocaram Artabano, do sangue dos Arsácidas, criado entre os daas. Derrotado no primeiro embate, ele reuniu de novo suas forças e tomou o reino. Ao vencido Vonones serviu de refúgio a Armênia, então sem rei e suspensa entre o poder dos partos e o de Roma, desconfiada por causa do crime de Antônio, que, sob a aparência de amizade, atraíra Artavasdes, rei dos armênios, depois o carregara de correntes e por fim o matara. Seu filho Artáxias, hostil a nós pela memória do pai, defendeu a si e ao reino com a força dos Arsácidas. Morto Artáxias pela traição de parentes, César deu aos armênios Tigranes, que foi conduzido ao reino sob a escolta de Tibério Nero. Mas nem Tigranes teve reinado duradouro, nem seus filhos, embora unidos, ao modo estrangeiro, em casamento e em poder real.
Em seguida, por ordem de Augusto, foi posto no trono Artavasdes, e não sem desastre nosso foi derrubado. Então Caio César foi escolhido para pacificar a Armênia. Ele pôs sobre os armênios Ariobarzanes, de origem meda, que aceitaram de bom grado pela notável beleza do corpo e pelo nobre espírito. Morto Ariobarzanes por acidente fortuito, não suportaram o filho dele; e, depois de experimentar o governo de uma mulher chamada Érato, logo expulsa, ficaram incertos e desorganizados, mais sem senhor do que em liberdade, e receberam como rei o fugitivo Vonones. Mas, quando Artabano começou a ameaçar e havia pouco apoio entre os armênios, ou, se Vonones fosse defendido por nossa força, seria preciso declarar guerra aos partos, o governador da Síria, Crético Silano, chamou-o e o cercou de guarda, conservando-lhe o luxo e o título de rei. Como Vonones tramou escapar dessa farsa, contaremos no lugar próprio.
De resto, não desagradou a Tibério que se perturbassem as coisas do Oriente, pois assim, com esse pretexto, afastava Germânico das legiões que o conheciam bem e, posto à frente de novas províncias, o expunha tanto à traição quanto aos acasos do destino. Mas ele, quanto mais ardentes eram a dedicação dos soldados e a má vontade do tio, mais ansioso por apressar a vitória, examinava os caminhos das batalhas e o que de adverso ou favorável lhe sucedera ao longo daquele terceiro ano de guerra. Os germanos eram derrotados em campo aberto e em terreno regular, mas se beneficiavam das florestas, dos pântanos, do verão curto e do inverno precoce; seu próprio soldado sofria menos com os ferimentos do que com as distâncias das marchas e a perda de armas; as Gálias estavam esgotadas de fornecer cavalos; a longa coluna de bagagens era propícia a emboscadas e difícil de defender. Mas, se entrassem pelo mar, a posse seria fácil para eles e desconhecida do inimigo, a guerra começaria mais cedo, as legiões e os mantimentos seriam transportados juntos, e a cavalaria com seus cavalos chegaria intacta ao coração da Germânia pelas embocaduras e leitos dos rios.
Voltou-se, então, para isso, enviando Públio Vitélio e Caio Âncio para recolher os tributos das Gálias. Sílio, Anteio e Cecina foram encarregados de construir a frota. Mil navios pareceram suficientes e foram apressados: alguns curtos, de popa e proa estreitas e ventre largo, para suportar melhor as ondas; alguns de quilha plana, para encalharem sem dano; muitos com lemes nas duas pontas, para que, invertendo de repente a remada, atracassem de um lado ou de outro; muitos cobertos por pontes, sobre as quais se transportavam as máquinas de guerra, e aptos também a levar cavalos ou mantimentos; manobráveis com velas e velozes a remo, ganhavam, com o entusiasmo dos soldados, aspecto imponente e temível. Foi designada como ponto de reunião a ilha dos batavos, por seus fáceis desembarcadouros e por ser adequada para receber as tropas e fazer a guerra atravessar o rio. Pois o Reno, fluindo contínuo num só leito ou cercando apenas pequenas ilhas, divide-se como que em dois rios onde começa o território batavo, e conserva o nome e a violência do curso por onde banha a Germânia, até misturar-se com o Oceano; já na margem gaulesa flui mais largo e calmo (com nome alterado, os habitantes o chamam Vahal), e logo muda também esse nome para o rio Mosa, e por sua imensa foz desemboca no mesmo Oceano.
Mas César, enquanto os navios eram aprontados, ordenou a Sílio, seu legado, que fizesse uma incursão contra os catos com uma tropa ligeira. Ele próprio, ao saber que um forte situado junto ao rio Lúpia estava sob cerco, levou seis legiões até lá. A Sílio, por causa de chuvas repentinas, nada coube fazer senão arrebanhar pequeno saque e a esposa e a filha de Arpo, chefe dos catos; e a César os sitiantes não deram ocasião de combate, dispersando-se ao rumor de sua chegada. Tinham, no entanto, destruído o túmulo erguido havia pouco às legiões de Varo e o velho altar dedicado a Druso. Ele restaurou o altar e, à frente das legiões, celebrou jogos fúnebres em honra do pai; não pareceu necessário refazer o túmulo. E todo o trecho entre o forte Alíson e o Reno foi bem fortificado com novas barreiras e aterros.
A frota já tinha chegado quando, enviados adiante os mantimentos e distribuídos os navios entre as legiões e os aliados, ele entrou no canal chamado de Druso e rogou a Druso, seu pai, que, vendo-o ousar a mesma empresa, o auxiliasse de bom grado e benévolo, com o exemplo e a memória de seus planos e de suas obras. Dali, em navegação favorável, passou pelos lagos e pelo Oceano até o rio Amísia. A frota foi deixada na foz do Amísia, na margem esquerda, e cometeu-se o erro de não a fazer subir o rio nem transpor para a outra margem o soldado que iria às terras da direita; assim, vários dias se gastaram na construção de pontes. A cavalaria e as legiões atravessaram os primeiros estuários sem temor, antes de a maré subir; mas a retaguarda das tropas auxiliares e os batavos, naquela parte, enquanto brincavam nas águas e exibiam a arte de nadar, entraram em desordem, e alguns se afogaram. Enquanto César media o terreno do acampamento, anunciou-se a seu encalço a revolta dos angrivários: enviado de imediato, Estertínio, com a cavalaria e tropas de armamento leve, vingou a traição com fogo e morte.
O rio Visurgis corria entre os romanos e os queruscos. Em sua margem, com os outros chefes, postou-se Armínio e, ao perguntar se César tinha chegado, e respondendo-se que estava presente, pediu que lhe fosse permitido falar com o irmão. Esse irmão estava no exército, de sobrenome Flavo, notável por sua lealdade e por ter perdido um olho num ferimento, poucos anos antes, sob o comando de Tibério. Concedida então a permissão, ele avançou e foi saudado por Armínio, que, afastados os guardas, exigiu que se retirassem os arqueiros postados em nossa margem; e, depois que estes se foram, perguntou ao irmão de onde vinha aquela deformidade do rosto. Ao relatar Flavo o lugar e o combate, Armínio quis saber que recompensa havia recebido. Flavo mencionou o aumento do soldo, um colar, uma coroa e outras condecorações militares, e Armínio zombou de tão vis prêmios de servidão.
Então passaram a discutir, cada um de seu lado. Um falava da grandeza de Roma, dos recursos de César, dos castigos pesados para os vencidos e da clemência preparada para quem se rende; e que nem a esposa nem o filho de Armínio eram tratados com hostilidade. O outro falava do dever para com a pátria, da liberdade herdada dos antepassados, dos deuses do santuário da Germânia, da mãe que se juntava às suas súplicas; pedia que o irmão não preferisse ser desertor e traidor dos parentes, dos aliados e enfim do próprio povo, em vez de seu líder. Pouco a pouco, descambando para insultos, nem mesmo o rio interposto os impediria de travar combate, se Estertínio, acorrendo, não tivesse contido Flavo, cheio de ira, que reclamava as armas e o cavalo. Via-se do outro lado Armínio, ameaçador e desafiando para a luta; pois lançava muitas frases em latim, como quem havia servido nos acampamentos romanos como líder de seus compatriotas.
No dia seguinte, o exército dos germanos postou-se do outro lado do Visurgis. César, julgando que não seria digno de um comandante expor as legiões ao risco sem pontes e postos de guarda, fez a cavalaria atravessar pelos vaus. Comandaram-na Estertínio e Emílio, do número dos primípilos, que avançaram por pontos distantes para dividir o inimigo. Por onde o rio era mais rápido, irrompeu Cariovalda, chefe dos batavos. Os queruscos, simulando fuga, arrastaram-no para uma planície cercada de bosques; depois, lançando-se de todos os lados, empurraram os que enfrentavam e apertaram os que recuavam, e a uns reunidos em círculo, parte combatia de perto, parte os atacava à distância. Cariovalda, depois de suportar por muito tempo a fúria do inimigo, exortou os seus a romper em massa as hostes que avançavam, e ele próprio, lançando-se contra os mais densos, sob uma chuva de dardos e com o cavalo trespassado por baixo, caiu, e muitos nobres ao redor dele; aos demais salvaram do perigo a própria força ou a cavalaria que acorreu com Estertínio e Emílio.
César, tendo atravessado o Visurgis, soube pela informação de um desertor o local de batalha escolhido por Armínio; que outras nações também se tinham reunido num bosque consagrado a Hércules e que ousariam um ataque noturno ao acampamento. Deu crédito ao informante, e viam-se fogueiras; exploradores que se aproximaram mais trouxeram que se ouvia o relincho dos cavalos e o murmúrio de uma multidão imensa e desordenada. Por isso, próximo o momento decisivo, julgando dever sondar o ânimo dos soldados, refletia consigo de que modo isso se faria sem distorção. Os tribunos e centuriões anunciavam mais o que era agradável do que o que era comprovado; os libertos tinham índole servil, e nos amigos havia adulação; se convocasse uma assembleia, ali também o que poucos iniciavam os demais repetiam aos gritos. As mentes deviam ser conhecidas a fundo, quando, em segredo e sem vigilância, durante as refeições militares, os soldados expusessem suas esperanças ou seus temores.
Ao cair da noite, saindo da tenda dos augúrios por uma passagem oculta e ignorada pelos vigias, com um só companheiro, os ombros cobertos por uma pele de fera, percorreu as ruas do acampamento, postou-se junto às tendas e desfrutou da própria fama, enquanto um exaltava a nobreza do general, outro a sua aparência, e a maioria a paciência e a afabilidade, dizendo que, nas coisas sérias e nas brincadeiras, era sempre o mesmo, e prometendo retribuir-lhe o favor em batalha, sacrificando os pérfidos violadores da paz à vingança e à glória. Nesse meio-tempo, um dos inimigos, conhecedor da língua latina, esporeando o cavalo até a paliçada, prometia em alta voz, em nome de Armínio, a quem desertasse, esposas, terras e cem sestércios por dia enquanto durasse a guerra. Esse ultraje atiçou a ira das legiões: que viesse o dia, que se travasse a batalha; o soldado tomaria as terras dos germanos e arrebataria as esposas; aceitavam o presságio e destinavam ao saque as mulheres e os bens do inimigo. Por volta da terceira vigília, assaltaram o acampamento sem lançar dardos; mas, ao perceberem coortes cerradas diante das defesas e nenhuma negligência, recuaram.
Aquela mesma noite trouxe a Germânico um sono agradável: viu-se oficiando um sacrifício e, com a túnica salpicada do sangue da vítima, recebeu outra mais bela das mãos de sua avó Augusta. Encorajado pelo presságio e com os auspícios favoráveis, convocou a assembleia e expôs o que a prudência aconselhava como adequado à batalha iminente. Não só as planícies eram boas para o combate do soldado romano, mas também, se houvesse método, as florestas e os desfiladeiros; pois os escudos imensos e as lanças enormes dos bárbaros não se manejavam tão bem entre os troncos das árvores e os arbustos brotados do chão quanto os dardos, as espadas e a couraça ajustada ao corpo. Que multiplicassem os golpes e buscassem o rosto com as pontas das espadas: o germano não tinha couraça nem elmo, nem mesmo o escudo era reforçado com ferro ou couro, mas feito de vime trançado ou de tábuas finas e pintadas; só a primeira fila, de algum modo, tinha lanças, os demais com armas endurecidas no fogo ou curtas. Quanto ao corpo, embora de aspecto feroz e forte num breve ímpeto, não tinha resistência aos ferimentos: sem vergonha da desonra, sem respeito pelos chefes, abandonava o campo e fugia, acovardado na adversidade e, na prosperidade, esquecido das leis divinas e humanas. Se, por cansaço das marchas e do mar, desejavam o fim, esta batalha o preparava: o Elba estava agora mais perto do que o Reno, e não havia guerra além dele, contanto que o sustentassem, ele que seguia os passos do pai e do tio, e o firmassem vencedor nas mesmas terras.
O discurso do general foi seguido pelo ardor dos soldados, e deu-se o sinal de combate. Nem Armínio nem os outros nobres germanos deixavam de invocar cada qual o testemunho dos seus, de que esses eram os romanos mais fujões do exército de Varo, que, para não suportar a guerra, se haviam amotinado; parte deles tinha as costas cobertas de feridas, parte expunha de novo a inimigos furiosos e a deuses adversos os membros quebrados pelas ondas e pelas tempestades, sem esperança alguma de êxito. Recorreram, de fato, à frota e às paragens remotas do Oceano para que ninguém os enfrentasse na vinda nem os perseguisse na fuga; mas, uma vez travada a luta, de nada serviria aos vencidos o socorro dos ventos ou dos remos. Que se lembrassem apenas da avareza, da crueldade e da soberba romanas: que outra coisa lhes restava senão conservar a liberdade ou morrer antes da escravidão?
Assim inflamados e exigindo combate, foram conduzidos a uma planície de nome Idistaviso. Ela se estende entre o Visurgis e uma cadeia de colinas, encurvando-se de modo irregular conforme as margens do rio recuam ou as saliências dos montes avançam. Por trás erguia-se uma floresta, com ramos altos e o solo limpo entre os troncos das árvores. A linha bárbara ocupou a planície e a orla do bosque; só os queruscos tomaram as alturas, para se lançar de cima sobre os romanos durante o combate. Nosso exército avançou nesta ordem: à frente, os auxiliares gauleses e germanos; atrás deles, os arqueiros a pé; depois, quatro legiões e César com duas coortes pretorianas e a cavalaria escolhida; em seguida, outras tantas legiões e a infantaria leve com a cavalaria arqueira e as demais coortes dos aliados. O soldado estava atento e preparado para passar da formação de marcha à linha de batalha.
Vistas as hostes dos queruscos, que por ferocidade haviam irrompido, ordenou que os mais robustos cavaleiros os atacassem pelo flanco, que Estertínio com os demais esquadrões os rodeasse e investisse pela retaguarda, e que ele próprio acorreria no momento certo. Nesse meio-tempo, um belíssimo augúrio: oito águias, vistas voar em direção às florestas e nelas entrar, chamaram a atenção do comandante. Ele exclamou que fossem e seguissem as aves romanas, as divindades próprias das legiões. Ao mesmo tempo a infantaria avançou, e a cavalaria enviada adiante atacou a retaguarda e os flancos. E, coisa espantosa de se dizer, duas hostes do inimigo fugiram em direções opostas: os que tinham ocupado a floresta corriam para o campo aberto, os que estavam na planície corriam para a floresta. Os queruscos, no meio deles, eram expulsos das colinas, e entre eles o notável Armínio, com a mão, a voz e o ferimento, sustentava o combate. Lançara-se sobre os arqueiros, prestes a rompê-los, se as coortes dos rétios, dos vindélicos e dos gauleses não lhe tivessem oposto os estandartes. Ainda assim, pelo esforço do corpo e pelo ímpeto do cavalo, passou através deles, tendo besuntado o rosto com o próprio sangue para não ser reconhecido. Alguns contam que foi reconhecido pelos caucos que serviam entre os auxiliares romanos e que foi deixado escapar. Igual coragem, ou igual ardil, deu fuga a Inguiômero; os demais foram massacrados por toda parte. A muitos que tentavam atravessar a nado o Visurgis, os dardos lançados, ou a força da corrente, ou por fim a massa dos que se atiravam e o desmoronar das margens os encobriram. Alguns, em fuga vergonhosa, subindo ao alto das árvores e escondendo-se nos ramos, eram alvejados por brincadeira pelos arqueiros trazidos para perto; outros foram esmagados pelas árvores derrubadas.
Foi grande essa vitória e sem perda de sangue para nós. Da quinta hora do dia até a noite, os inimigos abatidos cobriram dez mil passos com cadáveres e armas, encontrando-se entre os despojos as correntes que tinham trazido para os romanos, como se o resultado fosse certo. No próprio campo de batalha, os soldados saudaram Tibério como imperador e ergueram um aterro, sobre o qual dispuseram as armas à maneira de troféus, com os nomes dos povos vencidos inscritos abaixo.
Não tanto os ferimentos, o luto e a destruição quanto essa visão afligiu os germanos de dor e ira. Os que pouco antes se preparavam para abandonar suas terras e recuar para além do Elba agora queriam o combate e pegavam em armas; o povo e os chefes, os jovens e os velhos, lançam-se de repente sobre o exército romano e o transtornam. Por fim, escolheram um local cercado por um rio e por florestas, com uma planície estreita e úmida no interior; um pântano profundo rodeava também os bosques, exceto de um lado, onde os angrivários haviam erguido um largo aterro para se separar dos queruscos. Ali se postou a infantaria; a cavalaria esconderam nos bosques próximos, para que, assim que as legiões entrassem na floresta, ela ficasse à retaguarda delas.
Nada disso era desconhecido de César: ele sabia os planos, os lugares, o que estava à mostra e o que estava oculto, e voltava os ardis do inimigo para a ruína deles próprios. Ao legado Seio Tuberão entregou a cavalaria e a planície; dispôs a linha de infantaria de modo que parte avançasse pela entrada plana da floresta e parte escalasse o aterro que se erguia à frente. O que era difícil reservou para si, o restante confiou aos legados. Os que tinham terreno plano irromperam com facilidade; os que tinham de assaltar o aterro, como se subissem um muro, eram castigados por golpes pesados vindos de cima. O general percebeu que o combate corpo a corpo era desigual e, recuando um pouco as legiões, mandou os fundeiros e atiradores de pedra disparar dardos e afastar o inimigo. Lançaram-se lanças das máquinas de guerra e, quanto mais visíveis eram os defensores, com tantos mais ferimentos eram derrubados. César, com algumas coortes pretorianas, foi o primeiro a, tomada a paliçada, lançar-se nas florestas; ali se combateu corpo a corpo. Ao inimigo fechava-o pela retaguarda o pântano, aos romanos o rio ou os montes; para ambos havia necessidade no lugar, esperança no valor, salvação na vitória.
Não era menor a coragem dos germanos, mas eram superados pelo tipo de combate e de armas, pois a enorme multidão, em local apertado, não conseguia estender nem recolher as lanças longuíssimas, nem usar a agilidade e a leveza dos corpos, forçada a um combate imóvel; ao contrário, o soldado, com o escudo apertado contra o peito e a mão firme no punho da espada, golpeava os largos membros dos bárbaros e os rostos descobertos, abrindo caminho pela carnificina do inimigo, já que Armínio agia com menos vigor por causa dos perigos contínuos, ou porque o ferimento recente o tinha retardado. E até Inguiômero, que voava por todo o campo de batalha, era abandonado mais pela sorte do que pela coragem. Germânico, para ser mais bem reconhecido, tirara o elmo da cabeça e rogava que os seus prosseguissem na matança: não havia necessidade de prisioneiros, só o extermínio do povo poria fim à guerra. E já tarde do dia retirou da linha uma legião para erguer o acampamento; as demais, até a noite, saciaram-se do sangue do inimigo. A cavalaria combateu com resultado indeciso.
Louvados em assembleia os vitoriosos, César ergueu uma pilha de armas com uma inscrição altiva: que o exército de Tibério César, depois de subjugar os povos entre o Reno e o Elba, consagrara aquele monumento a Marte, a Júpiter e a Augusto. Sobre si mesmo nada acrescentou, por medo da inveja ou por julgar bastante a consciência do feito. Em seguida confiou a Estertínio a guerra contra os angrivários, caso não se apressassem a se render. E eles, suplicantes, nada recusando, obtiveram o perdão de tudo.
Mas, já no auge do verão, parte das legiões foi mandada de volta aos quartéis de inverno por via terrestre; a maioria César pôs a bordo da frota e a conduziu pelo rio Amísia até o Oceano. A princípio, o mar tranquilo ressoava com os remos de mil navios ou era impelido pelas velas; logo, de uma negra massa de nuvens, despencou granizo, enquanto ondas incertas, sob tempestades vindas de toda parte, tiravam a visão e atrapalhavam o governo das naves; e o soldado, amedrontado e sem experiência dos perigos do mar, ao perturbar os marujos ou ajudá-los a destempo, frustrava o trabalho dos peritos. Depois, todo o céu e todo o mar viraram para o sul, vento que, forte com as terras encharcadas da Germânia, os rios profundos e a imensa extensão de nuvens, e ainda mais terrível pelo frio do norte vizinho, arrebatou e dispersou as naves para o mar aberto do Oceano ou para ilhas eriçadas de rochedos abruptos e perigosas por bancos de areia ocultos. Evitados estes a custo e com dificuldade, quando a maré mudou e passou a levar na mesma direção do vento, já não podiam segurar-se nas âncoras nem esgotar as ondas que irrompiam: cavalos, animais de carga, bagagens e até as armas foram lançados ao mar para aliviar os cascos que vazavam pelos flancos sob o assalto das ondas que os encobriam.