Capítulos

A República - Livro X
A crítica à poesia imitativa, a imortalidade da alma e o mito de Er sobre o juízo e a escolha das vidas
Sobre a obra
A República é um diálogo de Platão (c. 428 a 348 a.C.), filósofo ateniense discípulo de Sócrates. A obra investiga o que é a justiça e desenha uma cidade ideal como modelo. A maioria dos estudiosos data a composição entre cerca de 380 e 370 a.C.
A obra completa tem dez livros. Este é o Livro X, o último. Ele encerra o diálogo com três temas: uma crítica final à poesia, um argumento pela imortalidade da alma e um grande mito sobre o destino das almas depois da morte.
O que este livro discute
A primeira parte retoma a crítica à poesia imitativa. Sócrates argumenta que o poeta, assim como o pintor, imita apenas aparências. Usa o exemplo da cama: há a forma da cama, a cama feita pelo artesão e a cama pintada pelo artista. A imitação fica, então, três graus afastada da verdade. Por enganar e por alimentar as paixões em vez da razão, a poesia imitativa é novamente afastada da cidade ideal.
A segunda parte traz os argumentos pela imortalidade da alma. Sócrates raciocina que cada coisa só é destruída pelo mal que lhe é próprio. O mal próprio da alma é a injustiça e o vício, mas estes corrompem sem destruir a alma. Logo, nada a destrói, e ela é imortal.
O livro fecha com o mito de Er, um soldado que parecia morto e voltou da pira funerária para relatar o que viu. Er descreve o juízo das almas, com recompensas para os justos e punições para os injustos, e sobretudo a escolha das próximas vidas: antes de renascer, cada alma escolhe a vida que irá viver, e depois bebe do rio do Esquecimento. O mito serve de moral final, ligando a justiça nesta vida ao destino da alma.
Relevância para a fé cristã
A defesa da imortalidade da alma foi um dos pontos de maior afinidade entre o platonismo e o cristianismo. Muitos Padres da Igreja recorreram a argumentos de inspiração platônica para sustentar que a alma sobrevive à morte do corpo. O mito de Er, com o juízo após a morte e a retribuição moral, tem ressonância temática com a doutrina cristã do juízo, em que cada um responde pelo que fez.
Saibam que a alma do homem é imortal e não perece, mas que ela é capaz de suportar todo o mal e todo o bem.Platão, A República, Livro X
Há, porém, uma tensão clara e importante. O mito de Er ensina a reencarnação, a transmigração das almas por sucessivas vidas, e a ideia de que a própria alma escolhe a vida que irá viver. Essa doutrina é rejeitada pelo cristianismo, que afirma uma só vida seguida de juízo, e a ressurreição do corpo, não a passagem da alma de um corpo a outro. O texto de Hebreus 9:27, segundo o qual está reservado aos homens morrer uma só vez e depois disto o juízo, marca o contraste de modo direto.
Cabe a ressalva honesta. A afinidade está na imortalidade da alma e na ideia de retribuição moral após a morte. A divergência é radical no que toca à reencarnação e à preexistência das almas. Os Padres que aproveitaram Platão fizeram-no de forma seletiva, separando o que consideravam compatível com a Escritura daquilo que contrariava a fé.
Para a imortalidade da alma e o mito de Er, ver: