A República - Livro X 5
A crítica à poesia imitativa, a imortalidade da alma e o mito de Er sobre o juízo e a escolha das vidas
O mito de Er: a escolha das vidas
Quando Er e as almas chegaram, sua primeira obrigação era ir até Láquesis. Mas antes de tudo apareceu um profeta, que as colocou em ordem. Em seguida, tomou dos joelhos de Láquesis os números do sorteio e os modelos de vidas, subiu a um alto estrado e falou assim:
"Ouçam a palavra de Láquesis, a filha da Necessidade. Almas efêmeras, eis o começo de um novo ciclo de vida e de morte para a raça mortal. Não será um destino que escolherá vocês: vocês é que escolherão o seu destino. Aquele que tirar o primeiro número escolherá primeiro a vida à qual ficará ligado por necessidade.
A virtude não tem dono: cada um terá mais ou menos dela conforme a honre ou a despreze. A responsabilidade é de quem escolhe. O deus é inocente."
Tendo dito isso, o profeta lançou os números por entre todos, e cada um pegou o que caiu perto de si, exceto Er, a quem não foi permitido. E cada um, ao pegar o seu número, percebeu a posição que lhe coubera na ordem da escolha.
Depois disso, o profeta colocou diante deles, no chão, os modelos de vidas. E havia muito mais vidas do que almas presentes, e eram de toda espécie. Havia vidas de todos os animais e de homens em toda condição.
Havia entre elas tiranias, algumas que duravam a vida inteira do tirano, outras que se interrompiam no meio e terminavam em pobreza, exílio e mendicância. Havia vidas de homens famosos, uns célebres pela aparência, pela beleza, pela força e pelo sucesso nos jogos, outros pela linhagem e pelas qualidades dos antepassados; e também as vidas dos que eram o contrário disso. O mesmo valia para as mulheres.
Não havia, mas, um caráter já fixado nessas vidas, porque a alma, ao escolher uma vida nova, fica necessariamente diferente. Mas todas as outras qualidades estavam ali, misturadas umas com as outras, e também com riqueza e pobreza, doença e saúde, além de estados intermediários.
E aqui, meu caro Glauco, está o maior perigo da nossa condição humana. Por isso é preciso o máximo cuidado. Que cada um de nós deixe de lado todo outro tipo de conhecimento e busque uma só coisa: ser capaz de aprender e de encontrar alguém que o torne capaz de distinguir entre o bem e o mal, para escolher sempre e em toda parte a melhor vida que estiver ao seu alcance.
Ele deve examinar como tudo o que foi mencionado, isolado e combinado, afeta a virtude. Deve saber qual o efeito da beleza unida à pobreza ou à riqueza numa determinada alma, e quais as consequências boas e más da origem nobre ou humilde, da vida privada ou pública, da força ou da fraqueza, da inteligência ou da estupidez, e de todos os dons naturais e adquiridos da alma, quando agem combinados.
Então ele vai olhar para a natureza da alma e, considerando todas essas qualidades, será capaz de determinar qual vida é a melhor e qual é a pior. Assim fará a sua escolha, chamando de má a vida que tornar a sua alma mais injusta, e de boa a que a tornar mais justa, e desprezando tudo o mais. Pois já vimos e sabemos que essa é a melhor escolha, tanto na vida quanto depois da morte.
Cada um deve levar consigo para o mundo de baixo uma fé inabalável na verdade e no que é justo, para que também lá não se deixe deslumbrar pelo desejo de riqueza ou pelas outras seduções do mal. Assim não cairá em tiranias e maldades semelhantes, fazendo a outros males irreparáveis e sofrendo ainda pior.
Ele deve, ao contrário, aprender a escolher sempre a vida do meio e a fugir dos extremos de um lado e de outro, tanto quanto possível, nesta vida e em toda a que vier depois. Pois esse é o caminho da felicidade.
E, segundo o relato do mensageiro vindo do outro mundo, foi isto o que o profeta disse na ocasião: "Mesmo para o último a escolher, se ele escolher com sabedoria e viver com dedicação, há reservada uma existência feliz e nada desprezível. Que aquele que escolhe primeiro não seja descuidado, e que o último não perca a esperança."
Tendo ele falado, o que tinha a primeira escolha avançou e num instante escolheu a maior das tiranias. Sua mente, obscurecida pela tolice e pela ganância, não tinha examinado tudo antes de escolher, e ele não percebeu de imediato que estava fadado, entre outros males, a devorar os próprios filhos.
Mas quando teve tempo de refletir e viu o que havia naquela vida, começou a bater no peito e a lamentar sua escolha, esquecendo a advertência do profeta. Pois, em vez de pôr a culpa da própria desgraça em si mesmo, acusava o acaso, os deuses e tudo o mais, menos a si próprio.
Ora, ele era um dos que vinham do céu, e numa vida anterior tinha morado numa cidade bem ordenada. Mas sua virtude era apenas questão de hábito, sem filosofia. E o mesmo era verdade dos outros que caíram nessa armadilha: a maior parte deles vinha do céu e, por isso, nunca tinha sido provada pelo sofrimento. Já os que vinham da terra, tendo eles mesmos sofrido e visto outros sofrer, não tinham pressa de escolher.
Por causa dessa inexperiência, e também porque o número era questão de sorte, muitas das almas trocaram um bom destino por um mau, ou um mau por um bom. Pois se um homem, ao chegar a este mundo, sempre se dedicasse desde o início a uma filosofia sadia, e tivesse a sorte de não tirar um dos últimos números, teria, segundo o mensageiro, condições de ser feliz aqui. E a sua viagem para a outra vida e a volta para esta, em vez de ser áspera e subterrânea, seria suave e celeste.
O espetáculo, ele disse, era digno de se ver, ao mesmo tempo triste, ridículo e estranho. Pois a escolha das almas se baseava, na maioria dos casos, na experiência de uma vida anterior. Ali ele viu a alma que um dia fora Orfeu escolher a vida de um cisne, por ódio à raça das mulheres, recusando nascer de uma mulher porque haviam sido elas as suas assassinas. Viu também a alma de Tâmiris escolhendo a vida de um rouxinol. E havia pássaros, como o cisne e outros músicos, que ao contrário queriam ser homens.
A alma que tirou o vigésimo número escolheu a vida de um leão: era a alma de Ájax, filho de Télamon, que não queria mais ser homem, lembrando da injustiça cometida contra ele no julgamento das armas. A seguinte foi Agamêmnon, que tomou a vida de uma águia, pois também ele, como Ájax, odiava a natureza humana por causa do que sofrera.
Mais ou menos no meio veio a vez de Atalanta. Ao ver a grande fama de um atleta, ela não conseguiu resistir à tentação e a escolheu. Depois dela seguiu a alma de Epeu, filho de Panopeu, passando para a natureza de uma mulher habilidosa nas artes. E lá longe, entre os últimos a escolher, a alma do bobo Tersites vestia a forma de um macaco.
Veio também a alma de Odisseu, que ainda tinha de escolher, e por acaso o seu número era o último de todos. A lembrança das antigas dores já o tinha curado da ambição, e ele andou um bom tempo à procura da vida de um homem comum, sem preocupações. Teve certa dificuldade de encontrá-la, pois estava jogada de lado, desprezada por todos os outros. Quando a viu, disse que teria feito o mesmo se o seu número tivesse sido o primeiro, e que estava encantado em escolhê-la.
E não só homens passavam para animais: havia também animais, mansos e selvagens, que se transformavam uns nos outros e nas naturezas humanas correspondentes, os bons na natureza gentil, os maus na natureza selvagem, em toda sorte de combinações.
Quando todas as almas já tinham escolhido as suas vidas, foram, na ordem do sorteio, até Láquesis. Ela enviou com cada uma o destino que tinham escolhido, para ser o guardião da vida e o executor da escolha. Esse destino conduzia a alma primeiro a Cloto, e a fazia passar por baixo da mão e do giro do fuso girado por ela, ratificando assim a sorte escolhida.
Depois de tocar nesse fuso, o destino levava a alma até Átropos, que fiava os fios e os tornava irreversíveis. Dali, sem se virar para trás, as almas passavam por baixo do trono da Necessidade. Quando todas tinham passado, seguiram caminho sob um calor escaldante até a planície do Esquecimento, um deserto árido, sem árvores nem vegetação.
Ao cair da tarde, acamparam junto ao rio do Descuido, cuja água nenhum recipiente consegue conter. Todas eram obrigadas a beber uma certa medida dessa água, e as que não eram salvas pela sabedoria bebiam mais do que o necessário. E cada um, ao beber, esquecia todas as coisas.
Depois que foram dormir, lá pela meia-noite houve uma tempestade de trovões e um terremoto, e então, num instante, foram lançadas para cima, em todas as direções, rumo ao seu nascimento, como estrelas cadentes. Er foi impedido de beber da água, mas de que maneira e por que meio voltou ao corpo, ele não sabia dizer. Só sabia que, de manhã, acordando de repente, viu-se deitado sobre a pira funerária.
E assim, Glauco, o mito foi salvo e não pereceu, e poderá nos salvar se obedecermos à sua palavra. Atravessaremos em segurança o rio do Esquecimento e a nossa alma não será manchada.
Por isso o meu conselho é que nos apeguemos para sempre ao caminho celeste e sigamos sempre a justiça e a virtude, lembrando que a alma é imortal e capaz de suportar todo tipo de bem e todo tipo de mal. Assim viveremos amigos uns dos outros e dos deuses, tanto enquanto permanecermos aqui como quando recebermos a nossa recompensa, do mesmo modo que os vencedores nos jogos vão recolhendo os prêmios. E tudo correrá bem para nós, nesta vida e na peregrinação de mil anos que descrevemos.