Capítulos

Sócrates ensinando dois jovens atenienses

A República - Livro VI

A natureza do filósofo, por que a cidade o rejeita, a ideia do Bem, a analogia do Sol e a Linha Dividida

Sobre a obra

A República é o diálogo mais extenso de Platão, escrito por volta do século 4 a.C. Tem Sócrates como personagem principal e busca definir o que é a justiça, usando a descrição de uma cidade ideal como modelo ampliado da alma. O Livro VI continua a defesa do rei filósofo iniciada no livro anterior.

Esta edição divide A República em volumes. Este é o Livro VI, com cinco capítulos. Ele explica por que a cidade rejeita o filósofo e apresenta a Ideia do Bem como princípio supremo, com duas comparações famosas: a analogia do sol e a linha dividida.

O que este livro discute

Sócrates primeiro descreve a natureza do filósofo, alguém voltado para a verdade e o que sempre permanece. Em seguida explica por que as cidades costumam desprezar esses homens. Usa a alegoria do navio, em que a tripulação disputa o leme sem entender de navegação e trata o verdadeiro piloto como inútil. A cidade, assim, rejeita quem mais saberia governar.

(A República - Livro VI 1:1)

O livro também trata da corrupção das melhores naturezas. Quanto mais dotado é o jovem, mais a má educação e o ambiente o desviam, de modo que os talentos maiores podem produzir os piores resultados quando mal formados.

(A República - Livro VI 2:1)

No centro está a Ideia do Bem, apresentada como o princípio mais alto, fonte do ser e do conhecer. Sócrates a descreve como estando além da essência, o que o texto grego chama epekeina tes ousias. O Bem não é mais uma coisa entre as coisas, mas aquilo que torna possíveis o conhecimento e a própria realidade.

(A República - Livro VI 4:1)

Para explicar o Bem, Platão usa duas comparações. Na analogia do sol, o Bem ilumina o mundo inteligível como o sol ilumina o mundo visível: assim como o olho só vê à luz do sol, a mente só conhece à luz do Bem. Na linha dividida, ele distingue graus de realidade e de conhecimento, do mundo sensível ao inteligível.

(A República - Livro VI 5:1)

Relevância para a fé cristã

A Ideia do Bem além do ser é uma das ideias mais influentes na teologia cristã. Ela alimentou a teologia apofática, ou negativa, que descreve Deus como estando além do ser e do conhecer. Essa tradição é central em Pseudo-Dionísio, autor que esta coleção hospeda na obra Da Hierarquia Celeste, e na mística posterior.

A analogia do sol foi aproximada da doutrina da iluminação divina em Agostinho, segundo a qual a mente vê a verdade à luz de Deus, assim como o olho vê à luz do sol. Muitos Padres da Igreja identificaram o Bem platônico com Deus, usando a linguagem de Platão para falar do princípio supremo.

A identificação tem limites. O Bem de Platão é um princípio impessoal, não o Deus pessoal, criador e providente da Bíblia. Platão não fala de criação do nada nem de um Deus que se revela e ama. A leitura que junta o Bem ao Deus cristão é uma apropriação cristã posterior, não a afirmação do próprio texto.

A República é uma obra pagã, anterior ao cristianismo. Seus conceitos foram recebidos e transformados pela tradição cristã ao longo de séculos. Reconhecer o quanto inspiraram a teologia não apaga a distância entre a filosofia de Platão e a fé revelada.