A República - Livro VI 2
A natureza do filósofo, por que a cidade o rejeita, a ideia do Bem, a analogia do Sol e a Linha Dividida
A corrupção das melhores naturezas
Vamos retomar a conversa de onde a deixamos, lembrando como descrevemos a natureza boa e nobre. A verdade, como você deve se recordar, era o guia dela: ele a seguia sempre e em tudo. Quem falha nisso é um impostor e não tem parte alguma na filosofia verdadeira.
Sim, foi isso que dissemos. E essa única qualidade, só pra mencionar uma, não vai muito contra a ideia que hoje as pessoas têm do filósofo? Sem dúvida, ele respondeu.
E não temos o direito de dizer, em defesa dele, que quem ama de verdade o conhecimento está sempre buscando o ser? Essa é a natureza dele. Ele não vai se contentar com a multiplicidade das coisas individuais, que é só aparência, mas vai em frente. O fio da sua vontade não se embota, nem a força do seu desejo diminui,
até que ele alcance o conhecimento da verdadeira natureza de cada essência, por meio de um poder da alma afim e adequado a ela. Com esse poder ele se aproxima, se mistura e se une ao próprio ser, gera mente e verdade, conhece, vive e cresce de verdade. Só então, e não antes, ele cessa do seu esforço.
Nada poderia ser mais justo que descrevê-lo assim, ele disse. E o amor à mentira será parte da natureza de um filósofo? Ele não vai odiar a mentira com todas as forças? Vai odiá-la, ele respondeu.
E quando a verdade é a capitã, não podemos suspeitar de nenhum mal no grupo que ela conduz? Impossível. A justiça e a saúde da mente farão parte da comitiva, e a temperança virá atrás? Verdade, ele respondeu.
Também não há razão pra eu listar de novo as virtudes do filósofo, pois você sem dúvida se lembra de que coragem, grandeza de espírito, capacidade de aprender e memória eram seus dons naturais. E você objetou que, embora ninguém pudesse negar o que eu disse, ainda assim, se deixarmos as palavras e olharmos os fatos, as pessoas assim descritas são, algumas delas, claramente inúteis, e a maioria, totalmente corrompida.
Fomos então levados a investigar as razões dessas acusações, e agora chegamos ao ponto de perguntar por que a maioria é ruim. Essa questão necessariamente nos trouxe de volta ao exame e à definição do verdadeiro filósofo. Exatamente.
Em seguida, temos que examinar as corrupções da natureza filosófica, por que tantos são estragados e tão poucos escapam. Falo daqueles que dissemos serem inúteis, mas não maus. Depois disso, vamos falar dos imitadores da filosofia, que tipo de homens são esses que aspiram a uma profissão acima deles e da qual são indignos,
e que, por suas muitas incoerências, atraem sobre a filosofia, e sobre todos os filósofos, aquela reprovação geral de que falamos. Que corrupções são essas?, ele perguntou.
Vou ver se consigo explicar pra você. Todo mundo vai admitir que uma natureza que tenha em perfeição todas as qualidades que exigimos de um filósofo é uma planta rara, raramente vista entre os homens. Rara mesmo. E quantas causas, numerosas e poderosas, tendem a destruir essas naturezas raras! Que causas?
Em primeiro lugar, há as próprias virtudes dele: sua coragem, temperança e as demais. Cada uma dessas qualidades louváveis, e isso é o mais curioso, destrói e desvia da filosofia a alma que as possui. Isso é muito curioso, ele respondeu.
Depois há todos os bens comuns da vida: beleza, riqueza, força, posição social e grandes relações na cidade. Você entende o tipo de coisa. Essas também têm um efeito corruptor e desviante. Eu entendo, mas gostaria de saber com mais precisão o que você quer dizer com isso.
Apreenda a verdade como um todo, eu disse, e do jeito certo. Aí você não terá dificuldade em entender as observações anteriores, e elas não vão mais parecer estranhas a você. E como devo fazer isso?, ele perguntou.
Bem, eu disse, sabemos que todos os germes ou sementes, vegetais ou animais, quando não encontram o alimento, o clima ou o solo adequados, sofrem com a falta de um ambiente apropriado tanto mais quanto mais vigorosos forem. Pois o mal é inimigo maior do que é bom do que do que não é bom. Muito verdade.
Faz sentido supor que as melhores naturezas, sob condições estranhas a elas, recebem mais dano que as inferiores, porque o contraste é maior. Sem dúvida.
E não podemos dizer, Adimanto, que as mentes mais bem-dotadas, quando mal-educadas, se tornam excepcionalmente más? Não nascem os grandes crimes e o espírito do mal puro de uma riqueza de natureza arruinada pela educação, mais do que de qualquer inferioridade? Já as naturezas fracas dificilmente são capazes de algum grande bem ou grande mal. Aí eu acho que você tem razão.
E nosso filósofo segue a mesma lógica. Ele é como uma planta que, tendo o cuidado adequado, deve necessariamente crescer e amadurecer em toda virtude. Mas, se for semeada e plantada num solo estranho, vira a mais nociva de todas as ervas daninhas, a menos que seja preservada por algum poder divino.
Você acredita mesmo, como as pessoas tantas vezes dizem, que nossos jovens são corrompidos pelos sofistas? Ou que professores particulares dessa arte os corrompem em algum grau digno de nota? Não é o próprio público que diz essas coisas o maior de todos os sofistas? E não educam à perfeição jovens e velhos, homens e mulheres, moldando-os à sua própria imagem? Quando isso acontece?, ele perguntou.
Quando se reúnem, eu disse, e a multidão se senta numa assembleia, num tribunal, num teatro, num acampamento, ou em qualquer outro local público, e há um grande tumulto. Eles elogiam certas coisas que são ditas ou feitas e censuram outras, exagerando igualmente as duas, gritando e batendo palmas. E o eco das rochas e do lugar onde estão reunidos redobra o som do elogio ou da censura.
Num momento desses, o coração de um jovem não vai, como se diz, saltar dentro dele? Algum treino particular vai capacitá-lo a resistir firme contra a enxurrada esmagadora da opinião popular? Ou ele será arrastado pela correnteza? Não terá as mesmas noções de bem e mal que o público em geral tem, fazendo o que eles fazem, sendo o que eles são? Sim, Sócrates, a necessidade vai obrigá-lo.
E ainda assim, eu disse, há uma necessidade ainda maior, que não foi mencionada. Qual é?, ele perguntou. A força gentil do confisco, da perda dos direitos ou da morte, que, como você sabe, esses novos sofistas e educadores, que são o público, aplicam quando suas palavras não bastam. De fato eles aplicam, e com toda a seriedade.
Agora, que opinião de qualquer outro sofista, ou de qualquer pessoa particular, pode vencer numa disputa tão desigual? Nenhuma, ele respondeu. Não mesmo, eu disse, e até tentar já é uma grande tolice. Não há, nunca houve, nem provavelmente haverá um tipo de caráter diferente, formado na virtude por outro treino que não o da opinião pública.
Falo, meu amigo, da virtude humana apenas. O que é mais do que humano, como diz o ditado, fica de fora. Pois eu não queria que você ignorasse que, no atual estado ruim dos governos, tudo o que se salva e dá certo é salvo pelo poder de um deus, como podemos verdadeiramente dizer. Concordo plenamente, ele respondeu.
Então me deixe pedir seu acordo também numa observação a mais. O que você vai dizer? Que todos aqueles indivíduos mercenários, que a maioria chama de sofistas e considera seus adversários, na verdade não ensinam nada além da opinião da maioria, ou seja, as opiniões das assembleias. E é a isso que chamam de sabedoria.
Eu poderia compará-los a um homem que estudasse os humores e desejos de um bicho enorme e forte que ele alimenta. Ele aprenderia como se aproximar e lidar com o animal, em que momentos e por que causas ele é perigoso ou manso, o significado dos seus vários gritos, e que sons, quando outro os emite, o acalmam ou o enfurecem.
Você pode supor ainda que, depois de cuidar dele continuamente até ficar perito em tudo isso, ele chama esse conhecimento de sabedoria, faz dele um sistema ou arte e passa a ensiná-lo. Só que ele não tem ideia real do que quer dizer com os princípios ou paixões de que fala, mas chama isto de honroso e aquilo de vergonhoso, isto de bom e aquilo de mau, isto de justo e aquilo de injusto, tudo conforme os gostos e humores da grande fera.
Ele declara bom aquilo que agrada à fera, e mau aquilo que ela detesta. E não sabe dar nenhuma outra explicação além de chamar de justo e nobre aquilo que é necessário, sem nunca ter visto, e sem poder explicar aos outros, a natureza de cada um, ou a diferença entre eles, que é imensa. Por Zeus, um homem desses não seria um belo educador? Seria mesmo.
E em que difere desse homem aquele que pensa que a sabedoria é entender os humores e gostos da multidão variada, seja na pintura, na música ou na política? Pois quando alguém convive com a maioria e exibe a eles seu poema, ou outra obra de arte, ou o serviço que prestou à cidade, fazendo deles seus juízes sem necessidade, a chamada necessidade de Diomedes vai obrigá-lo a produzir tudo o que eles elogiam.
E as razões que eles dão pra confirmar suas noções sobre o honroso e o bom são totalmente ridículas. Você já ouviu alguma delas que não fosse? Não, nem é provável que eu venha a ouvir.
Você reconhece a verdade do que venho dizendo? Então deixe eu pedir que você considere outra coisa: o mundo algum dia será levado a acreditar na existência da beleza absoluta, em vez das muitas coisas belas? Ou no absoluto de cada tipo, em vez dos muitos de cada tipo? De jeito nenhum.
Então o mundo não pode de modo algum ser filósofo? Impossível. E por isso os filósofos hão de cair inevitavelmente sob a censura do mundo? Hão de cair. E sob a censura dos indivíduos que convivem com a turba e procuram agradá-la? Isso é evidente.
Então você vê algum jeito de o filósofo ser preservado em sua vocação até o fim? Lembre o que dizíamos dele: que devia ter agilidade, memória, coragem e grandeza de espírito. Admitimos que esses eram os dons do verdadeiro filósofo. Sim.
Um homem assim não será, desde a infância, o primeiro entre todos em tudo, especialmente se seus dotes físicos forem como os mentais? Sem dúvida, ele disse. E seus amigos e concidadãos vão querer usá-lo, à medida que ele cresce, pros próprios fins deles? Sem questão.
Caindo aos pés dele, vão lhe fazer pedidos, prestar honras e lisonjeá-lo, porque querem agarrar desde já o poder que ele um dia vai ter. Isso acontece com frequência, ele disse.
E o que um homem desses provavelmente fará nessas circunstâncias, especialmente se for cidadão de uma grande cidade, rico e nobre, um jovem alto e bem-apessoado? Não ficará cheio de aspirações sem limite, imaginando-se capaz de governar os assuntos dos gregos e dos bárbaros? E, com essas ideias na cabeça, não vai se inflar e se exaltar na plenitude de uma pompa vazia e de um orgulho insensato? Com certeza vai.
Agora, nesse estado de espírito, se alguém vier mansamente lhe dizer que ele é um tolo e precisa adquirir entendimento, o qual só se consegue trabalhando duro por ele, você acha que, em circunstâncias tão adversas, ele será facilmente levado a escutar? Longe disso.
E mesmo que haja alguém que, por bondade inata ou razoabilidade natural, tenha tido os olhos um pouco abertos e seja humilhado e cativado pela filosofia, como vão se comportar os amigos dele quando perceberem que provavelmente vão perder a vantagem que esperavam tirar da companhia dele? Não vão fazer e dizer qualquer coisa pra impedi-lo de ceder à sua natureza melhor, e pra deixar o mestre dele sem poder, usando pra isso intrigas privadas e processos públicos? Não há dúvida disso.
E como pode alguém em tais circunstâncias se tornar filósofo? Impossível. Então não estávamos certos ao dizer que até as próprias qualidades que fazem de um homem um filósofo podem, se ele for mal-educado, desviá-lo da filosofia, tanto quanto a riqueza e o que vem com ela e os outros chamados bens da vida? Estávamos totalmente certos.