Capítulos

Sócrates ensinando dois jovens atenienses

A República - Livro IV

As quatro virtudes na cidade e a descoberta das três partes da alma, onde mora a justiça

Sobre a obra

A República é um diálogo de Platão (c. 428 a 348 a.C.), filósofo ateniense discípulo de Sócrates. A obra investiga o que é a justiça e desenha uma cidade ideal como modelo. A maioria dos estudiosos data a composição entre cerca de 380 e 370 a.C., na maturidade de Platão.

A obra completa tem dez livros. Este é o Livro IV, ponto de chegada da primeira grande etapa do argumento. Aqui Sócrates finalmente encontra a justiça, primeiro na cidade e depois na alma.

O que este livro discute

Adimanto objeta que os guardiões, sem propriedade e sem luxo, não seriam felizes. Sócrates responde que o objetivo não é a felicidade de uma classe, mas a felicidade da cidade inteira, em que cada parte cumpre sua função. A partir daí ele procura na cidade as quatro virtudes: a sabedoria, que reside nos governantes; a coragem, nos auxiliares; a temperança, como acordo entre quem governa e quem é governado; e, por fim, a justiça.

A justiça aparece como o princípio que torna possíveis as outras três: cada classe faz o seu próprio trabalho, sem invadir o das demais. Sócrates então transfere o esquema da cidade para o indivíduo e descobre as três partes da alma: a parte racional, que calcula e delibera; a parte irascível, o ânimo, que se indigna e busca a honra; e a parte apetitiva, sede dos desejos por comida, bebida e prazer.

A justiça no indivíduo é o mesmo que na cidade. Cada parte cumpre sua função, a razão governa, o ânimo a serve, e os apetites obedecem. A justiça deixa de ser uma questão de conduta externa e passa a ser uma ordem interior, uma harmonia entre as partes da alma. O homem justo, conclui Sócrates, é senhor de si mesmo e está em paz consigo.

Mas na realidade a justiça era como descrevíamos, só que não diz respeito ao homem exterior, e sim ao interior, que é o verdadeiro eu e o que realmente importa para o homem. Ele põe em ordem a sua própria vida interior, é o seu próprio senhor e a sua própria lei, e está em paz consigo mesmo.

Platão, A República, Livro IV

Relevância para a fé cristã

O Livro IV é uma das fontes mais influentes da teologia moral cristã. As quatro virtudes que Sócrates identifica, prudência ou sabedoria, justiça, fortaleza ou coragem, e temperança, tornaram-se as quatro virtudes cardeais. Pela mediação de Cícero, elas entram no cristianismo com Ambrósio de Milão, que as adapta no De Officiis, e com Agostinho, que as redefine como formas do amor a Deus.

A temperança é o amor que se conserva inteiro para Deus; a fortaleza, o amor que tudo suporta por Deus; a justiça, o amor que só serve a Deus; e a prudência, o amor que discerne o que ajuda do que atrapalha na busca de Deus.

Agostinho, Dos Costumes da Igreja Católica

Tomás de Aquino sistematiza as quatro virtudes cardeais na Suma Teológica e as articula com as três virtudes teologais, fé, esperança e caridade, que vêm da graça e não da razão natural. Sete virtudes ao todo, quatro herdadas dos gregos e três da revelação. A doutrina platônica da alma com várias partes e da justiça como ordem interior também influenciou a psicologia moral cristã, que descreve a vida virtuosa como o governo da razão sobre as paixões e os apetites.

Cabe a ressalva honesta. Platão é anterior ao cristianismo e escreve num contexto pagão. Em sua obra, a virtude é fruto da razão natural e da boa educação, sem graça nem revelação. Não há pecado original, conversão, nem auxílio divino: o homem se ordena por seu próprio esforço. A teologia cristã absorveu o esquema das virtudes, mas o subordinou à graça e à caridade, sustentando que as virtudes naturais, sozinhas, não bastam para salvar. A convergência está na análise das virtudes e da alma, não na antropologia de Platão como um todo.

Para a descoberta das quatro virtudes na cidade, ver:

(A República - Livro IV 3:5)

Para a justiça como ordem interior da alma, ver:

(A República - Livro IV 5:26)