Capítulos

Sócrates ensinando dois jovens atenienses

A República - Livro I

A justiça posta em questão: Céfalo, Polemarco e o desafio de Trasímaco de que a justiça é o interesse do mais forte

Sobre a obra

A República é um diálogo de Platão (c. 428 a 348 a.C.), filósofo ateniense discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles. A obra investiga o que é a justiça e como seria uma cidade justa. A maior parte dos estudiosos data a composição entre cerca de 380 e 370 a.C., no período de maturidade de Platão, embora a janela exata seja debatida.

A obra completa tem dez livros. Este é o Livro I, que funciona como abertura: apresenta os interlocutores e levanta a pergunta central sem respondê-la. Platão escreve na voz de Sócrates, em primeira pessoa, narrando a conversa.

O que este livro discute

A cena começa no Pireu, o porto de Atenas, depois de uma festa religiosa. Sócrates é convidado à casa de Polemarco. Ali conversa primeiro com Céfalo, um homem idoso e rico, sobre a velhice e o uso da riqueza. Céfalo sugere que a justiça consiste em dizer a verdade e pagar o que se deve.

Polemarco assume o argumento e o reformula apoiado no poeta Simônides: a justiça seria dar a cada um o que lhe é devido, isto é, beneficiar os amigos e prejudicar os inimigos. Sócrates mostra que prejudicar alguém piora essa pessoa, e que não pode ser próprio do justo tornar outros piores.

Entra então Trasímaco, um sofista, com a tese mais dura: a justiça é apenas o interesse do mais forte, aquilo que os governantes definem como lei em proveito próprio. Sócrates contesta ponto a ponto e argumenta que o injusto não vive melhor que o justo. O Livro I termina de forma aporética: Sócrates reconhece que não chegaram a definir o que é a justiça. Essa pergunta em aberto move os nove livros seguintes.

Relevância para a fé cristã

A pergunta que organiza este livro, vale a pena ser justo, e a variante que aparece logo adiante, é melhor ser justo de fato ou apenas parecer justo, atravessou séculos de reflexão moral cristã. Pensadores cristãos retomaram o tema da justiça e da cidade ao discutir a vida virtuosa e a ordem da sociedade.

O caso mais conhecido é Agostinho de Hipona. Sua obra A Cidade de Deus dialoga diretamente com a tradição de Platão e de Cícero sobre a república justa, deslocando a discussão da cidade terrena para a cidade de Deus. Agostinho elogia os platônicos por terem reconhecido um Deus imutável e fonte de todo ser, embora os corrija onde divergem da revelação.

Temos de Deus uma casa não feita por mãos humanas, eterna nos céus.

Agostinho, A Cidade de Deus

A herança de método também é relevante. A ironia socrática e o diálogo por pergunta e resposta, visíveis na forma como Sócrates desmonta Polemarco e Trasímaco, foram absorvidos pela disputatio escolástica medieval, o formato de objeções e respostas usado por autores como Tomás de Aquino.

É preciso ressalva honesta: Platão é pré-cristão e pagão. Não há aqui referência à revelação, nem ao Deus único de Israel, nem a criação a partir do nada. A justiça discutida no Livro I é uma virtude humana e política, buscada pela razão; o cristianismo posterior a leu de modo seletivo, aproveitando perguntas e descartando o que contradiz a fé. A própria República não é manual de moral cristã, e nem todas as suas propostas, mais à frente, são compatíveis com ela.

Para a passagem de abertura no Pireu, ver:

(A República - Livro I 1:1)