A Origem das Espécies - Capítulo IX: Hibridismo 3
Hibridismo
Origin and Causes of the Sterility of first Crosses and of Hybrids
Em certo momento me pareceu provável, como pareceu a outros, que a esterilidade dos primeiros cruzamentos e dos híbridos pudesse ter sido adquirida lentamente, pela seleção natural de graus ligeiramente menores de fertilidade que, como qualquer outra variação, surgissem espontaneamente em certos indivíduos de uma variedade quando cruzados com os de outra variedade. Pois seria claramente vantajoso para duas variedades, ou espécies incipientes, que elas pudessem ser impedidas de se misturar, pelo mesmo princípio segundo o qual, quando o homem está selecionando duas variedades ao mesmo tempo, é preciso que ele as mantenha separadas. Em primeiro lugar, vale notar que espécies que habitam regiões distintas costumam ser estéreis quando cruzadas. Ora, não poderia ter havido vantagem alguma em tornar mutuamente estéreis espécies assim separadas, e portanto isso não poderia ter sido produzido pela seleção natural. Mas talvez se possa argumentar que, se uma espécie se tornasse estéril com algum conterrâneo, a esterilidade com outras espécies viria como consequência necessária. Em segundo lugar, é quase tão contrário à teoria da seleção natural quanto à da criação especial o fato de que, em cruzamentos recíprocos, o elemento masculino de uma forma se torne totalmente incapaz de fecundar uma segunda forma, ao passo que o elemento masculino dessa segunda forma fecunda livremente a primeira. Pois esse estado peculiar do sistema reprodutivo dificilmente poderia ter sido vantajoso para qualquer das espécies.
Ao considerar a probabilidade de a seleção natural ter entrado em ação para tornar as espécies mutuamente estéreis, a maior dificuldade está na existência de muitos passos graduais, da fertilidade ligeiramente reduzida até a esterilidade absoluta. Pode-se admitir que traria proveito a uma espécie incipiente ser tornada estéril em algum grau leve quando cruzada com sua forma parental ou com alguma outra variedade, pois assim se produziriam menos descendentes bastardos e degenerados a misturar seu sangue com a nova espécie em processo de formação. Mas quem se der ao trabalho de refletir sobre os passos pelos quais esse primeiro grau de esterilidade poderia ser aumentado, pela seleção natural, até aquele grau elevado que é comum em tantas espécies, e que é universal nas espécies diferenciadas a ponto de constituírem um gênero ou uma família, achará o assunto extraordinariamente complexo. Depois de refletir com calma, parece-me que isso não poderia ter sido produzido pela seleção natural. Tome o caso de duas espécies quaisquer que, quando cruzadas, produzem descendentes poucos e estéreis. Pois bem, o que haveria que favorecesse a sobrevivência dos indivíduos que por acaso tivessem um grau ligeiramente maior de infertilidade mútua, e que assim se aproximassem um pequeno passo da esterilidade absoluta? No entanto, um avanço desse tipo, se aplicamos a teoria da seleção natural, teria de ter ocorrido incessantemente em muitas espécies, pois uma infinidade delas é mutuamente estéril. No caso dos insetos neutros estéreis, temos motivo para crer que modificações em sua estrutura e fertilidade foram acumuladas lentamente pela seleção natural, porque assim se deu indiretamente uma vantagem à comunidade a que pertenciam sobre outras comunidades da mesma espécie. Mas um animal individual que não pertence a uma comunidade social, se tornado ligeiramente estéril quando cruzado com alguma outra variedade, não ganharia com isso vantagem alguma para si, nem daria indiretamente qualquer vantagem aos outros indivíduos da mesma variedade que levasse à preservação deles.
Mas seria supérfluo discutir essa questão em detalhe, pois nas plantas temos evidência conclusiva de que a esterilidade das espécies cruzadas se deve a algum princípio inteiramente independente da seleção natural. Tanto Gärtner quanto Kölreuter provaram que, em gêneros que incluem numerosas espécies, é possível formar uma série que vai de espécies que, quando cruzadas, rendem cada vez menos sementes, até espécies que nunca produzem uma única semente, mas ainda assim são afetadas pelo pólen de certas outras espécies, pois o ovário incha. Aqui é manifestamente impossível selecionar os indivíduos mais estéreis, que já deixaram de render sementes. Assim, esse auge da esterilidade, em que só o ovário é afetado, não pode ter sido obtido por seleção. E como as leis que regem os vários graus de esterilidade são tão uniformes em todo o reino animal e vegetal, podemos inferir que a causa, seja ela qual for, é a mesma, ou quase a mesma, em todos os casos.
Vamos agora examinar um pouco mais de perto a provável natureza das diferenças entre espécies que induzem esterilidade nos primeiros cruzamentos e nos híbridos. No caso dos primeiros cruzamentos, a maior ou menor dificuldade de realizar a união e de obter descendentes depende, ao que tudo indica, de várias causas distintas. Às vezes deve haver uma impossibilidade física de o elemento masculino alcançar o óvulo, como ocorreria com uma planta cujo pistilo fosse longo demais para que os tubos polínicos chegassem ao ovário. Também se observou que, quando o pólen de uma espécie é depositado no estigma de uma espécie aparentada à distância, embora os tubos polínicos se projetem, eles não penetram a superfície do estigma. Em outros casos, o elemento masculino pode alcançar o elemento feminino, mas ser incapaz de provocar o desenvolvimento de um embrião, como parece ter ocorrido em alguns dos experimentos de Thuret com Fuci. Não se pode dar explicação desses fatos, assim como não se pode explicar por que certas árvores não podem ser enxertadas em outras. Por fim, um embrião pode se desenvolver e então perecer cedo. Essa última alternativa não recebeu atenção suficiente. Mas creio, a partir de observações que me foram comunicadas pelo Sr. Hewitt, que tem grande experiência em hibridizar faisões e galos, que a morte precoce do embrião é causa muito frequente de esterilidade nos primeiros cruzamentos. O Sr. Salter apresentou recentemente os resultados do exame de cerca de 500 ovos produzidos por vários cruzamentos entre três espécies de Gallus e seus híbridos. A maioria desses ovos havia sido fecundada, e na maioria dos ovos fecundados os embriões ou se haviam desenvolvido em parte e então perecido, ou tinham chegado quase à maturidade, mas os filhotes não conseguiram romper a casca. Dos pintos que nasceram, mais de quatro quintos morreram nos primeiros dias, ou no máximo nas primeiras semanas, "sem causa aparente, ao que parece por mera incapacidade de viver". De modo que, dos 500 ovos, apenas doze pintos foram criados. Nas plantas, os embriões hibridizados provavelmente perecem muitas vezes de modo semelhante. Sabe-se ao menos que híbridos obtidos de espécies muito distintas são por vezes fracos e atrofiados, e perecem em idade precoce, fato do qual Max Wichura apresentou recentemente casos notáveis com salgueiros híbridos. Vale notar aqui que, em alguns casos de partenogênese, os embriões dentro dos ovos de bichos-da-seda que não haviam sido fecundados passam por seus estágios iniciais de desenvolvimento e então perecem, tal como os embriões produzidos por um cruzamento entre espécies distintas. Antes de conhecer esses fatos, eu relutava em crer na frequente morte precoce dos embriões híbridos, pois os híbridos, uma vez nascidos, costumam ser saudáveis e longevos, como vemos no caso da mula comum. Os híbridos, porém, estão em circunstâncias diferentes antes e depois do nascimento. Quando nascidos e vivendo num país onde vivem seus dois pais, costumam estar em condições de vida adequadas. Mas um híbrido participa de apenas metade da natureza e da constituição da mãe. Por isso, antes do nascimento, enquanto é nutrido dentro do ventre materno, ou dentro do ovo ou semente produzida pela mãe, pode ficar exposto a condições de algum modo inadequadas e, em consequência, sujeito a perecer cedo, ainda mais porque todos os seres muito jovens são extremamente sensíveis a condições de vida nocivas ou artificiais. Mas, no fim das contas, a causa está mais provavelmente em alguma imperfeição no próprio ato da fecundação, que faz o embrião se desenvolver de modo imperfeito, do que nas condições a que ele é exposto depois.
Quanto à esterilidade dos híbridos, em que os elementos sexuais se desenvolvem de modo imperfeito, o caso é um pouco diferente. Já aludi mais de uma vez a um amplo conjunto de fatos que mostram que, quando animais e plantas são retirados de suas condições naturais, ficam extremamente sujeitos a ter o sistema reprodutivo seriamente afetado. Esse é, de fato, o grande obstáculo à domesticação dos animais. Entre a esterilidade assim induzida e a dos híbridos há muitos pontos de semelhança. Em ambos os casos a esterilidade é independente da saúde geral, e muitas vezes vem acompanhada de excesso de tamanho ou grande exuberância. Em ambos os casos a esterilidade ocorre em vários graus. Em ambos, o elemento masculino é o mais sujeito a ser afetado, mas às vezes o feminino mais que o masculino. Em ambos, a tendência acompanha até certo ponto a afinidade sistemática, pois grupos inteiros de animais e plantas são tornados impotentes pelas mesmas condições artificiais, e grupos inteiros de espécies tendem a produzir híbridos estéreis. Por outro lado, uma espécie de um grupo às vezes resiste a grandes mudanças de condições sem perda de fertilidade, e certas espécies de um grupo produzem híbridos extraordinariamente férteis. Ninguém pode dizer, antes de tentar, se um animal qualquer vai se reproduzir em cativeiro, ou se uma planta exótica vai dar sementes livremente sob cultivo. Nem pode dizer, antes de tentar, se duas espécies quaisquer de um gênero vão produzir híbridos mais ou menos estéreis. Por fim, quando seres orgânicos são colocados durante várias gerações em condições que não lhes são naturais, ficam extremamente sujeitos a variar, o que parece dever-se em parte ao fato de seu sistema reprodutivo ter sido especialmente afetado, embora em grau menor do que quando sobrevém a esterilidade. O mesmo se dá com os híbridos, pois seus descendentes em gerações sucessivas são muito propensos a variar, como todo experimentador observou.
Vemos assim que, quando seres orgânicos são colocados sob condições novas e artificiais, e quando híbridos são produzidos pelo cruzamento artificial de duas espécies, o sistema reprodutivo, independentemente do estado geral de saúde, é afetado de maneira muito semelhante. Num caso, as condições de vida foram perturbadas, ainda que muitas vezes em grau tão leve que não conseguimos percebê-lo. No outro caso, o dos híbridos, as condições externas permaneceram as mesmas, mas a organização foi perturbada porque duas estruturas e constituições distintas, incluindo é claro os sistemas reprodutivos, foram fundidas em uma só. Pois dificilmente seria possível que duas organizações se combinassem em uma sem que ocorresse alguma perturbação no desenvolvimento, ou na ação periódica, ou nas relações mútuas das diferentes partes e órgãos entre si ou com as condições de vida. Quando os híbridos conseguem se reproduzir entre si, transmitem aos seus descendentes, de geração em geração, a mesma organização combinada, e por isso não devemos nos surpreender de que sua esterilidade, embora variável em algum grau, não diminua. Ela tende até a aumentar, o que costuma ser o resultado, como expliquei antes, de cruzamentos demasiado próximos entre parentes. Essa visão da esterilidade dos híbridos como causada pela combinação de duas constituições em uma foi defendida com vigor por Max Wichura.
É preciso reconhecer, no entanto, que não conseguimos entender, nem por essa visão nem por qualquer outra, vários fatos a respeito da esterilidade dos híbridos. Por exemplo, a fertilidade desigual dos híbridos produzidos por cruzamentos recíprocos, ou a esterilidade aumentada naqueles híbridos que ocasional e excepcionalmente se parecem muito com um dos pais puros. Tampouco pretendo que as observações acima cheguem à raiz da questão, pois não se oferece explicação de por que um organismo, quando colocado sob condições artificiais, é tornado estéril. Tudo o que tentei mostrar é que, em dois casos relacionados sob certos aspectos, a esterilidade é o resultado comum: num caso por terem sido perturbadas as condições de vida, no outro por ter sido perturbada a organização pela combinação de duas organizações em uma só.
Um paralelismo semelhante vale para uma classe de fatos relacionada, mas bem diferente. É uma crença antiga e quase universal, fundada num considerável corpo de evidência que apresentei em outro lugar, que pequenas mudanças nas condições de vida são benéficas a todos os seres vivos. Vemos isso aplicado por fazendeiros e jardineiros em suas frequentes trocas de sementes, tubérculos e afins, de um solo ou clima para outro, e de volta. Durante a convalescença dos animais, obtém-se grande benefício de quase qualquer mudança em seus hábitos de vida. Além disso, tanto em plantas quanto em animais, há a mais clara evidência de que um cruzamento entre indivíduos da mesma espécie que diferem até certo ponto dá vigor e fertilidade aos descendentes, e de que o cruzamento próximo continuado durante várias gerações entre os parentes mais chegados, se mantidos nas mesmas condições de vida, quase sempre leva a tamanho reduzido, fraqueza ou esterilidade.
Parece então que, por um lado, pequenas mudanças nas condições de vida beneficiam todos os seres orgânicos e, por outro lado, que cruzamentos leves, ou seja, cruzamentos entre machos e fêmeas da mesma espécie que foram submetidos a condições ligeiramente diferentes, ou que variaram um pouco, dão vigor e fertilidade aos descendentes. Mas, como vimos, seres orgânicos por muito tempo habituados a certas condições uniformes em estado natural, quando submetidos, como no cativeiro, a uma mudança considerável em suas condições, muito frequentemente são tornados mais ou menos estéreis. E sabemos que um cruzamento entre duas formas que se tornaram amplamente ou especificamente diferentes produz híbridos que são quase sempre estéreis em algum grau. Estou plenamente convencido de que esse duplo paralelismo não é de modo algum um acaso ou uma ilusão. Quem for capaz de explicar por que o elefante, e uma infinidade de outros animais, não conseguem se reproduzir quando mantidos sob cativeiro apenas parcial em seu país de origem, será capaz de explicar a causa primária de os híbridos serem em geral tão estéreis. Ao mesmo tempo, será capaz de explicar como é que as raças de alguns dos nossos animais domesticados, que muitas vezes foram submetidas a condições novas e não uniformes, são perfeitamente férteis entre si, embora descendam de espécies distintas que provavelmente teriam sido estéreis se cruzadas em estado original. As duas séries paralelas de fatos acima parecem ligadas por algum laço comum, mas desconhecido, que está essencialmente relacionado ao princípio da vida. Esse princípio, segundo o Sr. Herbert Spencer, é que a vida depende da, ou consiste na, incessante ação e reação de várias forças que, como em toda a natureza, tendem sempre para um equilíbrio. E quando essa tendência é ligeiramente perturbada por alguma mudança, as forças vitais ganham em potência.