A Origem das Espécies - Capítulo IX: Hibridismo 5

Hibridismo

Hybrids and Mongrels compared, independently of their fertility

Deixando de lado a questão da fertilidade, a prole de espécies e a de variedades, quando cruzadas, podem ser comparadas sob vários outros aspectos. Gärtner, que tinha o forte desejo de traçar uma linha nítida entre espécies e variedades, conseguiu encontrar pouquíssimas diferenças, e a meu ver bastante irrelevantes, entre a chamada prole híbrida das espécies e a chamada prole mestiça das variedades. Por outro lado, elas concordam de modo muito estreito em muitos aspectos importantes.
Vou tratar deste assunto com extrema brevidade. A distinção mais importante é que, na primeira geração, os mestiços são mais variáveis do que os híbridos. Mas Gärtner admite que os híbridos de espécies cultivadas muito tempo costumam ser variáveis na primeira geração, e eu mesmo vi exemplos marcantes desse fato. Gärtner admite ainda que os híbridos entre espécies muito próximas são mais variáveis do que os de espécies bem distintas, e isso mostra que a diferença no grau de variabilidade vai se atenuando aos poucos. Quando os mestiços e os híbridos mais férteis são propagados por várias gerações, é notório que a prole, nos dois casos, apresenta uma variabilidade extrema. Mas seria possível citar alguns poucos exemplos de híbridos e de mestiços que mantiveram por muito tempo um caráter uniforme. A variabilidade, contudo, nas gerações sucessivas de mestiços é talvez maior do que nos híbridos.
Essa maior variabilidade dos mestiços em relação aos híbridos não parece nem um pouco surpreendente. Pois os pais dos mestiços são variedades, e na maioria das vezes variedades domésticas (muito poucos experimentos foram feitos com variedades naturais), e isso implica que houve variabilidade recente, a qual muitas vezes continuaria e aumentaria aquela que surge do próprio ato de cruzar. A leve variabilidade dos híbridos na primeira geração, em contraste com a das gerações seguintes, é um fato curioso e merece atenção. Pois ela se relaciona com a explicação que adotei para uma das causas da variabilidade comum, a saber, que o sistema reprodutivo, por ser extremamente sensível a mudanças nas condições de vida, falha nessas circunstâncias em cumprir sua função própria de produzir prole muito parecida com a forma parental em todos os aspectos. Ora, os híbridos da primeira geração descendem de espécies (excluindo as cultivadas muito tempo) que não tiveram seus sistemas reprodutivos afetados de nenhum modo, e não são variáveis. Mas os próprios híbridos têm seus sistemas reprodutivos seriamente afetados, e seus descendentes são muito variáveis.
Mas voltando à nossa comparação entre mestiços e híbridos: Gärtner afirma que os mestiços têm mais tendência do que os híbridos a reverter a uma das formas parentais. Isso, porém, se for verdade, é com certeza apenas uma diferença de grau. Além disso, Gärtner afirma expressamente que os híbridos de plantas cultivadas muito tempo estão mais sujeitos à reversão do que os híbridos de espécies em seu estado natural, e isso provavelmente explica a singular diferença nos resultados a que chegaram observadores diferentes. Assim, Max Wichura duvida que os híbridos algum dia revertam às suas formas parentais, e ele experimentou com espécies não cultivadas de salgueiros, enquanto Naudin, ao contrário, insiste nos termos mais fortes na tendência quase universal à reversão nos híbridos, e ele experimentou principalmente com plantas cultivadas. Gärtner afirma ainda que, quando duas espécies, ainda que muito próximas entre si, são cruzadas com uma terceira espécie, os híbridos resultantes são bastante diferentes uns dos outros; ao passo que, se duas variedades muito distintas de uma mesma espécie são cruzadas com outra espécie, os híbridos não diferem muito. Mas essa conclusão, até onde consigo entender, baseia-se num único experimento, e parece diretamente oposta aos resultados de vários experimentos feitos por Kölreuter.
Essas são, sozinhas, as diferenças irrelevantes que Gärtner consegue apontar entre as plantas híbridas e as mestiças. Por outro lado, os graus e os tipos de semelhança dos mestiços e dos híbridos com seus respectivos pais, sobretudo nos híbridos produzidos a partir de espécies aparentadas de perto, seguem, segundo Gärtner, as mesmas leis. Quando duas espécies são cruzadas, uma delas tem às vezes um poder predominante de imprimir sua semelhança no híbrido. Creio que seja assim com as variedades de plantas, e que, com os animais, uma variedade certamente tem muitas vezes esse poder predominante sobre outra variedade. As plantas híbridas produzidas a partir de um cruzamento recíproco em geral se parecem muito entre si, e o mesmo acontece com as plantas mestiças de um cruzamento recíproco. Tanto os híbridos quanto os mestiços podem ser reduzidos a qualquer uma das formas parentais puras, por meio de cruzamentos repetidos em gerações sucessivas com um dos pais.
Essas várias observações aparentemente se aplicam aos animais, mas aqui o assunto é bem mais complicado, em parte por causa da existência de caracteres sexuais secundários, e sobretudo porque a predominância na transmissão da semelhança corre com mais força em um sexo do que no outro, tanto quando uma espécie é cruzada com outra quanto quando uma variedade é cruzada com outra variedade. Por exemplo, acho que têm razão os autores que sustentam que o asno tem um poder predominante sobre o cavalo, de modo que tanto o mulo quanto o bardoto se parecem mais com o asno do que com o cavalo; mas que essa predominância corre com mais força no asno macho do que na asna fêmea, de modo que o mulo, que é filho do asno macho com a égua, é mais parecido com um asno do que o bardoto, que é filho da asna fêmea com o garanhão.
Alguns autores deram muita ênfase ao suposto fato de que com os mestiços a prole deixa de ter caráter intermediário e se parece muito com um dos pais. Mas isso às vezes acontece também com os híbridos, embora eu reconheça que com muito menos frequência do que com os mestiços. Olhando para os casos que reuni de animais de cruzamento muito parecidos com um dos pais, as semelhanças parecem confinadas principalmente a caracteres de natureza quase monstruosa, e que apareceram de repente, como o albinismo, o melanismo, a falta de cauda ou de chifres, ou dedos adicionais nas mãos e nos pés; e não dizem respeito a caracteres adquiridos lentamente por meio da seleção. Uma tendência a reversões súbitas ao caráter perfeito de um dos pais também teria muito mais chance de ocorrer com os mestiços, que descendem de variedades muitas vezes produzidas de repente e de caráter semimonstruoso, do que com os híbridos, que descendem de espécies produzidas de modo lento e natural. No conjunto, concordo inteiramente com o Dr. Prosper Lucas, que, depois de organizar um enorme conjunto de fatos a respeito dos animais, chega à conclusão de que as leis da semelhança do filho com os pais são as mesmas, quer os dois pais difiram pouco ou muito entre si, ou seja, na união de indivíduos da mesma variedade, ou de variedades diferentes, ou de espécies distintas.
Deixando de lado a questão da fertilidade e da esterilidade, em todos os outros aspectos parece haver uma semelhança geral e estreita entre a prole de espécies cruzadas e a de variedades cruzadas. Se encararmos as espécies como tendo sido criadas de forma especial, e as variedades como tendo sido produzidas por leis secundárias, essa semelhança seria um fato espantoso. Mas ela harmoniza perfeitamente com a ideia de que não distinção essencial entre espécies e variedades.

Summary of Chapter

Os primeiros cruzamentos entre formas suficientemente distintas para serem classificadas como espécies, e os híbridos delas, são em geral estéreis, mas não universalmente. A esterilidade aparece em todos os graus, e muitas vezes é tão leve que os experimentadores mais cuidadosos chegaram a conclusões diametralmente opostas ao classificar as formas por esse critério. A esterilidade é variável de forma inata em indivíduos da mesma espécie, e é extremamente suscetível à ação de condições favoráveis e desfavoráveis. O grau de esterilidade não acompanha estritamente a afinidade sistemática, mas é regido por várias leis curiosas e complexas. Ela costuma ser diferente, e às vezes muito diferente, em cruzamentos recíprocos entre as mesmas duas espécies. Nem sempre tem o mesmo grau num primeiro cruzamento e nos híbridos produzidos por ele.
Assim como, ao enxertar árvores, a capacidade de uma espécie ou variedade de receber outra depende de diferenças, em geral de natureza desconhecida, em seus sistemas vegetativos, no cruzamento a maior ou menor facilidade de uma espécie de se unir a outra depende de diferenças desconhecidas em seus sistemas reprodutivos. Não mais razão para pensar que as espécies foram dotadas de modo especial de vários graus de esterilidade para impedir que se cruzem e se misturem na natureza, do que para pensar que as árvores foram dotadas de modo especial de vários graus, de certo modo análogos, de dificuldade de serem enxertadas umas nas outras a fim de impedir que se fundam por enxertia natural em nossas florestas.
A esterilidade dos primeiros cruzamentos e de sua descendência híbrida não foi adquirida por meio da seleção natural. No caso dos primeiros cruzamentos, ela parece depender de várias circunstâncias; em alguns casos, em grande parte, da morte precoce do embrião. No caso dos híbridos, ela aparentemente depende do fato de toda a sua organização ter sido perturbada por ser composta de duas formas distintas; essa esterilidade está intimamente ligada àquela que tantas vezes afeta as espécies puras quando expostas a condições de vida novas e não naturais. Quem explicar esses últimos casos será capaz de explicar a esterilidade dos híbridos. Essa ideia é fortemente sustentada por um paralelismo de outro tipo, a saber: primeiro, que pequenas mudanças nas condições de vida aumentam o vigor e a fertilidade de todos os seres orgânicos; e segundo, que o cruzamento de formas que estiveram expostas a condições de vida ligeiramente diferentes, ou que variaram, favorece o tamanho, o vigor e a fertilidade de sua prole. Os fatos apresentados sobre a esterilidade das uniões ilegítimas de plantas dimórficas e trimórficas e de sua descendência ilegítima talvez tornem provável que algum vínculo desconhecido conecte, em todos os casos, o grau de fertilidade das primeiras uniões com o de sua prole. A consideração desses fatos sobre o dimorfismo, assim como dos resultados dos cruzamentos recíprocos, leva claramente à conclusão de que a causa primária da esterilidade das espécies cruzadas se restringe a diferenças em seus elementos sexuais. Mas não sabemos por que, no caso de espécies distintas, os elementos sexuais teriam se tornado, em geral, mais ou menos modificados, levando à sua infertilidade mútua; isso parece, porém, ter alguma relação estreita com o fato de as espécies terem ficado expostas por longos períodos de tempo a condições de vida quase uniformes.
Não é de surpreender que a dificuldade em cruzar duas espécies quaisquer e a esterilidade de sua prole híbrida correspondam na maioria dos casos, mesmo que se devam a causas distintas, pois ambas dependem do grau de diferença entre as espécies cruzadas. Tampouco é de surpreender que a facilidade de realizar um primeiro cruzamento, a fertilidade dos híbridos assim produzidos e a capacidade de serem enxertados juntos, embora esta última capacidade dependa claramente de circunstâncias bem diferentes, corram todas, até certo ponto, em paralelo com a afinidade sistemática das formas submetidas ao experimento, pois a afinidade sistemática abrange semelhanças de todos os tipos.
Os primeiros cruzamentos entre formas que se sabe serem variedades, ou suficientemente parecidas para serem consideradas variedades, e sua prole mestiça, são em geral férteis, mas não invariavelmente, como tantas vezes se afirma. E essa fertilidade quase universal e perfeita não é surpreendente quando lembramos como é fácil cairmos num raciocínio circular a respeito das variedades em estado natural; e quando lembramos que a maior parte das variedades foi produzida sob domesticação pela seleção de meras diferenças externas, e que elas não ficaram expostas por muito tempo a condições de vida uniformes. Deve-se também ter especialmente em mente que a domesticação prolongada tende a eliminar a esterilidade, e por isso é pouco provável que induza essa mesma qualidade. Deixando de lado a questão da fertilidade, em todos os outros aspectos a mais estreita semelhança geral entre híbridos e mestiços, em sua variabilidade, em seu poder de absorver um ao outro por meio de cruzamentos repetidos, e na herança de caracteres das duas formas parentais. Por fim, então, embora sejamos tão ignorantes da causa exata da esterilidade dos primeiros cruzamentos e dos híbridos quanto somos a respeito de por que animais e plantas retirados de suas condições naturais se tornam estéreis, os fatos apresentados neste capítulo não me parecem opostos à crença de que as espécies existiram originalmente como variedades.