Capítulos
Tobias
Autoria e Data de Composição
O livro de Tobias não identifica seu autor. A narrativa é apresentada como memórias do próprio Tobias pai (caps. 1-3 em primeira pessoa) e depois passa para terceira pessoa, o que pode indicar compilação posterior de tradições distintas. A maioria dos estudiosos situa a composição original entre o século III e o início do século II a.C., possivelmente em Antioquia ou na diáspora oriental. Há quem proponha uma data anterior (séc. IV a.C.) e quem defenda redação tardia no período macabaico, mas não existe consenso fixo.
O gênero literário é debatido. A maior parte dos estudiosos classifica o livro como novela edificante ou conto de diáspora, semelhante às histórias de José (Gn 37-50) e de Ester: uma narrativa de ficção elaborada para transmitir ensinamentos sobre fidelidade à Lei, esmola, matrimônio endogâmico e providência divina. Alguns elementos (o anjo disfarçado, o demônio, a cura pelo peixe) aproximam o livro da literatura de sabedoria e do folclore do Antigo Oriente Próximo. A questão da historicidade literalmente entendida permanece aberta e não é o foco principal do texto.
Status Deuterocanônico
Tobias integra o cânon católico e o cânon de diversas igrejas ortodoxas, mas está ausente do cânon hebraico (Tanakh) e foi excluído do cânon protestante. Os livros deuterocanônicos chegaram ao Ocidente cristão principalmente pela Septuaginta (LXX), a tradução grega das Escrituras judaicas feita a partir do século III a.C. para uso das comunidades judaicas da diáspora, e adotada pelos cristãos desde os primeiros séculos.
O Concílio de Trento, em sua quarta sessão (4 de abril de 1546), definiu formalmente o cânon católico de 46 livros no Antigo Testamento, incluindo Tobias, mediante o decreto De Canonicis Scripturis. Esse decreto foi uma resposta à Reforma Protestante, que havia rejeitado os deuterocanônicos por não estarem no cânon hebraico rabínico fixado depois do século I d.C.
Manuscritos
Antes da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, Tobias era conhecido apenas em traduções gregas (Septuaginta) e secundárias (latina Vulgata, siríaca, etc.). As caves de Qumran revelaram cinco manuscritos semíticos do livro: quatro em aramaico e um em hebraico, todos fragmentários, encontrados na Caverna 4 e datados aproximadamente entre o século I a.C. e o início do século I d.C.
Essa descoberta confirmou que o livro provavelmente foi composto originalmente em aramaico (ou possivelmente em hebraico, com tradução aramaica muito antiga). Os fragmentos de Qumran tendem a alinhar-se com a versão mais longa do texto grego (Codex Sinaiticus), e não com a versão mais curta (Codex Vaticanus), o que tem influenciado as traduções modernas.
Conteúdo do Livro
- Apresentação de Tobias: israelita exilado na Assíria, fiel à Lei mesmo em terra estrangeira — (Tb 1:1)
- Tobias enterra os mortos israelitas, arriscando a própria vida — (Tb 1:16)
- Tobias fica cego após excrementos de pardal caírem em seus olhos — (Tb 2:9)
- Oração de Tobias em seu sofrimento; oração simultânea de Sara em Ecbátana — (Tb 3:1)
- Sara é afligida pelo demônio Asmodeu, que mata seus sete maridos na noite de núpcias — (Tb 3:7)
- Deus ouve as orações de Tobias e de Sara; envia o anjo Rafael — (Tb 3:16)
- Tobias pai instrui o filho antes da partida: esmola, justiça, matrimônio dentro do povo — (Tb 4:1)
- Rafael se apresenta disfarçado de parente Azarias e acompanha o jovem Tobias — (Tb 5:4)
- O peixe do rio Tigre: Tobias captura um peixe; Rafael instrui sobre coração, fígado e fel — (Tb 6:1)
- Rafael revela a Sara e seu direito de casamento; explica como expulsar o demônio com a fumaça do fígado e coração do peixe — (Tb 6:10)
- Chegada a Ecbátana; Tobias pede Sara em casamento a Raguel — (Tb 7:1)
- Na câmara nupcial, Tobias queima o fígado e o coração do peixe; Asmodeu foge; oração de ação de graças do casal — (Tb 8:1)
- Raguel dá graças por Sara ter sobrevivido; Rafael vai buscar o dinheiro de Gabael — (Tb 8:15)
- O jovem Tobias aplica o fel do peixe nos olhos do pai; Tobias pai recupera a visão — (Tb 11:7)
- Rafael revela sua identidade: "Eu sou Rafael, um dos sete anjos que assistem diante do Senhor" — (Tb 12:6)
- Hino de louvor de Tobias pai; profecia sobre Jerusalém restaurada — (Tb 13:1)
- Últimas instruções de Tobias pai; morte e sepultamento; Tobias filho se muda para Ecbátana — (Tb 14:1)
Tobias pai: cegueira e fidelidade
Sara e o demônio Asmodeu
A jornada de Tobias filho com Rafael
Casamento e cura
Revelação de Rafael e hino final
Paralelos e Fontes
Estudiosos identificam paralelos entre Tobias e a história de Aicar, um sábio assírio mencionado no próprio livro (Tb 1:21; 2:10; 11:17; 14:10), cujos ensinamentos de sabedoria provavelmente influenciaram o autor. O motivo do "companheiro de viagem disfarçado" tem paralelos no folclore do Antigo Oriente. A crença em anjos com nomes e funções específicas, como Rafael ("Deus cura"), é um desenvolvimento característico do judaísmo do Segundo Templo.