Capítulos

Tobias
Autoria e Data de Composição
O livro não identifica seu autor. A narrativa começa como memórias em primeira pessoa do próprio Tobias pai (Tobias 1:3 em diante) e depois passa para a terceira pessoa, o que sugere compilação de tradições distintas. A maioria dos estudiosos situa a composição entre o século III e o início do século II a.C., na diáspora oriental. Há quem proponha data anterior e quem defenda redação no período macabaico, mas não existe consenso fechado. Em todo caso, o texto é escrito séculos depois dos eventos assírios que pretende narrar.
O gênero é o ponto de partida para ler o livro com justiça. A maior parte dos estudiosos o classifica como novela edificante ou conto da diáspora, da mesma família narrativa de Judite e da história de José em Gênesis 37:1 e seguintes: uma ficção piedosa construída para tratar de como permanecer fiel à Lei, à esmola, ao sepultamento dos mortos e ao casamento dentro do povo quando se vive longe da terra e do Templo. O anjo disfarçado, o demônio que mata noivos e a cura pelas vísceras de um peixe aproximam a obra do folclore e da literatura sapiencial do Antigo Oriente, não de uma crônica testemunhal.
Historicidade e Anacronismos
Vários detalhes do livro entram em choque com a história documentada. Tobias é apresentado como deportado da tribo de Naftali sob Salmanasar (Tobias 1:2), mas o exílio da Galileia setentrional foi obra de Tiglate-Pileser III, por volta de 734 a.C. O texto faz Senaqueribe filho de Salmanasar (Tobias 1:15), quando o pai histórico de Senaqueribe foi Sargão II, que o livro sequer menciona. Mais adiante, atribui a queda de Nínive a Assuero e Nabucodonosor (Tobias 14:15), embora a cidade tenha caído em 612 a.C. diante de Ciáxares, o medo, e Nabopolassar, o babilônio.
A geografia segue o mesmo padrão. O texto trata Ragués e Ecbátana como vizinhas, separadas por uma viagem de poucos dias, quando as duas cidades medas distam cerca de 300 km em terreno montanhoso, e situa a topografia ao inverso do real. Para a leitura crítico-literária isso não diminui o livro, e sim confirma o gênero: nomes régios famosos funcionam como pano de fundo evocativo, como num conto popular. Para uma afirmação de inerrância histórica, porém, a tensão é real. Ou se reconhece que o autor nunca pretendeu cronologia, e os anacronismos deixam de ser erros, ou se insiste na literalidade, e eles permanecem como falhas factuais. A própria tradição que recebeu Tobias como canônico o leu por séculos com mais literalidade do que o gênero sustenta.
Anjos e Demônios do Segundo Templo
Tobias é uma das janelas mais nítidas para a angelologia organizada que se firma no judaísmo do Segundo Templo. Quando Rafael se apresenta como um dos sete anjos que assistem diante da glória do Senhor (Tobias 12:15), o céu já tem uma hierarquia nomeada que não aparece com essa nitidez na literatura pré-exílica. O mesmo motivo dos sete que estão diante de Deus reaparece em Apocalipse 8:2. O nome Rafael, que significa "Deus cura", está acoplado ao enredo: ele é quem cura a cegueira e liberta Sara.
O demônio Asmodeu é o caso mais discutido. O consenso filológico deriva o nome do avéstico aeshma-daeva, literalmente "demônio da ira", hipóstase zoroástrica da fúria, e a figura entra na tradição judaica durante e após o domínio aquemênida sobre a Judeia. Convém precisar o limite da inferência: o que é demonstravelmente iraniano é o nome, não a função, já que o Aeshma avéstico é a Ira abstrata, ao passo que o Asmodeu de Tobias ataca o leito nupcial por ciúme. Trata-se de empréstimo onomástico e ambiental, não de decalque teológico. Há ainda uma diferença metafísica: no esquema persa, fúria e desordem beiram forças cósmicas autônomas num dualismo de princípios rivais; em Tobias, Asmodeu é criatura derrotável, expulsa por meios prescritos pelo anjo de Deus e subordinada a um único Senhor soberano. O contorno cultural foi tomado emprestado; a metafísica dualista foi recusada. Onde a crítica vê religião importando e recombinando vocabulário, a leitura confessional vê uma forma cultural disponível posta a serviço de uma teologia própria. O paralelo não decide sozinho a direção da dependência.
Aicar e o Folclore
O livro se ancora numa figura que já era folclore ambulante antes dele. Aicar, o sábio que aparece como sobrinho de Tobit (Tobias 1:21; Tobias 14:10), não é invenção judaica: sua história, a do vizir traído por um sobrinho ingrato e depois reabilitado, está atestada em aramaico imperial nos papiros de Elefantina, da colônia militar judaica no Egito, em fragmentos de cerca de 450-410 a.C., anteriores à composição de Tobias. Quando o autor costura Aicar à sua narrativa, importa um personagem de circulação internacional e o enxerta numa genealogia israelita. O mesmo nome, aliás, ressurge transformado como Aquior, o amonita de Judite.
A textura folclórica não para aí. O enredo combina tipos catalogados pela folclorística: o "Morto Agradecido", em que quem custeia o sepultamento de um cadáver é depois socorrido pela alma do morto disfarçada de companheiro de viagem, função aqui de Rafael; a "Noiva Perigosa", a moça cujos noivos sucessivos morrem na noite de núpcias; e o motivo do peixe cujas vísceras têm poder. A questão decisiva é o que isso prova. Que um autor judeu do Segundo Templo reaproveitasse material sapiencial do Antigo Oriente não o diferencia do restante do cânon, e Tobias não copia Aicar, reorienta-o: subordina os mesmos motivos a uma teologia explícita de providência, esmola e fidelidade à Lei no exílio. Reconhecer o uso do folclore é descrição, não acusação de fraude; se a moldura de uma história edificante pode ou não ser veículo de verdade revelada é pergunta teológica que a evidência literária não decide.
Texto, Manuscritos e Cânon
Antes de Qumran, Tobias era conhecido sobretudo em grego (Septuaginta) e em versões secundárias (Vulgata, siríaca). A Caverna 4 revelou cinco manuscritos semíticos do livro, quatro em aramaico (4Q196-199) e um em hebraico (4Q200), todos fragmentários, datados aproximadamente entre o século I a.C. e o início do século I d.C. O achado encerrou uma discussão antiga: Tobias não nasceu em grego, mas num original semítico, provavelmente aramaico, do qual a própria cópia hebraica parece derivar. Os fragmentos apoiam de modo consistente a recensão longa do texto, preservada no Códice Sinaítico e na Vetus Latina, e não a recensão curta dos códices Vaticano e Alexandrino que durante séculos serviu de base às edições. A existência de recensões divergentes reflete a história de transmissão de um livro traduzido e relido, e ao mesmo tempo permite hierarquizar as testemunhas pela proximidade do arquétipo.
A canonicidade expõe que o status escriturístico de Tobias foi decisão de comunidades, e não propriedade intrínseca do texto. Apesar de existir em hebraico e aramaico e de ser copiado em Qumran, o livro ficou de fora do cânon hebraico rabínico, e a Reforma protestante seguiu esse critério, relegando-o aos apócrifos. Católicos e ortodoxos o mantêm como deuterocanônico, recepção que remonta ao uso da Septuaginta na primeira Igreja e foi firmada pelo Concílio de Trento, em sua quarta sessão (1546), no decreto De Canonicis Scripturis, em resposta à exclusão protestante. A presença em Qumran prova circulação e prestígio, não canonicidade: um livro podia ser lido e copiado sem por isso ser tido por Escritura. Onde traçar a linha do cânon dependeu sempre de um juízo de cada comunidade de fé, não da antiguidade ou do idioma original do texto.
Conteúdo do Livro
Tobias pai: cegueira e fidelidade
- Apresentação de Tobias: israelita exilado na Assíria, fiel à Lei mesmo em terra estrangeira — (Tobias 1:1)
- Tobias enterra os mortos israelitas, arriscando a própria vida — (Tobias 1:16)
- Tobias fica cego após excrementos de pardal caírem em seus olhos — (Tobias 2:9)
- Oração de Tobias em seu sofrimento; oração simultânea de Sara em Ecbátana — (Tobias 3:1)
Sara e o demônio Asmodeu
- Sara é afligida pelo demônio Asmodeu, que mata seus sete maridos na noite de núpcias — (Tobias 3:7)
- Deus ouve as orações de Tobias e de Sara; envia o anjo Rafael — (Tobias 3:16)
A jornada de Tobias filho com Rafael
- Tobias pai instrui o filho antes da partida: esmola, justiça, matrimônio dentro do povo — (Tobias 4:1)
- Rafael se apresenta disfarçado de parente Azarias e acompanha o jovem Tobias — (Tobias 5:4)
- O peixe do rio Tigre: Tobias captura um peixe; Rafael instrui sobre coração, fígado e fel — (Tobias 6:1)
- Rafael revela a Sara e seu direito de casamento; explica como expulsar o demônio com a fumaça do fígado e coração do peixe — (Tobias 6:10)
Casamento e cura
- Chegada a Ecbátana; Tobias pede Sara em casamento a Raguel — (Tobias 7:1)
- Na câmara nupcial, Tobias queima o fígado e o coração do peixe; Asmodeu foge; oração de ação de graças do casal — (Tobias 8:1)
- Raguel dá graças por Sara ter sobrevivido; Rafael vai buscar o dinheiro de Gabael — (Tobias 8:15)
- O jovem Tobias aplica o fel do peixe nos olhos do pai; Tobias pai recupera a visão — (Tobias 11:7)
Revelação de Rafael e hino final
- Rafael revela sua identidade: "Eu sou Rafael, um dos sete anjos que assistem diante do Senhor" — (Tobias 12:6)
- Hino de louvor de Tobias pai; profecia sobre Jerusalém restaurada — (Tobias 13:1)
- Últimas instruções de Tobias pai; morte e sepultamento; Tobias filho se muda para Ecbátana — (Tobias 14:1)
Tobias no Novo Testamento
A versão negativa da regra de ouro que Tobias pai ensina ao filho, "o que detestas, não o faças a ninguém" (Tobias 4:15), ecoa a formulação positiva de Jesus em Mateus 7:12, um princípio que circulava amplamente na literatura sapiencial judaica antes de ambos. A insistência do livro na esmola e no sepultamento dos mortos como obras de misericórdia também antecipa temas que reaparecem na ética do Novo Testamento.