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Salmos

Autoria, superscrições e datação

Os Salmos são uma coletânea de 150 poemas litúrgicos de autoria múltipla, reunidos ao longo de vários séculos. As superscrições hebraicas associam cerca de 73 salmos a Davi, além de atribuir composições a Asafe, aos filhos de Corá, a Salomão, a Etã, a Hemã e a Moisés (Sl 90); um número grande permanece anônimo. A própria preposição hebraica le nesses cabeçalhos (le-David) é ambígua: pode indicar autoria ("de"), dedicatória ("para"), tema ("a respeito de") ou simples pertencimento a uma coleção. Como Crônicas liga Asafe e os coraítas às guildas de cantores do Templo, boa parte da crítica entende muitas dessas etiquetas como indicação de repertório litúrgico, não de autoria pessoal. Os títulos também não são estáveis na tradição textual: a Septuaginta acrescenta atribuições davídicas ausentes do hebraico e inclui um salmo extra (o Sl 151), sinal de que continuavam fluidos séculos depois.

A composição se estende por um período longo. Núcleos antigos podem remontar à monarquia (do século 10 ao 8 a.C.), enquanto salmos que pressupõem o exílio babilônico (Sl 137) ou a destruição do Templo (Sl 74, 79) datam necessariamente de muito depois de Davi, no século 6 a.C. ou após. A forma final, costurada provavelmente no período do Segundo Templo, reflete portanto camadas que vão do pré-exílico ao pós-exílico. Quem defende a autoria davídica de toda a coleção e quem a vê como majoritariamente litúrgica e anônima divergem sobre o peso das superscrições, mas a presença de salmos abertamente exílicos torna a autoria única difícil de sustentar.

O Saltério está dividido em cinco livros (Sl 1-41, 42-72, 73-89, 90-106, 107-150), cada um fechado por uma doxologia com a mesma fórmula (bênção, nome divino, fórmula de eternidade e um duplo "amém"); o Sl 150 inteiro serve de doxologia ao conjunto. Esses fechos são costuras editoriais, e a divisão pentapartida, já reconhecida no Talmude babilônico, é lida por muitos como imitação deliberada dos cinco livros do Pentateuco, uma "Torá de oração". A nota de Sl 72:20 ("Findam aqui as orações de Davi") encerra uma coleção, ainda que salmos davídicos reapareçam depois dela (Sl 86, 101, 103, 138-145), sinal de que o redator dessa linha não controlava o Saltério inteiro como o temos. Coleções identificáveis circularam de forma independente antes de serem encaixadas no arranjo final: a davídica, os filhos de Corá (Sl 42, 44-49, 84-85, 87-88), Asafe (Sl 50, 73-83) e os cânticos de subida (Sl 120-134).

O bloco Sl 42-83, chamado Saltério Elohísta, oferece evidência limpa de edição humana sobre o texto: nele o termo genérico Elohim ("Deus") suplanta o nome próprio YHWH numa proporção esmagadora, ao contrário do resto do livro. O caso decisivo é o par quase idêntico Sl 14 e Sl 53: o mesmo poema aparece duas vezes, mas a versão dentro do bloco elohísta (53) troca sistematicamente YHWH por Elohim. A explicação mais econômica é que coleções distintas preservaram variantes do mesmo hino e o compilador manteve ambas, conservando as convenções escribais de cada fonte em vez de as uniformizar.

Há ainda outros sinais de reaproveitamento interno. O Sl 70 repete quase palavra por palavra o final do Sl 40; o Sl 108 é montado com pedaços dos Sl 57 e 60; o Sl 18 aparece em segunda versão em 2 Samuel 22. Nada disso decide quem escreveu o quê, mas mostra que o Saltério é uma antologia trabalhada por mãos sucessivas, não um caderno pessoal fechado de uma só vez.

Manuscritos e transmissão

Os Salmos são o livro mais representado nos Manuscritos do Mar Morto, com cerca de 37 manuscritos identificados nas cavernas. O mais importante deles é o 11QPsa (Rolo dos Salmos), descoberto na Caverna 11 e copiado por volta de 30 a 50 d.C. Esse rolo preserva cerca de 50 composições, das quais aproximadamente 40 são salmos do Texto Massorético; as demais são poemas ausentes do saltério padrão, entre eles o Sl 151 em hebraico. Se isso indica uma forma alternativa do saltério ainda em circulação no Segundo Templo (posição de James Sanders e Peter Flint) ou apenas uma coletânea litúrgica secundária ao lado de um saltério já fixado (posição de Shemaryahu Talmon e Menahem Haran) é ponto em disputa. O que os manuscritos mostram com clareza é que os Livros I a III variam bem menos que os Livros IV e V: a instabilidade se concentra na parte final da coleção, não no conjunto todo.

O livro chegou até nós também na versão grega da Septuaginta, que apresenta diferenças de numeração em relação ao Texto Massorético: os Salmos 9 e 10 hebraicos correspondem a um único Salmo 9 na LXX, gerando defasagem que persiste em Bíblias católicas e ortodoxas (o Sl 23 hebraico é o Sl 22 grego). A LXX ainda traz o Sl 151, ausente do hebraico massorético mas atestado em hebraico em Qumran. Em latim circularam duas traduções de Jerônimo, o Gallicanum (a partir do grego, usado na liturgia) e o iuxta Hebraeos (a partir do hebraico), o que explica divergências entre saltérios latinos antigos.

Conteúdo Principal

Livro I (Salmos 1-41): a coleção davídica antiga

O Senhor é o meu Pastor (Salmo 23)
  • O pórtico do Saltério: o caminho do justo e o caminho do ímpio(Sl 1:1)
  • O decreto real: "tu és meu Filho, eu hoje te gerei"(Sl 2:7)
  • A pequenez humana diante do céu: "que é o homem mortal?"(Sl 8:4)
  • O néscio que diz no coração que não há Deus(Sl 14:1)
  • Quem pode habitar no tabernáculo e no monte santo(Sl 15:1)
  • A alma que não é deixada no sepulcro, citada em Atos(Sl 16:10)
  • Os céus que declaram a glória de Deus(Sl 19:1)
  • O grito de abandono: "por que me desamparaste?"(Sl 22:1)
  • As vestes repartidas e a sorte lançada sobre a roupa(Sl 22:18)
  • O Senhor como pastor de quem nada faltará(Sl 23:1)
  • A terra e a sua plenitude pertencem ao Senhor(Sl 24:1)
  • O Senhor como luz e salvação de quem não teme(Sl 27:1)
  • Convite a experimentar: "provai, e vede que o Senhor é bom"(Sl 34:8)
  • A observação do velho que nunca viu o justo desamparado(Sl 37:25)
  • A vida medida a palmos diante de Deus(Sl 39:5)
  • O amigo íntimo que comia do pão e levantou o calcanhar(Sl 41:9)

Livro II (Salmos 42-72): coraítas, davídicos e o fecho das orações de Davi

Como o cervo anseia pelas correntes das águas (Salmo 42)
  • O cervo que brama pelas correntes das águas(Sl 42:1)
  • O trono eterno do rei, verso citado em Hebreus(Sl 45:6)
  • Deus como refúgio e socorro presente na angústia(Sl 46:1)
  • A esperança de ser remido do poder da sepultura(Sl 49:15)
  • Pedido de um coração puro e de um espírito reto(Sl 51:10)
  • A versão elohísta do salmo do néscio (paralela ao Sl 14)(Sl 53:1)
  • A traição de um igual, não de um inimigo declarado(Sl 55:12)
  • A sede de Deus em terra seca e cansada(Sl 63:1)
  • O que subiu ao alto e levou cativo o cativeiro(Sl 68:18)
  • O fel por mantimento e o vinagre na sede(Sl 69:21)
  • Oração pela justiça do rei e pelo filho do rei(Sl 72:1)

Livro III (Salmos 73-89): Asafe, a crise nacional e a promessa a Davi

Os músicos levitas de Asafe louvando a Deus
  • A virada do salmista ao entrar no santuário(Sl 73:17)
  • Fogo lançado no santuário e a morada derrubada até o chão(Sl 74:7)
  • O silêncio profético: "já não vemos os nossos sinais"(Sl 74:9)
  • O mestre que fala em parábola e enigmas da antiguidade(Sl 78:2)
  • Jerusalém reduzida a montões de pedras(Sl 79:1)
  • A sentença do concílio divino: "vós sois deuses"(Sl 82:6)
  • Um dia nos átrios vale mais do que mil fora deles(Sl 84:10)
  • Raabe, Babilônia, Filístia, Tiro e Etiópia inscritas em Sião(Sl 87:4)
  • O salmo que termina no escuro, com os conhecidos em trevas(Sl 88:18)
  • A queixa direta: o ungido rejeitado apesar da aliança(Sl 89:38)
  • A pergunta que fecha o Livro III: onde estão as antigas benignidades(Sl 89:49)

Livro IV (Salmos 90-106): o reinado de Deus depois da monarquia

À sombra das asas do Altíssimo (Salmo 91)
  • Setenta ou oitenta anos: a medida da vida humana(Sl 90:10)
  • O que habita no esconderijo do Altíssimo(Sl 91:1)
  • A proclamação de que o Senhor reina, vestido de majestade(Sl 93:1)
  • O povo do pasto e o apelo: "se hoje ouvirdes a sua voz"(Sl 95:7)
  • O cântico novo cantado por toda a terra(Sl 96:1)
  • Convite ao júbilo de todas as terras(Sl 100:1)
  • Oração do aflito: que o clamor chegue até Deus(Sl 102:1)
  • As transgressões afastadas como o oriente dista do ocidente(Sl 103:12)
  • A criação inteira lida como obra de sabedoria(Sl 104:24)
  • A aliança lembrada por mil gerações(Sl 105:8)
  • A confissão dura: filhos e filhas sacrificados aos demônios(Sl 106:37)

Livro V (Salmos 107-150): retorno, Torá e louvor final

Louvai-O com todos os instrumentos (Salmo 150)
  • Os que descem ao mar em navios e mercam nas grandes águas(Sl 107:23)
  • O convite a sentar-se à direita, texto mais citado no Novo Testamento(Sl 110:1)
  • Abertura do Hallel: louvai, servos do Senhor(Sl 113:1)
  • A saída do Egito de um povo de língua estranha(Sl 114:1)
  • A morte dos fiéis tida como preciosa aos olhos de Deus(Sl 116:15)
  • A pedra rejeitada pelos edificadores que vira cabeça de esquina(Sl 118:22)
  • A Torá como lâmpada e luz, no acróstico mais longo da Bíblia(Sl 119:105)
  • Os olhos levantados para os montes, de onde vem o socorro(Sl 121:1)
  • O retorno do cativeiro vivido como sonho(Sl 126:1)
  • Sem o Senhor, em vão trabalham os que edificam(Sl 127:1)
  • O clamor das profundezas(Sl 130:1)
  • A convivência dos irmãos em união(Sl 133:1)
  • A litania da benignidade que dura para sempre(Sl 136:1)
  • O choro junto aos rios da Babilônia(Sl 137:1)
  • O corpo formado no ventre materno(Sl 139:13)
  • O acróstico final atribuído a Davi, louvor ao Deus rei(Sl 145:1)
  • A advertência de não confiar em príncipes(Sl 146:3)
  • O louvor cósmico que convoca céus e alturas(Sl 148:1)
  • O verso que fecha o Saltério: tudo o que respira louve(Sl 150:6)

Os gêneros de Gunkel e o uso litúrgico

Hermann Gunkel mostrou que os Salmos não são efusões espontâneas, e sim composições que obedecem a convenções de gênero (Gattungen), com fórmulas de abertura, estruturas e vocabulário recorrentes. Os principais tipos são o hino de louvor, o lamento individual e o lamento comunitário, a ação de graças, o salmo de confiança, o salmo de sabedoria, o salmo histórico, o salmo real e os cânticos de subida (peregrinação, Sl 120-134). O lamento é o gênero mais frequente, o que contraria a imagem do saltério como coleção predominantemente festiva. Reconhecer os gêneros é observação literária verificável, hoje aceita até por comentaristas confessionais.

Gunkel ligou cada gênero a um Sitz im Leben, um contexto vivencial originalmente cultual, e seu discípulo Sigmund Mowinckel levou a hipótese adiante ao reconstruir uma "festa de entronização de YHWH" no Ano Novo, na qual mais de quarenta salmos (Sl 47, 93, 95-100) encenariam a vitória de Deus sobre o caos. Aqui o método se torna mais frágil que a observação dos gêneros: a tal festa não está atestada em nenhum texto bíblico nem em inscrição, sendo inferida por analogia com o akitu babilônico, e críticos apontam circularidade no raciocínio. A própria fórmula YHWH malak admite tanto "YHWH reina" (estado) quanto "YHWH tornou-se rei" (evento ritual), e a escolha decide a tese. Que os salmos nasceram e viveram no culto do Templo é claro pelos próprios títulos litúrgicos ("ao mestre de canto", "com instrumentos de cordas"); o que permanece em aberto é se a forma literária autoriza reconstruir o calendário cerimonial exato em que cada oração teria surgido.

Lamento individual: o gênero mais frequente

  • Adversários que se multiplicam ao redor do salmista(Sl 3:1)
  • Clamor ao Deus que já deu largueza na angústia(Sl 4:1)
  • Pedido de que Deus atenda à meditação de quem ora(Sl 5:1)
  • A pergunta repetida: "até quando esconderás de mim o teu rosto?"(Sl 13:1)
  • Oração que se declara feita sem lábios enganosos(Sl 17:1)
  • Apelo à Rocha para não descer ao abismo em silêncio(Sl 28:1)
  • Pedido de justiça contra o homem fraudulento e injusto(Sl 43:1)
  • Salvação pedida em nome de Deus e pelo seu poder(Sl 54:1)
  • Do fim da terra, o pedido de ser levado à rocha mais alta(Sl 61:2)
  • Vida guardada do temor do inimigo(Sl 64:1)
  • A urgência crua: "apressa-te, ó Deus, em me livrar"(Sl 70:1)
  • A oração de quem envelhece e pede para não ser confundido(Sl 71:1)
  • O necessitado e aflito que pede ouvidos inclinados(Sl 86:1)
  • Clamor da voz que se ergue e suplica ao Senhor(Sl 141:1)
  • Olhar para a direita e não achar quem o conheça(Sl 142:4)

Lamento comunitário: a nação que reclama

  • A geração que ouviu dos pais as obras dos tempos antigos(Sl 44:1)
  • Acusação direta: "tu nos rejeitaste, tu nos espalhaste"(Sl 60:1)
  • A voz que clama e busca lembrar os feitos antigos de Deus(Sl 77:1)
  • Israel como rebanho, pedido para que o pastor resplandeça(Sl 80:1)
  • A terra abençoada e o cativeiro de Jacó revertido(Sl 85:1)

Ação de graças e confiança

  • Louvor de todo o coração que conta as maravilhas de Deus(Sl 9:1)
  • Exaltação de quem foi levantado e não virou motivo de riso(Sl 30:1)
  • Confiança que pede livramento pela justiça de Deus(Sl 31:1)
  • A crítica cultual interna: sacrifício e oferta não foram pedidos(Sl 40:6)
  • Misericórdia pedida diante de quem procura devorar(Sl 56:1)
  • Abrigo à sombra das asas até que passem as calamidades(Sl 57:1)
  • A alma que espera somente em Deus(Sl 62:1)
  • Júbilo convocado em todas as terras(Sl 66:1)
  • Benignidade anunciada de manhã e fidelidade todas as noites(Sl 92:2)
  • O coração preparado para cantar, montado com trechos dos Sl 57 e 60(Sl 108:1)
  • Louvor cantado "na presença dos deuses"(Sl 138:1)

Hinos de louvor e bênção

  • Aos retos convém o louvor(Sl 33:1)
  • O louvor que espera em Sião e os votos pagos(Sl 65:1)
  • Eco da bênção sacerdotal: o rosto que resplandece sobre o povo(Sl 67:1)
  • Convocação festiva ao Deus de Jacó(Sl 81:1)
  • A glória atribuída ao nome de Deus, não ao povo(Sl 115:1)
  • O salmo mais curto da Bíblia, dirigido a todas as nações(Sl 117:1)
  • Louvor cantado pelos servos que estão na casa do Senhor(Sl 135:1)
  • O louvor chamado de decoroso e agradável(Sl 147:1)
  • Cântico novo entoado na congregação dos santos(Sl 149:1)

Sabedoria, Torá e acrósticos

  • As palavras do Senhor como prata purificada sete vezes(Sl 12:6)
  • Acróstico alfabético: a alma levantada ao Senhor(Sl 25:1)
  • O temor do Senhor apresentado como princípio da sabedoria(Sl 111:10)
  • Retrato do homem que se deleita nos mandamentos(Sl 112:1)
  • Abertura do longo acróstico da Torá(Sl 119:1)
  • Fecho inesperado: "desgarrei-me como a ovelha perdida"(Sl 119:176)

O justo, o ímpio e o juízo divino

  • Pedido de salvação diante dos perseguidores(Sl 7:1)
  • A queixa do silêncio de Deus nos tempos de angústia(Sl 10:1)
  • Recusa de fugir para o monte como pássaro(Sl 11:1)
  • Declaração de integridade submetida ao exame de Deus(Sl 26:1)
  • A transgressão do ímpio que não tem temor diante dos olhos(Sl 36:1)
  • Deus que convoca a terra e julga o culto meramente formal(Sl 50:1)
  • O poderoso que se gloria na própria malícia(Sl 52:1)
  • Louvor ao Deus cujo nome está perto, antes do anúncio do juízo(Sl 75:1)
  • O Deus a quem pertence a vingança(Sl 94:1)
  • O programa de governo de um rei que canta misericórdia e juízo(Sl 101:1)
  • Livramento pedido contra o homem violento(Sl 140:1)

Sião, o Templo e a cidade

  • Grandeza do Senhor na cidade e no monte santo(Sl 48:1)
  • Deus conhecido em Judá e com nome grande em Israel(Sl 76:1)
  • A saudade dos tabernáculos do Senhor dos Exércitos(Sl 84:1)
  • O fundamento da cidade posto nos montes santos(Sl 87:1)

Os sete salmos penitenciais da tradição cristã

  • Pedido de não ser repreendido na ira(Sl 6:1)
  • Bem-aventurança de quem tem a transgressão perdoada(Sl 32:1)
  • Segunda súplica com a mesma fórmula do Sl 6(Sl 38:1)
  • O pedido de apagar as transgressões, associado pela superscrição ao caso de Bate-Seba(Sl 51:1)
  • Oração do aflito, também lida como salmo do exílio(Sl 102:1)
  • O clamor das profundezas, o De profundis da liturgia latina(Sl 130:1)
  • Último dos sete: súplica pela fidelidade e justiça de Deus(Sl 143:1)

Salmos do reinado de YHWH

  • A subida de Deus ao som de trombeta(Sl 47:5)
  • O Senhor reina e as ilhas se alegram(Sl 97:1)
  • Cântico novo pelo braço que alcançou salvação(Sl 98:1)
  • O Senhor reina entre os querubins e os povos tremem(Sl 99:1)

Cânticos de subida (Salmos 120-134)

  • O peregrino que habita entre Meseque e as tendas de Quedar(Sl 120:5)
  • A alegria de quem é chamado para ir à casa do Senhor(Sl 122:1)
  • Olhos levantados ao que habita nos céus(Sl 123:1)
  • A fórmula de resposta coletiva: "ora diga Israel"(Sl 124:1)
  • Os que confiam comparados ao monte de Sião(Sl 125:1)
  • Bênção doméstica sobre quem teme ao Senhor(Sl 128:1)
  • A memória da opressão sofrida desde a mocidade do povo(Sl 129:1)
  • A alma serenada como criança desmamada(Sl 131:2)
  • O juramento dinástico: do fruto do teu ventre porei sobre o teu trono(Sl 132:11)
  • A bênção noturna dos que servem na casa do Senhor(Sl 134:1)

Paralelos com a poesia religiosa do Antigo Oriente

Vários salmos compartilham linguagem e imagens com a poesia religiosa dos vizinhos de Israel. O caso mais forte é o Sl 29: desde o estudo de H. L. Ginsberg (1935), corroborado pelas tábuas de Ugarit (séculos 14-13 a.C.), a crítica reconhece que a "voz de YHWH" que quebra os cedros, faz tremer o deserto e troveja sobre as muitas águas reproduz quase verso a verso a forma com que se descrevia Baal, o deus-tempestade cananeu. Os topônimos do salmo (Líbano, Siriom, o deserto de Cades) são do Levante, não da Judeia:

(Sl 29:5)

No Ciclo de Baal, a mesma teologia da tempestade aparece com o outro nome divino:

(Ciclo de Baal 4:103)

Há quem leia o Sl 29 como hino cananeu adaptado pela troca do nome Baal por YHWH, e quem o leia como polêmica deliberada que atribui ao Senhor os poderes antes dados a Baal; em ambos os casos, o salmo dialoga com a teologia tempestuária do seu mundo.

O Sl 104 partilha estrutura e sequência de imagens com o Grande Hino a Áton do faraó Aquenáton (século 14 a.C.): os animais que se recolhem ao anoitecer, o homem que sai para o trabalho ao amanhecer, a água como dádiva, o olhar universal sobre toda a criação. O paralelo se vê já na abertura do hino egípcio:

(Hino a Aton 1:1)

Aqui não há consenso: ninguém demonstrou dependência textual direta do texto de Amarna, suprimido pouco após Aquenáton, e a leitura mais cautelosa fala em comunhão de motivos dentro de um gênero difundido (o hino ao criador-sol), não em cópia. De toda forma, a linguagem com que Israel louvou seu Deus foi extraída do repertório poético da região. O Sl 82, por sua vez, encena um concílio divino em que Deus se levanta na assembleia e julga "no meio dos deuses", condenando-os a morrer como homens: um quadro com paralelo claro na assembleia de El em Ugarit, que o salmo reorienta esvaziando por dentro a categoria das divindades das nações.

Salmos imprecatórios

Alguns salmos pedem em termos crus a desgraça dos inimigos: o Sl 137 deseja que os pequeninos da Babilônia sejam despedaçados contra a rocha, e o Sl 109 que os filhos do adversário fiquem órfãos e seu nome seja apagado. O Sl 137 ancora-se com firmeza no exílio babilônico do século 6 a.C., e a lógica de retribuição que o move não é peculiar a Israel: maldições gráficas formulares aparecem nos tratados de vassalagem assírios e em inscrições mesopotâmicas, parte do repertório jurídico-religioso comum da região. Esses textos geram tensão dentro do próprio cânon que também contém "amai os vossos inimigos" (Mt 5:44). Boa parte da tradição cristã os tratou com desconforto litúrgico: alegorizou os inimigos como vícios, leu a maldição como lamento entregue a Deus, ou simplesmente cortou os versos do ofício, como fez a reforma litúrgica católica de 1971. Nesses salmos o suplicante deposita a vingança no tribunal divino em vez de a executar. Ainda assim, transformar a maldição em virtude e reduzi-la a defeito a ser apagado são duas imposições do leitor. O texto dá voz, sem rodeios, à dor e à sede de vingança de pessoas reais.

Onde a imprecação aparece

  • Pedido de que Deus peleje contra os que pelejam(Sl 35:1)
  • Imagem violenta: dentes quebrados na boca dos ímpios(Sl 58:6)
  • Ciladas armadas por fortes que se ajuntam sem causa(Sl 59:3)
  • Apelo para que Deus não se cale diante da coalizão das nações(Sl 83:1)
  • Verso citado em Atos sobre o ofício deixado vago(Sl 109:8)
  • O fecho brutal do salmo do exílio(Sl 137:9)

Salmos reais e a leitura messiânica

Os salmos reais (Sl 2, 18, 20, 21, 45, 72, 89, 110, 132, 144) são composições ligadas a momentos concretos da monarquia de Jerusalém: o Sl 2 é um salmo de entronização, o Sl 45 um cântico de núpcias reais, o Sl 72 uma oração pela justiça do reinado. A linguagem que soa divina ao leitor cristão, como "tu és meu Filho, eu hoje te gerei" (Sl 2:7), pertence ao repertório da ideologia régia do Antigo Oriente, em que o monarca era declarado filho adotivo da divindade no dia da coroação, com eco interno na fórmula dinástica de 2 Sm 7:14. O sentido primário desses salmos é político e cúltico, não escatológico.

Os salmos ligados ao trono

  • Cântico de vitória do rei, repetido em 2 Samuel 22(Sl 18:1)
  • A recusa de confiar em carros e cavalos(Sl 20:7)
  • A alegria do rei na força do Senhor(Sl 21:1)
  • O juramento sacerdotal segundo a ordem de Melquisedeque(Sl 110:4)
  • O Deus que ensina as mãos do rei para a peleja(Sl 144:1)

O Sl 110 é o caso paradigmático e o texto do Antigo Testamento mais citado no Novo (Mc 12:36, At 2:34-35, e toda a cristologia sacerdotal de Hebreus a partir do v. 4). No sentido histórico, o "meu senhor" convidado a sentar-se à direita de YHWH é o rei de Judá. Quem lê o uso cristão como apropriação criativa observa que o sentido messiânico foi produzido pela comunidade que releu o salmo depois do colapso da monarquia; quem o lê como trajetória interna nota que o salmo funde realeza e sacerdócio (separados na constituição de Judá) e que o Sl 110 já era lido messianicamente no judaísmo do Segundo Templo. O que a exegese do salmo, sozinha, não decide é se Jesus é aquele em quem a promessa se consuma; o que ela mostra é que a expectativa de uma figura real maior que qualquer monarca histórico já estava no texto.

O mesmo vale para o arranjo do Livro III: ele termina no Sl 89 com a aliança davídica em frangalhos e uma pergunta sem resposta. O Livro IV responde deslocando o foco do rei humano para o reinado direto de Deus (Sl 93, 95-99), e o Livro V fecha em louvor. Se esse desenho é intenção editorial ou leitura retrospectiva do intérprete moderno é discutido, mas o encadeamento está no texto que temos.

Recepção e uso posterior

Os Salmos são o livro do Antigo Testamento mais citado no Novo, com dezenas de referências diretas nos Evangelhos, em Atos, em Paulo e sobretudo em Hebreus. Na sinagoga, o Hallel (Sl 113-118) acompanha as grandes festas, e o saltério inteiro estrutura o ciclo de orações diárias. No cristianismo, o saltério é a espinha dorsal do Ofício Divino desde o monaquismo antigo: a Regra de São Bento (século 6) prescreve a recitação dos 150 salmos ao longo de uma semana. Foi também o primeiro livro impresso com data certa depois da Bíblia de Gutenberg, no Saltério de Mogúncia de 1457, e o primeiro livro impresso nas colônias inglesas da América, o Bay Psalm Book de 1640, ambos indícios de quanto o texto era usado no dia a dia religioso.