Capítulos

Mateus
Autoria e Data de Composição
O evangelho é anônimo dentro do texto, que fala de seu autor em terceira pessoa e nunca reivindica testemunho ocular. A atribuição a Mateus, o cobrador de impostos da própria narrativa, não vem do livro, mas de uma tradição posterior. O elo mais antigo é Pápias de Hierápolis (primeira metade do séc. II), preservado de segunda mão por Eusébio na História Eclesiástica (3.39.16), segundo quem "Mateus compilou os logia (os ditos) em língua hebraica, e cada um os interpretou como pôde". O problema é que essa descrição não bate com o evangelho que temos: o Mateus canônico é uma composição grega original, sem marcas sintáticas de tradução do hebraico ou aramaico, e depende literariamente do grego de Marcos. Por isso a maioria dos pesquisadores trata o texto como obra anônima de uma comunidade cristã de origem judaica, possivelmente em Antioquia da Síria. Quanto resta da memória apostólica de Mateus na obra que herdou seu nome é uma pergunta que a crítica textual sozinha não fecha.
A data de composição é situada pela maioria entre 80 e 90 d.C., depois de Marcos (em geral datado por volta de 70). O indício interno mais discutido é a parábola das bodas, em que o rei irado "envia os seus exércitos, destrói aqueles homicidas e incendeia a sua cidade", detalhe ausente do paralelo em Lucas e lido por boa parte dos estudiosos como reflexo, após o fato, da destruição de Jerusalém em 70 d.C. Defensores de datas anteriores respondem que o incêndio da cidade rebelde era lugar-comum retórico veterotestamentário e que o verso carece de detalhes específicos do cerco de Tito, de modo que, isolado, ele não fecha a questão. Somado à dependência de Marcos, ao grego refinado e ao horizonte de uma comunidade já em conflito aberto com a sinagoga ("as sinagogas deles", "até ao dia de hoje"), o peso recai sobre quem queira datar a obra antes de 70 e atribuí-la diretamente ao apóstolo.
Problema Sinótico e Hipótese das Duas Fontes
Mateus compartilha extenso material com Marcos e Lucas: os três são chamados de evangelhos sinóticos. O dado que organiza a discussão é mensurável: cerca de 90% das perícopes de Marcos reaparecem em Mateus, com frequência na mesma ordem e, em centenas de pontos, com concordância verbal em grego. A explicação dominante é a prioridade de Marcos: é mais econômico imaginar Mateus polindo o grego áspero de Marcos e suavizando passagens difíceis (onde Marcos diz que Jesus "não pôde fazer ali nenhum milagre", Mateus diz que "não fez ali muitos milagres") do que supor Marcos introduzindo deliberadamente essas asperezas num resumo.
A esse esqueleto narrativo a hipótese das duas fontes acrescenta Q (do alemão Quelle, "fonte"), uma coleção hipotética de ditos que explicaria os cerca de 230 versículos partilhados por Mateus e Lucas mas ausentes de Marcos (o Pai-Nosso, as bem-aventuranças, a pregação de João Batista). É honesto frisar que Q é uma inferência: nenhum manuscrito de Q jamais foi encontrado. O material exclusivo de Mateus é chamado de M. O modelo segue sendo majoritário, mas tem rivais sérios: a hipótese de Farrer-Goulder-Goodacre dispensa Q supondo que Lucas conhecia e usou Mateus diretamente, e a hipótese de Griesbach inverte a ordem, fazendo Marcos um epítome de Mateus e Lucas. O que todos têm em comum, e que importa mais que o vencedor, é tratar Mateus como obra literária que trabalha fontes escritas anteriores, e não como relato direto e autossuficiente. Que um evangelista use fontes não decide, por si, se o que ele compôs é verdadeiro: o próprio Lucas declara ter pesquisado tradições e relatos anteriores.
Caráter e Estrutura
Mateus é o mais judaico dos quatro evangelhos. Apresenta Jesus como o novo Moisés: assim como Moisés sobe ao Sinai, Jesus sobe ao monte para ensinar (o Sermão do Monte, em diante). O evangelista organiza o ensino em cinco grandes discursos, cada um fechado pela mesma fórmula de transição ("quando Jesus acabou de proferir estas palavras"), estrutura que muitos relacionam aos cinco livros da Torá. A genealogia de abertura ancora Jesus na linhagem de Abraão e Davi. Essa arquitetura é a impressão digital de um autor que seleciona e organiza material recebido com intenção teológica. Os evangelhos pertencem ao gênero greco-romano da biografia antiga, em que agrupar tematicamente ditos pronunciados em ocasiões diversas era prática editorial normal, não falsificação. A crítica redacional ilumina como o livro foi feito sem, por seus próprios métodos, decidir se o que ele narra aconteceu.
A Infância e o Cumprimento Profético
A narrativa da infância é costurada por fórmulas de cumprimento ("tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta"), das quais cinco se concentram nos dois primeiros capítulos. O caso de Isaías 7:14 é o mais discutido: o hebraico traz almah, "jovem em idade de casar", e tinha o termo betulah caso quisesse dizer inequivocamente "virgem". No contexto de Isaías, o sinal era de cumprimento iminente, no séc. VIII a.C., diante da ameaça siro-efraimita. Foi a Septuaginta, tradução grega judaica anterior ao cristianismo, que verteu almah por parthenos ("virgem"), e é dessa versão que Mateus depende. Disso não se conclui automaticamente nem a invenção do episódio nem sua historicidade: a evidência textual não decide se Mateus parte do oráculo para construir o fato ou parte de uma tradição do nascimento para reler o oráculo.
O material da fuga ao Egito tem paralelo tipológico denso com Moisés: um tirano que ordena a morte de meninos, uma criança que escapa, um retorno do Egito ("do Egito chamei o meu filho", que no original fala de Israel-nação, não de um indivíduo). O massacre dos inocentes, ligado a Jeremias 31:15, não tem atestação externa: nem Flávio Josefo, que detalha com avidez as crueldades de Herodes, nem Nicolau de Damasco, amigo do rei, o mencionam. O argumento do silêncio não refuta o episódio, sobretudo tratando-se de uma chacina pequena numa Belém de poucas centenas de habitantes. Mas a moldura tipológica é uma gramática de interpretação, não uma certidão de ficção nem de história: que o relato siga um padrão não prova, por si, que aconteceu ou que não aconteceu.
A comparação com Lucas torna o quadro mais agudo. As duas únicas narrativas de infância do Novo Testamento divergem em pontos materiais: em Mateus a família já reside em Belém e só vai a Nazaré depois, fugindo de Arquelau; em Lucas parte de Nazaré para Belém por causa de um censo e volta tranquila. Mateus tem magos, estrela e fuga ao Egito; Lucas tem pastores, manjedoura e apresentação no Templo, e as genealogias entre José e Davi diferem. Para a leitura de inerrância ditada, as divergências são do tipo que dois redatores humanos com agendas distintas cometeriam naturalmente. Em crítica de fontes, porém, uma convergência num núcleo (nascimento em Belém, lar em Nazaré, mãe chamada Maria, concepção tida por extraordinária) com periferias divergentes costuma indicar tradições parcialmente independentes em torno de um evento, não invenção unificada por uma só mão.
A Lei, o Judaísmo e a Polêmica
A tensão que define Mateus é sua impressão digital histórica. Por um lado é o mais judaico dos evangelhos: Jesus declara que não veio abolir a Lei e os Profetas, e que nem um "i" passará dela. Por outro, é o evangelho dos sete "ais" contra os fariseus e do clamor "o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos". Ler isso como hostilidade de um observador externo ao judaísmo é anacronismo. A reconstrução majoritária situa uma comunidade judaico-cristã que, após a catástrofe de 70, disputava de dentro a herança de Israel com a corrente que se consolidava como judaísmo rabínico. A virulência contra os fariseus segue o registro da invectiva profética interna a Israel (Amós contra os santuários, Isaías chamando o povo de Sodoma): é briga de família, e brigas de família são as mais ásperas. A própria contradição aparente entre "guardar a Lei" e "atacar os fariseus" pressupõe que fariseu seja sinônimo de Lei, justamente o ponto em disputa, já que Jesus reivindica a interpretação autêntica da Torá contra quem teria invertido suas prioridades.
Sobre o clamor do sangue, convém separar o que o texto fazia do que fizeram com ele. No horizonte do autor, a frase provavelmente se refere à geração específica ligada à destruição de Jerusalém, e não a um decreto de culpa hereditária sobre um povo por todos os séculos. A leitura como "maldição de sangue" deicida é recepção posterior, cristã e gentílica, que o texto não exige, e que o Concílio Vaticano II repudiou expressamente em 1965 (Nostra Aetate). Reconhecer a história de recepção venenosa do versículo, porém, é diferente de provar que o autor pretendeu veicular ódio: a intenção autoral não controla os efeitos históricos, e nenhuma exegese desfaz o fato de que o texto, depois de o cristianismo se tornar majoritariamente gentílico, alimentou séculos de perseguição.
Pedro, a Igreja e o Primado
Em Cesareia de Filipe, os três sinópticos trazem a confissão de Pedro ("tu és o Cristo"). Mas o bloco do "tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja" e a entrega das chaves aparece exclusivamente em Mateus, ausente de Marcos (a narrativa mais antiga) e de Lucas. A palavra ekklesia ("igreja") ocorre em todos os evangelhos só duas vezes, ambas em Mateus, vocabulário de uma comunidade já estruturada. Para muitos críticos, isso aponta material redacional mateano, a eclesiologia do autor ganhando forma narrativa, mais do que palavra do pregador galileu dos anos 30.
A disputa confessional sobre o referente da "pedra" segue viva. A leitura católica observa que o trocadilho Petros / petra funciona pleno em grego e que, no aramaico provável de Jesus, Kepha serviria às duas posições, apontando para a pessoa de Pedro. A exegese protestante clássica faz da rocha a confissão de fé do verso anterior, leitura gramaticalmente possível mas que precisa explicar por que o fluxo da frase liga o nome recém-dado à fundação. O próprio texto, porém, complica qualquer primado exclusivo: a fórmula de "ligar e desligar", dada a Pedro, é estendida a toda a comunidade. E o Pedro de Mateus é falível: repreendido como "Satanás" poucos versos adiante e que negaria a Jesus. O texto confia-lhe um papel fundante sem especificar sucessão, jurisdição ou cidade; a ponte entre esse Pedro e a estrutura de Roma é construída por séculos de desenvolvimento eclesial, lido pelo católico como desdobramento legítimo e pelo protestante como acréscimo.
A Comissão Trinitária
A Grande Comissão manda batizar "em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo", a única tríade batismal explícita nos evangelhos, que contrasta com a prática atestada em Atos e em Paulo, de batizar "em nome de Jesus". Aqui é preciso precisão contra exageros que circulam: a fórmula tríplice está presente em todos os manuscritos gregos sobreviventes, sem variante textual conhecida, e já circula no início do séc. II na Didaqué e em Justino, de modo que não há base manuscrita para declará-la interpolação. O que alimenta a suspeita é Eusébio, que em várias citações pré-nicenas dá a forma curta ("fazei discípulos em meu nome"), mas na mesma obra também cita a forma plena, o que torna mais provável o hábito de citação abreviada do que o testemunho de um texto perdido.
A conclusão prudente é dupla. A forma tríplice é o texto que de fato possuímos, antiquíssimo e bem atestado, e não um enxerto niceno: ela já era patrimônio da igreja gerações antes do concílio de 325. Ao mesmo tempo, seu descompasso com a prática batismal mais antiga ("em nome de Jesus") sugere que reflete a teologia e a liturgia já desenvolvidas da comunidade do autor, no fim do séc. I. Resta legitimamente em aberto se a tríade é registro literal de uma instrução pronunciada na Galileia ou cristalização litúrgica primitiva da mesma fé batismal, mas, em qualquer dos casos, ela não serve de prova de uma doutrina trinitária plenamente formulada desde o princípio.
Manuscritos
Os papiros mais antigos com fragmentos de Mateus datam dos séculos II e III d.C.: destacam-se o P1 (fragmento de mt1, séc. III), o P64 e o P67 (fragmentos de mt3; 5; 26, datados por alguns ao final do séc. II, embora a datação seja debatida). Os grandes códices completos, como o Sinaítico e o Vaticano (séc. IV), preservam Mateus de forma integral. O texto concorda substancialmente entre esses manuscritos, sem variantes da magnitude das encontradas no final de Marcos.
Conteúdo Principal
Nascimento e Infância de Jesus

- Genealogia de Jesus: de Abraão a Davi e ao cativeiro babilônico — (Mt 1:1)
- Anúncio do nascimento a José por anjo em sonho — (Mt 1:18)
- Visita dos magos do Oriente: estrela de Belém e adoração ao menino — (Mt 2:1)
- Fuga para o Egito e massacre dos inocentes por Herodes — (Mt 2:13)
- Batismo de Jesus por João no Jordão e voz do céu — (Mt 3:13)
- Tentações de Jesus no deserto pelo diabo por quarenta dias — (Mt 4:1)
Sermão do Monte e Ensinamentos

- As Bem-Aventuranças: abertura do Sermão do Monte — (Mt 5:1)
- Sal da terra e luz do mundo — (Mt 5:13)
- Jesus e a Lei: "Não vim abolir, mas cumprir" — (Mt 5:17)
- O Pai Nosso: oração modelo ensinada por Jesus — (Mt 6:9)
- A regra de ouro: "Tudo o que quereis que os homens vos façam..." — (Mt 7:12)
- Parábola das duas casas: o sábio que edifica sobre a rocha — (Mt 7:24)
Milagres e Missão dos Doze

- Cura do servo do centurião romano: fé fora de Israel — (Mt 8:5)
- Chamado de Mateus (o cobrador de impostos) ao seguimento — (Mt 9:9)
- Envio dos Doze Apóstolos: instrução e comissão missionária — (Mt 10:1)
- João Batista envia discípulos para perguntar: "És tu aquele que há de vir?" — (Mt 11:2)
- Conflito sobre o sábado: Jesus, Senhor do sábado — (Mt 12:1)
Parábolas do Reino

- Parábola do Semeador e explicação do uso de parábolas — (Mt 13:1)
- Parábola do Joio e do Trigo — (Mt 13:24)
- Parábolas do Tesouro Escondido e da Pérola Preciosa — (Mt 13:44)
Caminho a Jerusalém

- Multiplicação dos pães para cinco mil pessoas — (Mt 14:13)
- Confissão de Pedro: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" — (Mt 16:13)
- Transfiguração de Jesus diante de Pedro, Tiago e João — (Mt 17:1)
- Parábola do servo que não perdoa: sobre o perdão sem limite — (Mt 18:21)
- O jovem rico: dificuldade do rico de entrar no Reino — (Mt 19:16)
- O maior mandamento: amar a Deus e ao próximo — (Mt 22:34)
- Parábola do Juízo Final: as nações diante do Filho do Homem — (Mt 25:31)
Paixão, Morte e Ressurreição

- Última Ceia: instituição da Eucaristia — (Mt 26:17)
- Oração no Getsêmani e prisão de Jesus — (Mt 26:36)
- Julgamento diante de Pilatos, flagelação e crucificação — (Mt 27:11)
- Morte de Jesus: escuridão, véu rasgado e ressurreição de santos — (Mt 27:45)
- Mulheres encontram o túmulo vazio: anjo anuncia ressurreição — (Mt 28:1)
- Grande Comissão: "Ide e fazei discípulos de todas as nações" — (Mt 28:16)