Capítulos

Isaías
Autoria e Data de Composição
A tradição judaica e cristã atribui o livro inteiro a Isaías filho de Amós, profeta que atuou em Jerusalém durante os reinados de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias (aproximadamente 740–700 a.C.). Essa posição conservadora defende a unidade do livro e a autenticidade profética das passagens que mencionam Ciro pelo nome (Is 44:28; 45:1).
A partir do século XVIII, a crítica histórica propôs a divisão em ao menos dois autores distintos. O consenso acadêmico atual, amplamente majoritário, trabalha com três blocos:
- Proto-Isaías (caps. 1–39): oráculos atribuídos ao Isaías histórico do século VIII a.C., com contexto assírio e judeu pré-exílico.
- Deutero-Isaías (caps. 40–55): composição anônima datada do final do exílio babilônico, cerca de 550–540 a.C., com Ciro II da Pérsia já no horizonte histórico.
- Trito-Isaías (caps. 56–66): seção pós-exílica, possivelmente de discípulos da escola do Deutero-Isaías, datada do século V a.C., com preocupações sobre a comunidade restaurada.
A divisão é inferida a partir de diferenças de vocabulário, estilo, contexto histórico pressuponível e teologia. Não há evidência manuscrita direta de autores separados. Os defensores da unidade argumentam que a continuidade de temas, estruturas literárias e citações do Novo Testamento referindo-se ao livro como um todo sustentam a autoria única. Trata-se de um debate aberto, sem resolução consensual fora dos círculos acadêmicos.
Manuscritos
Grande Rolo de Isaías (1QIsaa): descoberto em 1947 nas cavernas de Qumran, datado entre 125–100 a.C., é o manuscrito bíblico mais completo encontrado no Mar Morto. Contém todos os 66 capítulos sem qualquer pausa estrutural entre os capítulos 39 e 40, o que os conservadores citam como evidência contra a teoria de múltiplos autores. Críticos respondem que a ausência de pausa física não prova autoria única.
Um segundo rolo parcial (1QIsab) e cerca de vinte fragmentos adicionais de Isaías foram encontrados em Qumran. O texto concorda substancialmente com o Texto Massorético medieval, confirmando a transmissão fiel ao longo de mais de mil anos.
Eventos e Temas do Livro
Chamado e Visão Inaugural

Oráculos contra as Nações e Judá (Proto-Isaías, caps. 1–39)

- Sinal do Emanuel dado ao rei Acaz — (Is 7:14)
- Oráculo do filho que nascerá: "Príncipe da Paz" — (Is 9:6)
- O ramo de Jessé e a era messiânica de justiça — (Is 11:1)
- Oráculo contra a Babilônia — (Is 13:1)
- Invasão assíria de Senaqueribe e libertação de Jerusalém — (Is 36:1)
- Visita da embaixada babilônica a Ezequias, anúncio do exílio — (Is 39:1)
Consolo e Novo Êxodo (Deutero-Isaías, caps. 40–55)

- "Consolai, consolai o meu povo": abertura da seção do consolo — (Is 40:1)
- Primeiro Cântico do Servo do Senhor — (Is 42:1)
- Ciro nomeado como instrumento de Deus para restaurar Jerusalém — (Is 44:28)
- Segundo Cântico do Servo — (Is 49:1)
- Quarto Cântico do Servo: o servo sofredor — (Is 52:13)
- Descrição detalhada do sofrimento vicário do Servo — (Is 53:1)
- Convite universal à salvação — (Is 55:1)
Restauração e Novo Povo (Trito-Isaías, caps. 56–66)

- Inclusão dos estrangeiros e eunucos na comunidade de Deus — (Is 56:1)
- Definição do jejum verdadeiro: soltar oprimidos, partilhar o pão — (Is 58:6)
- Unção do mensageiro para anunciar boas novas aos pobres (citado por Jesus em Lc 4:18) — (Is 61:1)
- Promessa dos novos céus e nova terra — (Is 65:17)
- Visão escatológica final: todas as nações verão a glória de Deus — (Is 66:22)
Paralelos e Citações
Isaías é o livro profético mais citado no Novo Testamento. Os Cânticos do Servo (especialmente Is 52–53) são interpretados na tradição cristã como referências ao sofrimento de Jesus. A menção de Ciro (Is 44:28) é verificável historicamente: Ciro II conquistou a Babilônia em 539 a.C. e permitiu o retorno dos exilados judeus, conforme registrado no Cilindro de Ciro. Isso não resolve o debate de datação, mas confirma que o texto tem ancoragem em eventos históricos reais.