O que a obra afirma ser
O Livro de Mórmon se apresenta como o registro sagrado de povos que teriam saído de Jerusalém por volta de 600 a.C., pouco antes da destruição da cidade pelos babilônios, e cruzado o oceano até o continente americano. A narrativa começa com um profeta chamado Leí e seu filho Néfi.
1 Eu, Néfi, tendo nascido de bons pais, recebi, portanto, alguma instrução em todo o conhecimento de meu pai; e tendo passado muitas aflições no decurso de meus dias, fui, não obstante, altamente favorecido pelo Senhor em todos os meus dias; sim, havendo adquirido um grande conhecimento da bondade e dos mistérios de Deus, faço, por isso, um registro de meus feitos durante minha vida.
2 Sim, faço um registro na língua de meu pai, que consiste no conhecimento dos judeus e na língua dos egípcios.
3 E sei que o registro que faço é verdadeiro; e faço-o com minhas próprias mãos e faço-o de acordo com o meu conhecimento.
O texto afirma ter sido escrito em uma escrita chamada egípcio reformado, gravada em placas de metal, porque o hebraico ocuparia espaço demais. Nenhuma inscrição desse tipo foi identificada por linguistas fora da tradição SUD, e o próprio livro afirma que a língua era conhecida apenas por aquele povo.
32 E agora, eis que escrevemos este registro de acordo com nosso conhecimento, em caracteres denominados por nós egípcio reformado, sendo transmitidos e alterados por nós segundo nossa maneira de falar.
33 E se nossas placas tivessem sido suficientemente grandes, teríamos escrito em hebraico; mas o hebraico também foi alterado por nós; e se tivéssemos escrito em hebraico, eis que nenhuma imperfeição encontraríeis em nosso registro.
34 Mas o Senhor sabe as coisas que escrevemos e também que nenhum outro povo conhece nossa língua; e porque nenhum outro povo conhece nossa língua, ele preparou, portanto, meios para a sua interpretação.
O clímax da obra é a visita de Jesus Cristo aos habitantes das Américas depois da ressurreição, com ensinos que retomam de perto o Sermão da Montanha. Essa cena é o motivo do subtítulo adotado em 1982: Outro Testamento de Jesus Cristo.
8 E aconteceu que, ao entenderem, voltaram outra vez os olhos para o céu; e eis que viram um Homem descendo do céu; e ele estava vestido com uma túnica branca; e ele desceu e colocou-se no meio deles; e os olhos de toda a multidão estavam voltados para ele e não se atreviam a abrir a boca, nem sequer uns para os outros; e não sabiam o que aquilo significava, porque supunham que era um anjo que lhes aparecera.
9 E aconteceu que ele estendeu a mão e falou ao povo, dizendo:
10 Eis que eu sou Jesus Cristo, cuja vinda ao mundo foi testificada pelos profetas.
As placas de ouro
Segundo o relato de Joseph Smith, um mensageiro chamado Morôni apareceu a ele em setembro de 1823 e o informou sobre um livro escrito em placas de ouro, escondido em um monte perto de sua casa, junto com duas pedras videntes chamadas Urim e Tumim.
34 Disse-me que havia um livro escondido, escrito em placas de ouro, que continha um relato dos antigos habitantes deste continente, assim como de sua origem e procedência. Disse também que o livro continha a plenitude do evangelho eterno, tal como fora entregue pelo Salvador aos antigos habitantes.
35 Disse também que havia duas pedras em aros de prata — e essas pedras, presas a um peitoral, constituíam o que é chamado Urim e Tumim — depositadas com as placas; e que a posse e o uso dessas pedras era o que constituía os “videntes” nos tempos antigos; e que Deus as tinha preparado para serem usadas na tradução do livro.
Smith afirma ter voltado ao mesmo local todo ano, sem poder levar o objeto, até receber as placas em 22 de setembro de 1827. Depois de concluída a tradução, ele declara tê-las devolvido ao mensageiro, o que significa que não há artefato disponível para exame.
59 Finalmente chegou a época de receber as placas, o Urim e Tumim e o peitoral. No dia vinte e dois de setembro de mil oitocentos e vinte e sete, tendo ido, como de costume, ao fim de mais um ano, ao local onde estavam depositados, o mesmo mensageiro celestial entregou-os a mim, com a advertência de que eu seria responsável por eles; que se eu os deixasse extraviar por algum descuido ou negligência, seria cortado; mas que se eu empregasse todos os esforços para preservá-los até que ele, o mensageiro, os reclamasse, eles seriam protegidos.
60 Logo verifiquei a razão de tão severas recomendações para que os guardasse em segurança, e por que o mensageiro dissera que quando eu tivesse realizado o que me fora ordenado, ele viria buscá-los. Pois tão logo se soube que estavam em meu poder, foram empregados os mais tenazes esforços para tirá-los de mim. Todos os estratagemas possíveis foram usados com esse propósito. A perseguição tornou-se mais amarga e severa que antes, e multidões mantinham-se continuamente alertas para tirá-los de mim, se possível. Mas pela sabedoria de Deus, eles continuaram seguros em minhas mãos até que cumpri, por meio deles, o que me fora requerido. Quando o mensageiro os reclamou, de acordo com o combinado, entreguei-os a ele, que os tem sob sua guarda até esta data, dois de maio de mil oitocentos e trinta e oito.
A tradução de 1829
A tradução aconteceu em duas fases. Em 1828, com Martin Harris como escrevente, Smith produziu 116 páginas de manuscrito que Harris levou para casa e perdeu. Esse material nunca foi reconstituído, e a lacuna é uma das razões apontadas para a estrutura atual do livro.
A fase decisiva começou em 7 de abril de 1829, com Oliver Cowdery como escrevente. O texto praticamente inteiro foi ditado em cerca de três meses, entre abril e o fim de junho daquele ano, ritmo que a apologética SUD apresenta como evidência de intervenção divina e que críticos explicam por composição prévia ou por facilidade de improviso oral.
67 Dois dias após a chegada do Sr. Cowdery (estávamos em 7 de abril), comecei a traduzir o Livro de Mórmon e ele começou a escrever para mim.
Sobre o método, os relatos variam. A descrição canonizada menciona o Urim e Tumim. Testemunhos de contemporâneos, hoje reconhecidos pela própria Igreja em seus materiais históricos, descrevem Smith olhando para uma pedra vidente colocada dentro de um chapéu, com as placas às vezes cobertas ou fora da sala.
A publicação em Palmyra, 1830
O livro foi impresso pela gráfica de Egbert B. Grandin, em Palmyra, no estado de Nova York, em uma tiragem de 5 mil exemplares. Martin Harris hipotecou parte de sua fazenda para garantir o pagamento de três mil dólares, quantia alta para a época, e acabou vendendo a propriedade em 1831 para quitar a dívida. Os exemplares chegaram às livrarias em 26 de março de 1830, onze dias antes da organização formal da Igreja.
A primeira edição trazia Joseph Smith na folha de rosto como "autor e proprietário", exigência da lei de direitos autorais da época; edições posteriores passaram a descrevê-lo como tradutor.
As Três e as Oito Testemunhas
Desde a primeira edição, o Livro de Mórmon traz dois depoimentos impressos nas páginas iniciais. O próprio texto antecipa a existência dessas testemunhas, tanto em uma profecia atribuída a Néfi quanto em uma instrução dada a Morôni.
12 Portanto, no dia em que o livro for entregue ao homem de quem falei, o livro será escondido dos olhos do mundo para que ninguém o veja, exceto três testemunhas, além daquele a quem o livro será entregue; e vê-lo-ão pelo poder de Deus; e eles testificarão a veracidade do livro e das coisas que ele contém.
13 E ninguém mais o verá, senão uns poucos, de acordo com a vontade de Deus, para dar testemunho de suas palavras aos filhos dos homens, pois o Senhor Deus disse que as palavras dos fiéis falariam como se viessem dos mortos.
2 E eis que poderás ter o privilégio de mostrar as placas àqueles que hão de ajudar a trazer à luz esta obra.
3 E serão mostradas a três, pelo poder de Deus; portanto, eles saberão com certeza que estas coisas são verdadeiras.
4 E pela boca de três testemunhas estas coisas serão estabelecidas; e o testemunho de três e esta obra, na qual será demonstrado o poder de Deus e também a sua palavra, da qual o Pai e o Filho e o Espírito Santo dão testemunho — e tudo isto se levantará como um testemunho contra o mundo no último dia.
| Depoimento | Quem assina | O que o texto afirma |
|---|---|---|
| Testemunho das Três Testemunhas | Oliver Cowdery, David Whitmer e Martin Harris | Que um anjo lhes mostrou as placas e que ouviram a voz de Deus declarar a tradução correta |
| Testemunho das Oito Testemunhas | Christian Whitmer, Jacob Whitmer, Peter Whitmer Jr., John Whitmer, Hiram Page, Joseph Smith Sr., Hyrum Smith e Samuel H. Smith | Que viram e manusearam as placas, sem menção a anjo ou voz do céu |
Dois pontos costumam ser destacados de lados opostos. A favor: os três primeiros signatários se desentenderam com Smith e deixaram a Igreja, e nenhum deles negou o depoimento até a morte, o que a apologética SUD trata como forte indício de sinceridade. Em sentido crítico: todos eram parentes ou associados próximos, os grupos das Oito Testemunhas eram das famílias Whitmer e Smith, e há registros em que David Whitmer e Martin Harris descrevem a experiência como percebida com "os olhos do entendimento" ou em visão, o que abre discussão sobre a natureza do que teria sido visto.
A estrutura: quinze livros
O Livro de Mórmon é uma coletânea, não uma obra única. São quinze livros, atribuídos a autores diferentes e organizados por blocos narrativos que cobrem, segundo a cronologia interna, cerca de mil anos, além de um relato mais antigo inserido no fim.
| Bloco | Livros | Conteúdo |
|---|---|---|
| Placas menores de Néfi | 1 Néfi, 2 Néfi, Jacó, Enos, Jarom, Ônni | A saída de Jerusalém, a travessia, a divisão entre nefitas e lamanitas e profecias sobre o Messias |
| Transição | Palavras de Mórmon | Nota curta do compilador explicando por que juntou os registros |
| Compêndio de Mórmon | Mosias, Alma, Helamã, 3 Néfi, 4 Néfi, Mórmon | Reis, guerras, missões, a visita de Cristo e o colapso final da civilização nefita |
| Apêndices | Éter, Morôni | O relato dos jareditas, povo anterior, e o encerramento escrito pelo último autor |
Alma é de longe o maior, com 63 capítulos, e concentra as narrativas militares e missionárias. Vários livros ocupam um único capítulo, como Enos, Jarom, Ônni, Palavras de Mórmon e 4 Néfi.
15 E aconteceu que não havia contendas na terra, em virtude do amor a Deus que existia no coração do povo.
16 E não havia invejas nem disputas nem tumultos nem libertinagens nem mentiras nem assassinatos nem qualquer espécie de lascívia; e certamente não poderia haver povo mais feliz entre todos os povos criados pela mão de Deus.
17 Não havia ladrões nem assassinos; nem havia lamanitas nem qualquer espécie de itas, mas eram um, os filhos de Cristo e herdeiros do reino de Deus.
O convite final
A obra se encerra com um apelo direto ao leitor, conhecido entre os membros como a promessa de Morôni: quem ler deve perguntar a Deus se aquilo é verdadeiro, e a resposta viria pelo Espírito Santo. Esse versículo estrutura a forma como a Igreja apresenta o livro a interessados até hoje, deslocando a verificação do terreno histórico para o da experiência pessoal.
3 Eis que desejo exortar-vos, quando lerdes estas coisas, caso Deus julgue prudente que as leiais, a vos lembrardes de quão misericordioso tem sido o Senhor para com os filhos dos homens, desde a criação de Adão até a hora em que receberdes estas coisas, e a meditardes sobre isto em vosso coração.
4 E quando receberdes estas coisas, eu vos exorto a perguntardes a Deus, o Pai Eterno, em nome de Cristo, se estas coisas não são verdadeiras; e se perguntardes com um coração sincero e com real intenção, tendo fé em Cristo, ele vos manifestará a verdade delas pelo poder do Espírito Santo.
5 E pelo poder do Espírito Santo podeis saber a verdade de todas as coisas.