O episódio fundador
O evento que a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias trata como sua origem é chamado de Primeira Visão. Segundo o relato, em um dia da primavera de 1820, aos 14 anos, Joseph Smith retirou-se para um bosque perto da casa da família, no oeste do estado de Nova York, para perguntar a Deus a qual das igrejas deveria se unir.
O gatilho declarado foi a leitura de uma passagem da carta de Tiago, citada no próprio relato: quem tem falta de sabedoria deve pedi-la a Deus.
5 E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada.
11 Em meio à inquietação extrema causada pelas controvérsias desses grupos de religiosos, li um dia na Epístola de Tiago, primeiro capítulo, versículo cinco, o seguinte: E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada.
12 Jamais uma passagem de escritura penetrou com mais poder no coração de um homem do que essa, naquele momento, no meu. Pareceu entrar com grande força em cada fibra de meu coração. Refleti repetidamente sobre ela, tendo consciência de que se alguém necessitava da sabedoria de Deus, era eu, pois eu não sabia como agir e, a menos que conseguisse obter mais sabedoria do que a que tinha então, nunca saberia; pois os religiosos das diferentes seitas interpretavam as mesmas passagens de escritura de maneira tão diferente, que destruíam toda a confiança na solução do problema através de uma consulta à Bíblia.
O relato de 1838, o texto canonizado
A versão que os membros aprendem e que a Igreja canonizou é a de 1838, publicada em 1842 no jornal Times and Seasons e hoje incluída na Pérola de Grande Valor sob o título Joseph Smith, História. Nela, Smith descreve primeiro uma força escura que o domina e o impede de falar, depois um pilar de luz que desce sobre ele.
15 Depois de me haver retirado para o lugar que previamente escolhera, tendo olhado ao redor e encontrando-me só, ajoelhei-me e comecei a oferecer a Deus os desejos de meu coração. Apenas iniciara, imediatamente se apoderou de mim uma força que me dominou por completo; e tão assombrosa foi sua influência que se me travou a língua, de modo que eu não podia falar. Uma densa escuridão formou-se ao meu redor e pareceu-me, por um momento, que eu estava condenado a uma destruição súbita.
16 Mas usando todas as forças para clamar a Deus que me livrasse do poder desse inimigo que me subjugara, no momento exato em que estava prestes a sucumbir ao desespero e abandonar-me à destruição — não a uma ruína imaginária, mas ao poder de algum ser real do mundo invisível, que possuía uma força tão assombrosa como eu jamais sentira em qualquer ser — exatamente nesse momento de grande alarme, vi um pilar de luz acima de minha cabeça, mais brilhante que o sol, que descia gradualmente sobre mim.
No centro do relato estão dois Personagens, e um deles apresenta o outro. É a passagem mais citada de toda a literatura SUD.
17 Assim que apareceu, senti-me livre do inimigo que me sujeitava. Quando a luz pousou sobre mim, vi dois Personagens cujo esplendor e glória desafiam qualquer descrição, pairando no ar, acima de mim. Um deles falou-me, chamando-me pelo nome, e disse, apontando para o outro: Este é Meu Filho Amado. Ouve-O!
Em seguida vem a resposta à pergunta que motivara a oração: nenhuma das igrejas existentes seria a certa. Essa afirmação é a base doutrinária da tese da Grande Apostasia e da restauração, tratada em outra parte deste tema.
18 Meu objetivo ao dirigir-me ao Senhor era saber qual de todas as seitas estava certa, a fim de saber a qual me unir. Portanto, tão logo me controlei o suficiente para poder falar, perguntei aos Personagens que estavam na luz acima de mim qual de todas as seitas estava certa (pois até aquele momento jamais me ocorrera que todas estivessem erradas) e a qual me unir.
19 Foi-me respondido que não me unisse a qualquer delas, pois estavam todas erradas; e o Personagem que se dirigia a mim disse que todos os seus credos eram uma abominação a sua vista; que aqueles religiosos eram todos corruptos; que “eles se aproximam de mim com os lábios, mas seu coração está longe de mim; ensinam como doutrina os mandamentos de homens, tendo aparência de religiosidade, mas negam o seu poder.”
20 Novamente me proibiu de unir-me a qualquer delas; e muitas outras coisas disse-me, as quais não posso, no momento, escrever. Quando tornei a voltar a mim, estava deitado de costas, olhando para o céu. Quando a luz se retirou, eu estava sem forças; mas tendo logo me recuperado em parte, fui para casa. Ao apoiar-me na lareira, minha mãe perguntou-me o que se passava. Respondi: “Não se preocupe, tudo está bem — eu estou bem.” Então disse a ela: “Aprendi por mim mesmo que o presbiterianismo não é verdadeiro.” Parece que o adversário sabia, nos primeiros anos de minha vida, que eu estava destinado a ser um perturbador e um importunador de seu reino; senão, por que os poderes das trevas se uniriam contra mim? Por que a oposição e a perseguição que se levantaram contra mim, quase em minha infância?
Quatro relatos, não um
Existem pelo menos quatro relatos da Primeira Visão feitos pelo próprio Joseph Smith, escritos ou ditados entre 1832 e 1842, além de pelo menos cinco descrições registradas por contemporâneos que o ouviram. Eles não são idênticos. Nenhum foi publicado antes de 1842, e o mais antigo, de 1832, permaneceu inédito e pouco conhecido até o século 20, quando historiadores da própria Igreja o localizaram nos arquivos.
| Relato | Circunstância | Quem aparece | Ênfase declarada |
|---|---|---|---|
| 1832 | Manuscrito de história, em parte na letra do próprio Smith; permaneceu inédito | O Senhor (um personagem) | Busca de perdão pessoal dos pecados; Smith diz que já concluíra por conta própria que as igrejas erravam |
| 1835 | Relato oral a um visitante, anotado em seu diário por escriba | Um personagem, depois outro, e "muitos anjos" | A visão como resposta à oração; menciona a idade de 14 anos |
| 1838 | História oficial da Igreja, ditada a escribas; publicada em 1842; canonizada | Dois Personagens, o Pai e o Filho | A origem e o progresso da Igreja; a pergunta sobre qual seita é a verdadeira |
| 1842 | Carta ao jornalista John Wentworth, para publicação em Chicago | Dois personagens | Resumo curto e apologético, escrito para leitores de fora |
As diferenças mais discutidas são três. Primeira, o número de personagens: o texto de 1832 fala do Senhor no singular, enquanto os três posteriores descrevem dois. Segunda, o motivo da oração: em 1832 Smith busca perdão dos próprios pecados e já tinha convicção de que as igrejas estavam erradas, ao passo que em 1838 ele não sabe qual delas é a certa e é essa a pergunta que leva ao bosque. Terceira, o silêncio inicial: nenhum documento contemporâneo de 1820 registra o episódio, e o relato só chega ao público impresso em 1842, mais de vinte anos depois.
O ensaio oficial de 2013
Entre 2013 e 2015, a Igreja publicou uma série de textos chamada Tópicos do Evangelho, tratando de assuntos historicamente sensíveis. O primeiro deles, "Relatos da Primeira Visão", saiu em novembro de 2013 e reconhece explicitamente a existência dos quatro relatos, com suas divergências, e os disponibiliza no site oficial.
O argumento apresentado pela Igreja é que as diferenças refletem públicos e propósitos distintos, e que variação em relatos repetidos de uma mesma experiência é o que se espera de testemunho humano, comparável às diferenças entre as narrativas da conversão de Paulo no livro de Atos. O ensaio sustenta que os elementos centrais são consistentes: um jovem orando em um bosque, uma manifestação divina, e a instrução de não se unir a nenhuma das igrejas.
3 E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu.
4 E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?
5 E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões.
6 E ele, tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que eu faça? E disse-lhe o Senhor: Levanta-te, e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer.
7 E os homens, que iam com ele, pararam espantados, ouvindo a voz, mas não vendo ninguém.
6 Ora, aconteceu que, indo eu já de caminho, e chegando perto de Damasco, quase ao meio-dia, de repente me rodeou uma grande luz do céu.
7 E caí por terra, e ouvi uma voz que me dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?
8 E eu respondi: Quem és, Senhor? E disse-me: Eu sou Jesus Nazareno, a quem tu persegues.
9 E os que estavam comigo viram, em verdade, a luz, e se atemorizaram muito, mas não ouviram a voz daquele que falava comigo.
12 Sobre o que, indo então a Damasco, com poder e comissão dos principais dos sacerdotes,
13 Ao meio-dia, ó rei, vi no caminho uma luz do céu, que excedia o esplendor do sol, cuja claridade me envolveu a mim e aos que iam comigo.
14 E, caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que me falava, e em língua hebraica dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões.
15 E disse eu: Quem és, Senhor? E ele respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu persegues;
16 Mas levanta-te e põe-te sobre teus pés, porque te apareci por isto, para te pôr por ministro e testemunha tanto das coisas que tens visto como daquelas pelas quais te aparecerei ainda;
17 Livrando-te deste povo, e dos gentios, a quem agora te envio,
18 Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim.
Críticos, incluindo historiadores que deixaram a Igreja e pesquisadores de outras tradições cristãs, respondem que as divergências não são periféricas, já que atingem quantos seres divinos apareceram e por que Smith foi orar, e que a publicação de um ensaio oficial em 2013 evidencia que a informação não circulava antes entre os membros comuns. A discussão sobre o peso desses dados aparece a seguir.