Os dois Artigos de Fé que definem o assunto
Toda a estrutura da soteriologia SUD cabe em dois dos treze Artigos de Fé. O terceiro afirma que, pela expiação de Cristo, toda a humanidade pode ser salva pela obediência às leis e ordenanças do Evangelho. O quarto lista quais são os primeiros princípios e ordenanças: fé em Jesus Cristo, arrependimento, batismo por imersão para remissão de pecados e imposição de mãos para o dom do Espírito Santo.
3 Cremos que, por meio da Expiação de Cristo, toda a humanidade pode ser salva, pela obediência às leis e ordenanças do Evangelho.
4 Cremos que os primeiros princípios e ordenanças do Evangelho são: primeiro, Fé no Senhor Jesus Cristo; segundo, Arrependimento; terceiro, Batismo por imersão para a remissão de pecados; quarto, Imposição de mãos para o dom do Espírito Santo.
Duas coisas diferentes chamadas de salvação
A confusão mais comum nas conversas entre mórmons e outros cristãos vem de uma ambiguidade de vocabulário. A doutrina SUD distingue dois resultados que costumam vir juntos na palavra "salvação".
O primeiro é a imortalidade, ou salvação universal da morte física. Ela é gratuita e alcança todos os seres humanos, sem exceção e sem condição, porque a ressurreição de Cristo desfaz a morte para todos. O Livro de Mórmon afirma isso de forma abrangente: a restauração alcança velhos e jovens, iníquos e justos.
42 Ora, existe uma morte que é chamada morte física; e a morte de Cristo desatará as ligaduras dessa morte física, para que todos se levantem dessa morte física.
43 O espírito e o corpo serão novamente reunidos em sua perfeita forma; os membros e juntas serão restaurados à sua devida estrutura, tal como nos achamos neste momento; e seremos levados a apresentar-nos perante Deus, sabendo o que sabemos agora, e tendo uma viva lembrança de toda a nossa culpa.
44 Ora, esta restauração acontecerá com todos, tanto velhos como jovens, tanto escravos como livres, tanto homens como mulheres, tanto iníquos como justos; e não se perderá um único cabelo de sua cabeça, mas tudo será restaurado à sua perfeita estrutura, como se encontra agora, ou seja, no corpo; e todos serão levados perante o tribunal de Cristo, o Filho, e Deus, o Pai, e o Santo Espírito, que são um Eterno Deus, para serem julgados segundo as suas obras, sejam elas boas ou más.
22 E ele sofre isto para que todos os homens ressuscitem, para que todos compareçam diante dele no grande dia do julgamento.
O segundo é a exaltação, ou vida eterna na presença de Deus no grau mais alto de glória. Essa não é universal: depende de fé, arrependimento, das ordenanças recebidas pela autoridade correta e de perseverar até o fim. É nesse segundo sentido que a doutrina SUD fala de condições, e é esse ponto que gera o atrito com a teologia protestante.
39 Pois eis que esta é minha obra e minha glória: Levar a efeito a imortalidade e vida eterna do homem.
A frase mais discutida: "depois de tudo o que pudermos fazer"
Nenhuma passagem SUD é mais citada nesse debate do que 2 Néfi 25:23, que afirma que é pela graça que somos salvos, "depois de tudo o que pudermos fazer".
23 Pois trabalhamos diligentemente para escrever, a fim de persuadir nossos filhos e também nossos irmãos a acreditarem em Cristo e a reconciliarem-se com Deus; pois sabemos que é pela graça que somos salvos, depois de tudo o que pudermos fazer.
Críticos leem a frase como esforço humano somado à graça, com a graça cobrindo apenas o déficit. Autores e líderes SUD contemporâneos leem "depois de" como "além de" ou "independentemente de", e enfatizam que o esforço é resposta à graça, não seu preço. O próprio Livro de Mórmon tem passagens em que a graça é claramente o agente da perfeição, o que sustenta a segunda leitura.
32 Sim, vinde a Cristo, sede aperfeiçoados nele e negai-vos a toda iniquidade; e se vos negardes a toda iniquidade e amardes a Deus com todo o vosso poder, mente e força, então sua graça vos será suficiente; e por sua graça podeis ser perfeitos em Cristo; e se pela graça de Deus fordes perfeitos em Cristo, não podereis, de modo algum, negar o poder de Deus.
33 E novamente, se pela graça de Deus fordes perfeitos em Cristo e não negardes o seu poder, então sereis santificados em Cristo pela graça de Deus, por meio do derramamento do sangue de Cristo, que está no convênio do Pai para a remissão de vossos pecados, a fim de que vos torneis santos, sem mácula.
8 Portanto, quão importante é tornar estas coisas conhecidas dos habitantes da Terra, para que saibam que nenhuma carne pode habitar na presença de Deus a menos que seja por meio dos méritos e misericórdia e graça do Santo Messias, que dá a sua vida, segundo a carne, e toma-a novamente pelo poder do Espírito, para poder efetuar a ressurreição dos mortos, sendo ele o primeiro a ressuscitar.
As ordenanças e a questão da autoridade
A doutrina SUD entende as ordenanças (batismo, confirmação, sacramento, investidura, selamento) como necessárias, e acrescenta uma condição que outras tradições não fazem da mesma forma: elas precisam ser administradas por alguém que detenha a autoridade do sacerdócio restaurado. Um batismo realizado em outra igreja não é reconhecido, e quem se converte é rebatizado.
5 Cremos que um homem deve ser chamado por Deus, por profecia, e pela imposição de mãos, por quem possua autoridade, para pregar o Evangelho e administrar as suas ordenanças.
8 E aconteceu que ele lhes disse: Eis aqui as águas de Mórmon (pois assim eram chamadas); e agora, sendo que desejais entrar no rebanho de Deus e ser chamados seu povo; e sendo que estais dispostos a carregar os fardos uns dos outros, para que fiquem leves;
9 Sim, e estais dispostos a chorar com os que choram; sim, e consolar os que necessitam de consolo e servir de testemunhas de Deus em todos os momentos e em todas as coisas e em todos os lugares em que vos encontreis, mesmo até a morte; para que sejais redimidos por Deus e contados com os da primeira ressurreição, para que tenhais a vida eterna —
10 Agora vos digo que, se for esse o desejo de vosso coração, o que vos impede de serdes batizados em nome do Senhor, como um testemunho, perante ele, de que haveis feito convênio com ele de servi-lo e guardar seus mandamentos, para que ele possa derramar seu Espírito com mais abundância sobre vós?
19 E nada que seja imundo pode entrar em seu reino; portanto, nada entra em seu descanso, a não ser aqueles que tenham lavado suas vestes em meu sangue, por causa de sua fé e do arrependimento de todos os seus pecados e de sua fidelidade até o fim.
20 Ora, este é o mandamento: Arrependei-vos todos vós, confins da Terra; vinde a mim e sede batizados em meu nome, a fim de que sejais santificados, recebendo o Espírito Santo, para comparecerdes sem mancha perante mim no último dia.
5 Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.
O contraste com as outras tradições
A Reforma protestante formulou a sola fide: o pecador é justificado pela fé somente, e as boas obras são fruto necessário da justificação, nunca sua causa. Paulo é lido como excluindo qualquer contribuição meritória humana.
8 Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.
9 Não vem das obras, para que ninguém se glorie;
28 Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei.
A teologia católica, formalizada no Concílio de Trento (1547), rejeita tanto o mérito autônomo quanto a fé sozinha: a justificação é iniciada pela graça, recebida no batismo, e o cristão coopera com ela por meio da caridade e dos sacramentos. A Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação (1999), assinada por católicos e luteranos, reduziu parte da distância histórica entre as duas posições.
24 Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé.
12 De sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim também operai a vossa salvação com temor e tremor;
13 Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.
As três posições em uma tabela
| Ponto | Doutrina SUD | Protestantismo (sola fide) | Catolicismo |
|---|---|---|---|
| O que a graça garante a todos | Ressurreição e imortalidade, sem condição | Nada automático; a graça salva quem crê | Nada automático; a graça é oferecida a todos |
| O que exige condições | Exaltação (vida eterna no grau celestial) | Nada: a justificação é recebida pela fé | A salvação final, mediante graça, fé e caridade |
| Papel das obras | Obediência às leis e ordenanças é requisito | Fruto e evidência da fé, nunca causa | Cooperação com a graça, meritórias por ela |
| Batismo | Necessário, por imersão, pela autoridade restaurada | Ordenança de obediência (varia entre denominações) | Sacramento que confere a graça justificante |
| Batismo de outra igreja | Não reconhecido; o convertido é rebatizado | Geralmente reconhecido se trinitário | Reconhecido se trinitário e com água |
| Perseverança | Requisito explícito: perseverar até o fim | Fruto da preservação divina (varia entre tradições) | Requisito, sustentado pela graça e pelos sacramentos |
A leitura SUD do conjunto é resumida por um verso que a própria Igreja usa como síntese: esta vida é o tempo de preparação para o encontro com Deus.
32 Pois eis que esta vida é o tempo para os homens prepararem-se para o encontro com Deus; sim, eis que o dia desta vida é o dia para os homens executarem os seus labores.