Jesus é o Jeová do Antigo Testamento
Na doutrina SUD, os nomes divinos se distribuem entre duas pessoas: Elohim designa o Pai, e Jeová designa o Filho antes da encarnação. O Deus que fala a Abraão, que aparece a Moisés na sarça e que dá a lei no Sinai é, nessa leitura, o Cristo pré-mortal agindo em nome do Pai.
O Livro de Mórmon apoia essa identificação de forma direta. Ao aparecer aos nefitas, o Cristo ressurreto se apresenta como o Deus de Israel e como aquele que deu a lei.
14 Levantai-vos e aproximai-vos de mim, para que possais meter as mãos no meu lado e também apalpar as marcas dos cravos em minhas mãos e em meus pés, a fim de que saibais que eu sou o Deus de Israel e o Deus de toda a Terra e fui morto pelos pecados do mundo.
5 Eis que eu sou aquele que deu a lei e eu sou aquele que fez convênio com meu povo, Israel; portanto, a lei se cumpre em mim, porque eu vim para cumprir a lei; consequentemente, ela tem um fim.
14 Eis que eu sou aquele que foi preparado desde a fundação do mundo para redimir meu povo. Eis que eu sou Jesus Cristo. Eu sou o Pai e o Filho. Em mim toda a humanidade terá vida e tê-la-á eternamente, sim, aqueles que crerem em meu nome; e eles tornar-se-ão meus filhos e minhas filhas.
O cristianismo histórico também lê passagens do Antigo Testamento como aparições do Filho (as chamadas cristofanias), mas não separa os nomes: no monoteísmo trinitário, Jeová e Elohim designam o único Deus, e portanto as três pessoas. A diferença não é sobre Jesus ser divino, e sim sobre a distribuição dos nomes divinos.
14 E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós.
58 Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou.
Filho literal do Pai
A teologia SUD usa a palavra "literal" com peso. Jesus é entendido como o Filho literal de Deus tanto no espírito (o primogênito entre os filhos espirituais do Pai) quanto na carne (o Unigênito, único a ter Deus por pai também no corpo mortal). O Livro de Mórmon o descreve como Deus que desce entre os homens, chamado Filho por causa da carne e Pai por causa do poder que o gerou.
1 E então Abinádi lhes disse: Quisera que compreendêsseis que o próprio Deus descerá entre os filhos dos homens e redimirá seu povo.
2 E porque ele habita na carne, será chamado o Filho de Deus; e havendo sujeitado a carne à vontade do Pai, sendo o Pai e o Filho —
3 O Pai, porque foi concebido pelo poder de Deus; e o Filho, por causa da carne; tornando-se assim o Pai e o Filho —
4 E eles são um Deus, sim, o próprio Pai Eterno do céu e da Terra.
8 E ele chamar-se-á Jesus Cristo, o Filho de Deus, o Pai dos céus e da Terra, o Criador de todas as coisas desde o princípio; e sua mãe chamar-se-á Maria.
A tradição nicena usa outra categoria: o Filho é gerado, não criado, desde a eternidade, e a geração não é um evento no tempo. Nela, "Filho" descreve uma relação eterna dentro de Deus, e não um começo.
Irmão espiritual da humanidade (e de Lúcifer)
Como a doutrina SUD ensina que todos os seres humanos existiram como filhos espirituais de Deus antes de nascer (ver a página sobre a vida pré-mortal), segue-se que Cristo é o irmão mais velho de todos eles. A mesma lógica alcança Lúcifer: ele também é descrito como um filho espiritual de Deus que se rebelou no conselho pré-mortal. É daí que vem a fórmula, comum na literatura crítica, de que "Jesus e Satanás são irmãos" na teologia SUD.
A Pérola de Grande Valor narra a cena. No livro de Moisés, Satanás se oferece para redimir toda a humanidade sem perda de nenhuma alma, exigindo para si a honra; o Filho Amado responde submetendo-se à vontade do Pai. No livro de Abraão, dois personagens respondem ao chamado divino, e o segundo se irou por não ter sido escolhido.
1 E eu, o Senhor Deus, falei a Moisés, dizendo: Aquele Satanás a quem tu deste ordem em nome de meu Unigênito é o mesmo que existiu desde o princípio; e ele apresentou-se perante mim, dizendo: Eis-me aqui, envia-me; serei teu filho e redimirei a humanidade toda, de modo que nenhuma alma se perca; e sem dúvida eu o farei; portanto, dá-me a tua honra.
2 Mas eis que meu Filho Amado, que foi meu Amado e meu Escolhido desde o princípio, disse-me: Pai, faça-se a tua vontade e seja tua a glória para sempre.
3 Portanto, por ter Satanás se rebelado contra mim e procurado destruir o arbítrio do homem, o qual eu, o Senhor Deus, lhe dera; e também por querer que eu lhe desse meu próprio poder, fiz com que ele fosse expulso pelo poder do meu Unigênito.
4 E ele tornou-se Satanás, sim, o próprio diabo, o pai de todas as mentiras, para enganar e cegar os homens e levá-los cativos segundo a sua vontade, sim, todos os que não derem ouvidos à minha voz.
27 E o Senhor disse: Quem enviarei? E um semelhante ao Filho do Homem respondeu: Eis-me aqui, envia-me. E outro respondeu e disse: Eis-me aqui, envia-me. E o Senhor disse: Enviarei o primeiro.
28 E o segundo irou-se, e não guardou seu primeiro estado; e, naquele dia, muitos o seguiram.
Na teologia cristã histórica, a distância entre Cristo e Satanás é de natureza, não de posição: Cristo é o Criador, e Satanás um anjo criado que caiu. Como não há preexistência de almas humanas na doutrina clássica, também não há uma fraternidade espiritual anterior ao nascimento.
16 Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele.
5 Porque, a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho?
6 E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz:E todos os anjos de Deus o adorem.
A expiação começa no Getsêmani
A doutrina SUD dá ao Jardim do Getsêmani um peso expiatório que a maior parte do cristianismo reserva à cruz. Na formulação SUD, Cristo tomou sobre si os pecados, as dores e as enfermidades da humanidade no Getsêmani, e completou a obra no Calvário. O sofrimento no jardim não é apenas antecipação da paixão: é parte da expiação.
O Livro de Mórmon antecipa a cena com uma imagem específica, a do sangue saindo de cada poro, e descreve o alcance do sofrimento como abarcando as dores de toda criatura vivente.
7 E eis que sofrerá tentações e dores corporais, fome, sede e cansaço maiores do que o homem pode suportar sem morrer; eis que sairá sangue de cada um de seus poros, tão grande será a sua angústia pelas iniquidades e abominações de seu povo.
21 E ele vem ao mundo para salvar todos os homens, se eles derem ouvidos à sua voz; pois eis que ele sofre as dores dos homens, sim, as dores de toda criatura vivente, tanto homens como mulheres e crianças, que pertencem à família de Adão.
11 E ele seguirá, sofrendo dores e aflições e tentações de toda espécie; e isto para que se cumpra a palavra que diz que ele tomará sobre si as dores e as enfermidades de seu povo.
12 E tomará sobre si a morte, para soltar as ligaduras da morte que prendem o seu povo; e tomará sobre si as suas enfermidades, para que se lhe encham de misericórdia as entranhas, segundo a carne, para que saiba, segundo a carne, como socorrer seu povo, de acordo com suas enfermidades.
O texto bíblico correspondente é o relato lucano do suor como gotas de sangue. A leitura tradicional o entende como agonia diante da cruz que se aproxima; a leitura SUD o entende como o início do ato expiatório.
44 E, posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor tornou-se como grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão.
20 E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.
24 Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados.
A visita ao continente americano
A narrativa mais distintiva do Livro de Mórmon é a aparição de Cristo ressurreto a um povo no continente americano, situada logo após a crucificação. O terceiro livro de Néfi descreve uma multidão reunida junto ao templo, uma voz vinda do céu apresentando o Filho Amado, e a descida de um homem vestido de branco.
7 Eis aqui meu Filho Amado, em quem me comprazo e em quem glorifiquei meu nome — ouvi-o.
8 E aconteceu que, ao entenderem, voltaram outra vez os olhos para o céu; e eis que viram um Homem descendo do céu; e ele estava vestido com uma túnica branca; e ele desceu e colocou-se no meio deles; e os olhos de toda a multidão estavam voltados para ele e não se atreviam a abrir a boca, nem sequer uns para os outros; e não sabiam o que aquilo significava, porque supunham que era um anjo que lhes aparecera.
9 E aconteceu que ele estendeu a mão e falou ao povo, dizendo:
10 Eis que eu sou Jesus Cristo, cuja vinda ao mundo foi testificada pelos profetas.
11 E eis que eu sou a luz e a vida do mundo; e bebi da taça amarga que o Pai me deu e glorifiquei o Pai, tomando sobre mim os pecados do mundo, no que me submeti à vontade do Pai em todas as coisas desde o princípio.
14 Levantai-vos e aproximai-vos de mim, para que possais meter as mãos no meu lado e também apalpar as marcas dos cravos em minhas mãos e em meus pés, a fim de que saibais que eu sou o Deus de Israel e o Deus de toda a Terra e fui morto pelos pecados do mundo.
A leitura SUD ancora o episódio numa frase do Evangelho de João, sobre as "outras ovelhas" que não são do redil de Israel, e o próprio Cristo de 3 Néfi identifica os nefitas com elas.
16 Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor.
21 E em verdade vos digo que sois aqueles de quem falei: Tenho também outras ovelhas que não são deste aprisco; também devo conduzir estas e elas ouvirão a minha voz e haverá um rebanho e um pastor.
A exegese cristã majoritária lê "outras ovelhas" como os gentios que entrariam na Igreja, e não como um povo do hemisfério ocidental. O ponto de divergência aqui não é doutrinário no sentido estrito: é histórico e textual, e depende da avaliação que se faça do Livro de Mórmon como registro antigo.
Resumo comparativo
| Tema | Doutrina SUD (mórmon) | Cristianismo histórico |
|---|---|---|
| Identidade no Antigo Testamento | Jesus é Jeová; o Pai é Elohim | Jeová e Elohim designam o único Deus trino |
| Filiação | Filho literal no espírito e na carne; primogênito espiritual | Gerado eternamente, não criado, da mesma substância do Pai |
| Relação com Lúcifer | Ambos filhos espirituais do Pai; Lúcifer se rebelou | Cristo é o Criador; Satanás, anjo criado que caiu |
| Onde ocorre a expiação | Getsêmani e cruz, com peso decisivo no Getsêmani | Na cruz, sendo o Getsêmani a agonia que a antecede |
| Alcance ministerial | Ministrou na Palestina e, ressurreto, no continente americano | Ministrou na Palestina; após a ressurreição, aos discípulos |
| Fonte primária das afirmações | Bíblia, Livro de Mórmon, Doutrina e Convênios, Pérola de Grande Valor | Bíblia e definição conciliar (Niceia, Calcedônia) |