Vida Antes do Nascimento e os Três Céus

A existência antes do nascimento

A doutrina SUD ensina que cada ser humano existiu como espírito, filho ou filha de Deus, antes de nascer neste mundo. A vida mortal não é o começo da pessoa: é o segundo capítulo de uma história que já estava em curso.

O texto de referência é o terceiro capítulo do livro de Abraão, na Pérola de Grande Valor, publicado por Joseph Smith em 1842. Ali, Abraão vê as inteligências organizadas antes de o mundo existir, e entre elas as "nobres e grandes", e ouve que ele mesmo foi escolhido antes de nascer.

22 Ora, o Senhor mostrara a mim, Abraão, as inteligências que foram organizadas antes de o mundo existir; e entre todas essas havia muitas das nobres e grandes;

23 E Deus viu que essas almas eram boas; e ele estava no meio delas e disse: A estes farei meus governantes; pois ele se encontrava entre aqueles que eram espíritos, e viu que eles eram bons; e disse-me: Abraão, tu és um deles; foste escolhido antes de nasceres.

Passagens bíblicas costumam ser lidas nessa chave pela tradição SUD, especialmente o chamado de Jeremias, formulado antes da formação no ventre, e a pergunta dos discípulos sobre quem havia pecado no caso do cego de nascença.

5 Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta.

2 E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?

5 E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse.

O cristianismo histórico rejeitou a preexistência das almas humanas de forma explícita. A posição associada a Orígenes foi condenada no século 6, e a doutrina majoritária desde então afirma que a alma é criada por Deus no momento em que cada pessoa começa a existir. Passagens como Jeremias 1:5 são lidas como conhecimento e propósito divinos anteriores, não como existência pessoal anterior.

1 Peso da palavra do SENHOR sobre Israel: Fala o SENHOR, o que estende o céu, e que funda a terra, e que forma o espírito do homem dentro dele.

27 E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo,

O concílio nos céus

A vida pré-mortal, na narrativa SUD, tem um evento decisivo: um conselho em que o Pai apresenta o plano de salvação e pede voluntários. O livro de Abraão registra a pergunta "Quem enviarei?", a resposta de dois personagens e a escolha do primeiro. O livro de Moisés dá o conteúdo das duas propostas: Satanás se oferece para redimir toda a humanidade sem perda de nenhuma alma, exigindo a glória para si, e o Filho Amado responde submetendo-se à vontade do Pai.

24 E estava entre eles um que era semelhante a Deus; e ele disse aos que se achavam com ele: Desceremos, pois espaço lá, e tomaremos destes materiais, e faremos uma terra onde estes possam habitar;

25 E assim os provaremos para ver se farão todas as coisas que o Senhor seu Deus lhes ordenar;

26 E os que guardarem seu primeiro estado receberão um acréscimo; e os que não guardarem seu primeiro estado não terão glória no mesmo reino que aqueles que guardarem seu primeiro estado; e os que guardarem seu segundo estado terão um acréscimo de glória sobre sua cabeça para todo o sempre.

27 E o Senhor disse: Quem enviarei? E um semelhante ao Filho do Homem respondeu: Eis-me aqui, envia-me. E outro respondeu e disse: Eis-me aqui, envia-me. E o Senhor disse: Enviarei o primeiro.

28 E o segundo irou-se, e não guardou seu primeiro estado; e, naquele dia, muitos o seguiram.

1 E eu, o Senhor Deus, falei a Moisés, dizendo: Aquele Satanás a quem tu deste ordem em nome de meu Unigênito é o mesmo que existiu desde o princípio; e ele apresentou-se perante mim, dizendo: Eis-me aqui, envia-me; serei teu filho e redimirei a humanidade toda, de modo que nenhuma alma se perca; e sem dúvida eu o farei; portanto, dá-me a tua honra.

2 Mas eis que meu Filho Amado, que foi meu Amado e meu Escolhido desde o princípio, disse-me: Pai, faça-se a tua vontade e seja tua a glória para sempre.

3 Portanto, por ter Satanás se rebelado contra mim e procurado destruir o arbítrio do homem, o qual eu, o Senhor Deus, lhe dera; e também por querer que eu lhe desse meu próprio poder, fiz com que ele fosse expulso pelo poder do meu Unigênito.

4 E ele tornou-se Satanás, sim, o próprio diabo, o pai de todas as mentiras, para enganar e cegar os homens e levá-los cativos segundo a sua vontade, sim, todos os que não derem ouvidos à minha voz.

O ponto doutrinário do episódio é o arbítrio: a proposta rejeitada é rejeitada justamente por eliminar a liberdade de escolha. O plano aceito preserva a possibilidade de errar, e por isso exige um Redentor. A guerra no céu descrita em Apocalipse 12 é lida pela tradição SUD como o registro bíblico dessa cena.

7 E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos;

8 Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus.

9 E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele.

6 E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia;

25 Adão caiu para que os homens existissem; e os homens existem para que tenham alegria.

Entre a morte e a ressurreição

Antes dos graus de glória há um estado intermediário. O Livro de Mórmon descreve o mundo dos espíritos, dividido entre paraíso e um estado de trevas, onde os mortos aguardam a ressurreição. A doutrina SUD acrescenta que o Evangelho é pregado ali aos que não o receberam em vida, o que fundamenta a prática do batismo vicário (tratada na página sobre templos).

11 Ora, com relação ao estado da alma entre a morte e a ressurreição eis que me foi dado saber por um anjo que o espírito de todos os homens, logo que deixa este corpo mortal, sim, o espírito de todos os homens, sejam eles bons ou maus, é levado de volta para aquele Deus que lhes deu vida.

12 E então acontecerá que o espírito daqueles que são justos será recebido num estado de felicidade, que é chamado paraíso, um estado de descanso, um estado de paz, onde descansará de todas as suas aflições e de todos os seus cuidados e tristezas.

13 E então acontecerá que o espírito dos iníquos, sim, aqueles que são maus pois eis que eles não têm parte nem porção do Espírito do Senhor; pois eis que preferiram praticar o mal e não o bem; por conseguinte, o espírito do diabo entrou neles e apossou-se de seu corpo e eles serão atirados nas trevas exteriores; ali haverá pranto e lamentação e ranger de dentes; e isto em virtude de sua própria iniquidade, sendo levados cativos pela vontade do diabo.

14 Ora, esse é o estado da alma dos iníquos, sim, em trevas e num estado de espantosa e terrível expectativa da ardente indignação da ira de Deus sobre eles. Portanto, permanecem nesse estado, assim como os justos no paraíso, até a hora de sua ressurreição.

19 No qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão;

6 Porque por isto foi pregado o evangelho também aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens na carne, mas vivessem segundo Deus em espírito;

Os três graus de glória

A escatologia SUD substitui a divisão binária entre céu e inferno por três reinos de glória, mais uma condição fora deles. A formulação está numa visão de 1832 registrada em Doutrina e Convênios 76, obra que não faz parte do acervo deste site e por isso aparece aqui apenas citada.

ReinoSímboloQuem o herda, segundo a doutrina SUD
CelestialO solOs que receberam o Evangelho e as ordenanças e perseveraram; é o reino da exaltação e da presença do Pai
TerrestrialA luaPessoas honradas que não receberam a plenitude do Evangelho, ou que não foram valentes no testemunho de Jesus
TelestialAs estrelasOs que não receberam o Evangelho nem o testemunho de Jesus; recebem glória após pagarem por seus pecados
Trevas exterioresSem glóriaOs chamados filhos da perdição, número entendido como muito reduzido; única condição sem glória alguma

A palavra telestial não existe em grego nem em latim: foi cunhada no contexto SUD e não tem correspondente na literatura cristã anterior. Os outros dois termos, celestial e terrestre, vêm do vocabulário da tradução inglesa de 1 Coríntios 15.

A leitura de 1 Coríntios 15:40-41

A ancoragem bíblica dos três graus está nesses dois versículos, em que Paulo fala de corpos celestiais e terrestres e depois distingue a glória do sol, a da lua e a das estrelas.

40 E corpos celestes e corpos terrestres, mas uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres.

41 Uma é a glória do sol, e outra a glória da lua, e outra a glória das estrelas; porque uma estrela difere em glória de outra estrela.

A leitura SUD toma sol, lua e estrelas como três destinos distintos, e associa a esses graus a diferença de glória entre os ressuscitados. A exegese cristã majoritária lê a passagem dentro do argumento de Paulo sobre o corpo da ressurreição: o apóstolo estaria usando uma analogia sobre a diferença entre o corpo mortal e o corpo ressurreto, e não descrevendo uma geografia do além. Os intérpretes tradicionais notam que o capítulo inteiro responde à pergunta "com que corpo virão?" (v. 35), e não à pergunta sobre quantos céus existem.

35 Mas alguém dirá: Como ressuscitarão os mortos? E com que corpo virão?

42 Assim também a ressurreição dentre os mortos. Semeia-se o corpo em corrupção; ressuscitará em incorrupção.

43 Semeia-se em ignomínia, ressuscitará em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscitará com vigor.

44 Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual. Se corpo natural, também corpo espiritual.

2 Conheço um homem em Cristo que catorze anos (se no corpo, não sei, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao terceiro céu.

Comparação

PontoDoutrina SUDCristianismo histórico
Origem da almaEspírito preexistente, filho de Deus antes do nascimentoCriada por Deus no início de cada vida humana
Escolha pré-mortalConselho nos céus, com aceitação livre do planoNão há existência humana anterior para escolher
Destinos após o juízoTrês reinos de glória mais as trevas exterioresCéu e inferno; algumas tradições incluem o purgatório como purificação temporária
Leitura de 1 Co 15:40-41Descrição dos três graus de glóriaAnalogia sobre a natureza do corpo ressurreto
Alcance da condenação finalRestrito aos filhos da perdiçãoAlcança os que morrem sem a graça de Deus