Quais São os Evangelhos Apócrifos e Por Que Ficaram Fora da Bíblia

O que é um evangelho apócrifo

Além dos quatro evangelhos que entraram no Novo Testamento (Mateus, Marcos, Lucas e João), a Antiguidade cristã produziu dezenas de outros textos que também se apresentavam como evangelhos: relatos da vida, dos ditos, da morte ou dos ensinos secretos de Jesus. São os evangelhos apócrifos. A palavra "apócrifo" vem do grego e significa "oculto" ou "escondido"; na prática, designa os escritos que circularam em meios cristãos mas não foram aceitos como Escritura pela Igreja majoritária.

Não são um bloco uniforme. Há evangelhos gnósticos com cosmologia complexa, evangelhos da infância recheados de prodígios do menino Jesus, evangelhos da paixão que ampliam a crucificação, e coletâneas de ditos sem narrativa. Boa parte chegou a nós em estado fragmentário, e quase todos são bem mais tardios do que os quatro canônicos.

Os que este site hospeda

Vários desses textos podem ser lidos na íntegra aqui, em português. Os principais:

1 Quem descobrir o sentidos dessas palavras, não provará a morte.

2 Quem procura, não cesse de procurar até achar; e, quando achar, será estupefato; e, quando estupefato, ficará maravilhado e então terá domínio sobre o Universo.

3 Jesus disse: Se vossos guias vos disserem: ‘o reino está no céu’, então as aves vos precederam; se vos disserem que está no mar, então os peixes vos precederam. Mas o reino está dentro de vós, e também fora de vós. Se vos conhecerdes, sereis conhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. Mas, se não vos conhecerdes, vivereis em pobreza, e vós mesmos sereis essa pobreza.

1 Esta é a mensagem secreta de julgamento que Jesus falou com Judas Iscariotes ao longo de oito dias, três dias antes de ele celebrar a Páscoa.

10 Então Maria se levantou e saudou a todos. Disse a seus irmãos (e irmãs): "Não chorem nem se entristeçam, nem deixem que seus corações se dividam, porque a graça dele estará com todos vocês e os protegerá. Em vez disso, devemos louvar a grandeza dele, porque ele nos preparou e nos fez Humanos."

11 Quando Maria disse essas coisas, voltou o coração deles [para] o Bem, e eles [começaram] a debater as palavras [do Salvador].

12 Pedro disse a Maria: "Irmã, sabemos que o Salvador a amava mais do que todas as outras mulheres. Diga-nos as palavras do Salvador de que você se lembra, as coisas que você sabe e nós não, e que não ouvimos."

25 Eram três os que viajavam com o Senhor o tempo todo: sua mãe Maria, a irmã dela, e Madalena, que é chamada de sua companheira; porque Maria é sua irmã, sua mãe e sua parceira.

42 E ouviu-se uma resposta da cruz, dizendo: Sim.

1 Depois de se haverem reunido em conselho os príncipes dos sacerdotes e os escribas, Anás e Caifás e Semes e Dothaim e Gamaliel, Judas, Levi e Neftali, Alexandre e Jairo e os restantes dentre os judeus apresentaram-se diante de Pilatos acusando Jesus de muitos feitos, dizendo: “Sabemos que ele é filho de José o carpinteiro e que nasceu de Maria, e chama-se a si mesmo Filho de Deus e rei; além disso profana o sábado e ainda pretende abolir a lei de nossos pais”, Disse-lhes Pilatos: “E o que ele faz e o que pretende abolir?” Os judeus disseram: “Temos uma lei que proíbe a cura no Sábado; pois bem, este, servindo-se das más artes, curou durante o Sábado coxos, machucados, cegos, paralíticos, surdos e endemoninhados”, Disse-lhes Pilatos: “Se realiza honestamente suas curas, não faz mal algum.” Os judeus replicaram: “Se realizasse suas curas honestamente, não seria mal maior; mas para fazê-las usa a virtude de Belzebu, príncipe dos demônios, expulsa a estes e a todos que lhes são submissos”, Disse-lhes Pilatos: “Isto não é tirar os demônios pela virtude de um espírito imundo, mas sim pela virtude do deus Esculápio”.

1 ENTÃO OS mestres Addas, Finees e Egias, três varões que vieram da Galiléia para testemunhar que haviam visto Jesus ser arrebatado ao céu, levantaram-se em meio à multidão de chefes dos judeus e disseram na presença dos sacerdotes e levitas reunidos em conselho: “Senhores, quando íamos da Galiléia ao Jordão, veio ao nosso encontro uma grande multidão de homens vestidos de branco que haviam morrido algum tempo. Dentre eles reconhecemos Karino e Lêucio; e quanto eles se aproximaram de nós e nos beijamos mutuamente, que haviam sido nossos amigos, perguntamos-lhes: “Dizei-nos, irmãos e amigos, que são esta alma e este corpo, e quem são essas pessoas com quem caminhais, e como viveis no corpo, sendo que faz tempo que morrestes?”

5 Os que ali estavam me castigaram. E eu não morri de fato, mas em aparência, para não ser envergonhado por eles, porque estes são meus parentes. Removi de mim a vergonha e não me acovardei diante do que me aconteceu pelas mãos deles.

6 Eu estava prestes a ceder ao medo, e <sofri> segundo a visão e o pensamento deles, para que jamais encontrassem palavra alguma a dizer a respeito deles. Pois a minha morte, que eles pensam que aconteceu, aconteceu a eles, no seu erro e na sua cegueira, pois pregaram o seu homem para a sua morte.

7 Pois as Ennoias deles não me viram, porque eram surdos e cegos. Mas, ao fazerem essas coisas, eles se condenam. Sim, viram-me; castigaram-me. Foi outro, o pai deles, que bebeu o fel e o vinagre; não fui eu. Bateram-me com a cana; foi outro, Simão, que carregou a cruz no ombro.

8 Eu era outro sobre quem puseram a coroa de espinhos. Mas eu me alegrava na altura, sobre toda a riqueza dos arcontes e a descendência do erro deles, da sua glória vazia. E eu ria da ignorância deles.

Quando foram escritos

A datação é o primeiro filtro. Os quatro evangelhos canônicos são datados, na maioria das reconstruções, entre cerca de 65 e 100 d.C., dentro ou pouco depois da geração das testemunhas. Os apócrifos, com pouquíssimas exceções, são posteriores, em geral do século 2 em diante, e alguns, como a descida ao inferno em sua forma desenvolvida, são bem medievais.

Evangelho apócrifoDatação usualPerfil
ToméNúcleo possivelmente séc. 1-2; cópia copta séc. 4Coletânea de 114 ditos, sabedoria
PedroSéc. 2Paixão e ressurreição amplificadas
MariaSéc. 2Diálogo gnóstico, autoridade de Madalena
JudasSéc. 2Gnóstico setiano, Judas como iniciado
FilipeSéc. 3Antologia valentiniana, sacramentos
Segundo Tratado do Grande SetSéc. 3Gnóstico, Cristo docético
Nicodemos / Atos de PilatosSéc. 4-5, com camadas mais tardiasJulgamento de Pilatos, descida ao Hades

Os critérios da canonicidade

A Igreja antiga não dispunha de uma lista oficial pronta desde o início; o cânon do Novo Testamento se firmou ao longo de séculos, por uso e discernimento das comunidades, antes de ser confirmado em concílios. Três critérios costumam ser apontados pelos próprios escritos da época.

CritérioO que significava
ApostolicidadeLigação com um apóstolo ou seu círculo direto
AntiguidadeOrigem na primeira geração, não tardia
Uso litúrgico e regra de féAceitação ampla nas igrejas e acordo com o ensino recebido

Pela combinação desses critérios, a maioria dos apócrifos caía fora por dois flancos: eram tardios demais para terem origem apostólica real, apesar dos nomes ilustres nos títulos, e muitos traziam uma teologia (em geral gnóstica) incompatível com a regra de fé das igrejas que os rejeitavam. A pergunta que organiza este tema, e que volta em cada página, é se essa exclusão foi sobretudo um juízo histórico (estes textos são tardios e secundários) ou sobretudo um juízo doutrinário (a corrente que venceu apagou as concorrentes).

Perspectivas sobre este tema

Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.

Crítico Histórico

A datação resolve a maior parte do caso: os apócrifos ficaram de fora primeiro por serem tardios, e só depois por divergirem na doutrina.

A própria tabela da página já entrega o essencial, e convém ler com frieza o que ela mostra. Tomé com cópia copta do século 4 e núcleo disputado, Pedro e Maria no século 2, Filipe e o Segundo Tratado do Grande Set no século 3, Nicodemos no 4 ou 5. Contra os canônicos datados entre cerca de 65 e 100 d.C., a distância não é detalhe de erudição: é o intervalo entre quem ainda podia cruzar com a geração das testemunhas e quem escreve duas a quatro gerações depois, num grego que já pressupõe os evangelhos que cita. Honestamente, esse é o ponto mais forte do lado histórico, e ele independe de qualquer juízo teológico. Um texto que reescreve material já conhecido, sob o nome de um apóstolo que não o escreveu, é literatura pseudoepígrafa por definição, e a antiguidade cristã sabia disso melhor do que se costuma supor.

Dito isso, seria desonesto fingir que os critérios da página são puramente cronológicos. Apostolicidade, antiguidade e regra de fé não são três peneiras independentes: a terceira é doutrinária, e a página admite com clareza que muitos apócrifos caíam fora por dois flancos ao mesmo tempo. Quando o caso de Tomé é justamente o mais debatido, com propostas que chegam a meados do século 1, a datação deixa de ser o argumento decisivo e passa a ser a teologia. O dito 114, com Maria que precisa 'tornar-se homem' para entrar no Reino, e a salvação pela gnose em vez da morte e ressurreição, eram incompatíveis com a regra de fé das igrejas que o rejeitaram. Ou seja: onde a datação não bastava para excluir, a doutrina bastava. Isso não é conspiração, é seleção, mas é seleção com conteúdo, não só com calendário.

A conclusão que a evidência sustenta é menos heroica para os dois lados. Não houve fogueira sistemática: o episódio de Serapião de Antioquia, que primeiro libera o Evangelho de Pedro e depois o recolhe ao farejar docetismo, é avaliação e veto litúrgico, não perseguição. E Nag Hammadi, em 1945, foi muito provavelmente escondido por quem amava aqueles textos, não emparedado pela Igreja oficial. Mas também não houve um discernimento asséptico que apenas separou o antigo do tardio. A corrente proto-ortodoxa venceu rivais reais, definiu o cânon e marginalizou as concorrentes, como a própria página reconhece ao citar Irineu refutando Judas por volta de 180. A leitura mais defensável é dupla: a datação resolve a maioria dos casos de forma legítima, porque tardio e secundário é um veredito factual; mas onde a datação titubeia, foi a doutrina que decidiu, e quem decidiu foi o lado que sobreviveu para escrever a história. Inerrância e revelação ditada não entram na conta aqui: o que se vê é um processo humano de comunidades escolhendo seus livros, e isso já é suficientemente interessante sem mistificação.

Apologista Evidencial

A datação é evidência, não censura: os apócrifos ficaram fora porque chegaram tarde demais para serem apostólicos, e o filtro doutrinário só agiu sobre o que o filtro histórico já havia colocado em segundo plano.

É honesto reconhecer o que a página afirma sem rodeios: o cristianismo dos primeiros séculos era plural, a corrente proto-ortodoxa venceu, definiu o cânon e marginalizou as concorrentes. Negar isso seria propaganda, não apologética. Mas o falso dilema entre 'juízo histórico' e 'juízo doutrinário' desmonta quando se olha a ordem dos fatores. A própria tabela de datação da página faz o trabalho pesado: os quatro canônicos entre cerca de 65 e 100 d.C., os apócrifos do século 2 em diante, alguns medievais. Isso não é uma alegação confessional, é o consenso da crítica textual, e foi estabelecido em boa parte por estudiosos sem agenda eclesiástica. Mark Goodacre, longe de ser um apologista, demonstrou em 'Thomas and the Gospels' que o Evangelho de Tomé conhece a redação específica de Mateus e Lucas, reproduzindo arranjos sequenciais que pressupõem os Sinópticos. O filtro histórico, portanto, não foi inventado para justificar a exclusão: ele é verificável independentemente de qualquer juízo de fé.

O caso de Serapião de Antioquia, que a página vizinha cita corretamente, mostra como os dois critérios se relacionam na prática. Por volta do ano 200, Serapião primeiro autorizou a leitura do Evangelho de Pedro em Rhossos, e só depois, ao examinar o texto de perto (Eusébio, História Eclesiástica 6.12), recuou ao encontrar nele o traço docético, o Cristo que na cruz 'silenciava como quem não sente dor'. Repare na sequência: houve leitura, exame e juízo, não veto reflexo. O critério doutrinário operou sobre um texto que o critério de origem já tornava suspeito, um evangelho do século 2 atribuído a Pedro mas que Serapião mesmo declarou não ser dele. A regra de fé não foi um carimbo arbitrário aplicado a textos igualmente antigos e apostólicos; ela atuou justamente onde a apostolicidade real já era frágil. Apostolicidade, antiguidade e uso litúrgico, os três critérios que a página lista, convergiam, não competiam.

O que fica genuinamente em aberto, e seria desonesto fechar, é se a teologia da corrente vencedora estava certa. A datação prova que Tomé, Pedro e Judas são secundários no tempo; não prova que o Cristo gnóstico seja falso e o Cristo encarnado verdadeiro. Esse é um juízo teológico que a arqueologia e a paleografia não decidem, e o apologista que finge o contrário trapaceia. O que a evidência decide é mais modesto e mais firme: a exclusão não foi um complô que apagou testemunhos tão antigos quanto os canônicos, porque tais testemunhos, com a possível exceção do núcleo mais antigo de alguns ditos de Tomé, simplesmente não existem no registro. A página acerta ao inverter o sentido de 'escondido' em Nag Hammadi: os textos foram enterrados por quem os amava, não emparedados pela Igreja. A corrente proto-ortodoxa venceu uma disputa real, mas venceu defendendo os documentos mais antigos que possuía, não suprimindo rivais de igual antiguidade. A fé não resolve quem tinha razão sobre Jesus; a história resolve quem chegou primeiro, e não foram os apócrifos.