Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
A exclusão dos gnósticos foi sobretudo discernimento de datação, e isso enfraquece o complô mas não santifica o cânon.
A página acerta no diagnóstico mais importante, e vale insistir nele: rejeição não é proibição. O caso de Serapião de Antioquia diante do Evangelho de Pedro, por volta do ano 200, é exemplar justamente porque mostra o oposto da censura policial. Ele primeiro autoriza a leitura, depois examina o texto, encontra o traço docético (Cristo na cruz 'como quem não sente dor', evangelho-pedro 1:10) e só então recolhe a permissão litúrgica. Isso é trabalho crítico, não inquisição. E aqui a evidência, inconvenientemente para a tese do complô, recai sobre o lado da proto-ortodoxia: quando datamos os textos de Nag Hammadi, Tomé, Filipe, Judas, Maria, eles se ancoram nos séculos 2, 3 e 4, gerações ou séculos depois das testemunhas. Irineu já citava um Evangelho de Judas por volta de 180 e o ligava a um grupo setiano. Chamar de 'verdade suprimida' um texto que ninguém consegue ancorar no século 1 é projetar antiguidade onde a paleografia não autoriza.
Dito isso, é desonesto deixar a balança parada aí, e a própria página tem o cuidado de não fazê-lo. Houve supressão real, e ela aumenta de grau exatamente quando o cristianismo deixa de ser perseguido e vira religião do Império, no século 4. A jarra de Nag Hammadi enterrada por volta dessa época não é folclore: é o gesto material de quem amava aqueles códices e temia possuí-los. O detalhe que inverte o clichê é quem escondeu. Foram os apreciadores, monges provavelmente, salvando os textos da destruição, e não a Igreja oficial emparedando-os num cofre. A palavra 'escondido' tem base, mas o vetor é o contrário do que o documentário sugere. O que isso prova é modesto e honesto ao mesmo tempo: o pluralismo cristão dos primeiros séculos era real, a corrente vencedora definiu o cânon, e definir um cânon é, por construção, marginalizar concorrentes. Negar essa dimensão de poder seria tão ingênuo quanto o complô que ela quer combater.
Onde discordo de qualquer leitura apologética rápida é no salto que vai de 'estes textos são tardios' para 'logo o cânon é a revelação intacta'. São duas afirmações diferentes, e a segunda não decorre da primeira. O critério de datação que reprova Tomé e Judas é um critério histórico, e o historiador o aplica nos dois sentidos. O mesmo Novo Testamento que rejeitou esses evangelhos cita sem pudor uma fonte que ele próprio não canonizou: a Epístola de Judas reproduz a profecia de 1 Enoque 1:9 em Jd 1:14, palavra por palavra, atribuindo-a ao patriarca. A fronteira entre dentro e fora do cânon, portanto, sempre foi mais porosa do que a tese da 'tradição apostólica pura' admite. A conclusão sóbria é dupla: os gnósticos perderam por serem tardios e estranhos à pregação mais antiga, e isso é discernimento legítimo, não conspiração; mas o cânon vencedor é produto de um processo humano de seleção, debate e poder, não um bloco entregue pronto. Reconhecer as duas coisas ao mesmo tempo é o que separa a história da torcida.
A rejeição dos evangelhos gnósticos foi discernimento documentado por critérios de data e origem, não censura do "vencedor": eles perdem antes da política, no terreno histórico.
A página acerta no ponto mais importante, e convém repeti-lo sem rodeios: rejeitar não é proibir, e o caso de Serapião de Antioquia com o Evangelho de Pedro é o modelo de como a coisa de fato funcionava. Por volta do ano 200, Serapião primeiro libera a leitura, depois examina o texto de perto, encontra traços docéticos (o Cristo que sofre "como quem não sente dor", evangelho-pedro1:10) e só então recolhe a permissão. Repare na ordem dos fatos: ele lê, avalia o conteúdo contra a regra de fé que já recebera, e decide. Isso é o oposto de uma máquina de poder apagando concorrentes por decreto. É um bispo aplicando um critério teológico explícito a um texto que ele teve em mãos. A própria narrativa de "complô" depende de ignorar que esse procedimento de discernimento está documentado pelos próprios cristãos, sem constrangimento, séculos antes de o Império ter qualquer poder sobre o assunto.
Onde a página reconhece supressão real, eu reconheço junto, mas o detalhe inverte o sentido da palavra. Os códices de Nag Hammadi de 1945 foram enterrados, ao que tudo indica, por monges que apreciavam esses textos e quiseram salvá-los, não emparedados num cofre eclesiástico. E a datação é o nervo de tudo: Irineu já menciona e refuta um Evangelho de Judas por volta de 180 d.C., atribuindo-o aos cainitas, o que ancora a obra no século 2, gerações depois das testemunhas. Tomé e Maria caem na mesma janela tardia; Filipe é ainda mais recente. O argumento proto-ortodoxo central, articulado por estudiosos como Richard Bauckham e N.T. Wright, é simples e verificável: os quatro canônicos têm cadeia de atribuição apostólica e citação universal já no início do século 2, enquanto os gnósticos pressupõem os Sinópticos (Tomé reescreve a parábola do grão de mostarda de Mt 13:31-32, a lâmpada de Lc 11:33) e carregam uma cosmologia, o mundo material como cadáver, a salvação pela gnose, que é estranha tanto ao judaísmo do Segundo Templo quanto à pregação apostólica mais antiga. A marginalização foi, em primeiro lugar, um juízo de origem e data, e só secundariamente de doutrina.
Dito isso, a honestidade evidencial exige não exagerar a própria vitória. O cristianismo dos primeiros séculos era genuinamente plural, o cânon foi uma escolha e não um dado caído do céu, e a corrente que venceu de fato escreveu a história que herdamos. Quando o Império entrou em cena no século 4, a posse de obras heréticas passou a ter consequências materiais, e isso é coerção, não só argumento. O que a evidência não sustenta é o salto do crítico popular: de "houve poder e seleção" para "logo a verdade histórica sobre Jesus estava do lado suprimido". Essas duas coisas são independentes. Um texto pode ser perseguido e ainda assim ser tardio, derivado e teologicamente alienígena à fé que diz representar, exatamente como o teste interno (Jd 1:14 cita 1 Enoque 1:9 sem que isso torne Enoque canônico, e Gn 6:5 julga o coração humano por um critério que o gnosticismo dissolve em cosmologia) mostra que a tradição sabia distinguir uso de autoridade. Fica em aberto, e é justo que fique, quanto de tradição antiga sobre ditos de Jesus Tomé possa preservar nas suas camadas mais primitivas. O que não fica em aberto é a tese conspiratória: ela não sobrevive ao exame das datas que a própria página apresenta.