Um evangelho sem narrativa
O Evangelho de Tomé não conta uma história. Não tem nascimento, milagres, crucificação nem ressurreição. É uma coletânea de 114 ditos (os logia) atribuídos a "Jesus, o vivente", apresentados como palavras secretas cuja interpretação salva. A salvação, nele, vem do conhecimento (gnose) e do autoconhecimento, não da morte e ressurreição de Cristo.
1 Quem descobrir o sentidos dessas palavras, não provará a morte.
2 Quem procura, não cesse de procurar até achar; e, quando achar, será estupefato; e, quando estupefato, ficará maravilhado – e então terá domínio sobre o Universo.
3 Jesus disse: Se vossos guias vos disserem: ‘o reino está no céu’, então as aves vos precederam; se vos disserem que está no mar, então os peixes vos precederam. Mas o reino está dentro de vós, e também fora de vós. Se vos conhecerdes, sereis conhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. Mas, se não vos conhecerdes, vivereis em pobreza, e vós mesmos sereis essa pobreza.
Os ditos que ecoam os Sinópticos
Boa parte dos logia tem paralelo claro nos evangelhos canônicos, às vezes quase palavra por palavra, às vezes numa versão mais enxuta ou ligeiramente diferente. Lado a lado, dá para ver tanto a proximidade quanto o desvio. Tomé conhece a parábola do grão de mostarda, o dito sobre não acender a lâmpada para escondê-la, a censura aos que pregam sem praticar.
31 Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao grão de mostarda que o homem, pegando nele, semeou no seu campo;
32 O qual é, realmente, a menor de todas as sementes; mas, crescendo, é a maior das plantas, e faz-se uma árvore, de sorte que vêm as aves do céu, e se aninham nos seus ramos.
33 E ninguém, acendendo uma candeia, a põe em oculto, nem debaixo do alqueire, mas no velador, para que os que entram vejam a luz.
A presença desses ditos próximos dos Sinópticos é o que torna Tomé tão discutido: para alguns, ele preserva uma tradição de ditos antiga, paralela à fonte que está por trás de Mateus e Lucas; para outros, ele recolhe e reescreve material já conhecido dos evangelhos.
Os ditos que destoam
Outros logia não têm paralelo canônico e revelam a cor gnóstica do texto: o mundo material como cadáver, o corpo como pobreza, a necessidade de "tornar-se um" e de unir o interior ao exterior. O caso mais célebre é o dito final, em que Pedro quer afastar Maria "porque as mulheres não são dignas da vida", e Jesus responde que a fará "tornar-se homem" para entrar no Reino, linguagem simbólica do gnosticismo sobre a superação do feminino e do material.
114 Simão Pedro disse: Seja Maria afastada de nós, porque as mulheres não são dignas da vida.Respondeu Jesus: Eis que eu a atrairei, para que ela se torne homem, de modo que também ela venha a ser um espírito vivente, semelhante a vós homens. Porque toda a mulher que se fizer homem entrará no Reino dos céus.
Datação e manuscritos
O texto completo só existe numa tradução copta encontrada em Nag Hammadi, copiada por volta do século 4. Mas fragmentos gregos achados antes, em Oxirrinco, mostram que o texto circulava bem antes. A datação do núcleo divide os estudiosos: as propostas vão de meados do século 1, o que o tornaria potencialmente tão antigo quanto os Sinópticos, até o século 2, como compilação tardia que já pressupõe os evangelhos canônicos. É exatamente essa janela que faz de Tomé o apócrifo mais valioso e mais debatido de todos.