Doença tinha nome e endereço
Na Mesopotâmia antiga, uma doença não era um processo orgânico: era um agente. Cada enfermidade tinha um demônio responsável com nome, forma e modo de operar. Lamastu, a demônia com cabeça de leoa e dentes de jumento, era a causa nomeada da febre, do tétano e da morte súbita de recém-nascidos. Contra ela, gestantes penduravam amuletos com a cabeça de Pazuzu no pescoço, invocando um demônio contra o outro, porque Pazuzu era inimigo de Lamastu. Asakku causava epilepsia e febre. Namtaru espalhava pragas. Cada sintoma tinha seu responsável espiritual, e reconhecer quem havia atacado era o primeiro passo da cura.

O asipu: médico e exorcista ao mesmo tempo
Os textos cuneiformes documentam dois tipos de curandeiros, ambos reconhecidos e respeitados: o asu, que tratava sintomas com fármacos e plantas medicinais, e o asipu, cuja primeira tarefa diante de uma doença interna era diagnosticar qual deus ou demônio a causara, para então combatê-lo com encantamento e ritual. Não havia hierarquia entre os dois: os mesopotâmicos não viam o asu como médico "de verdade" e o asipu como charlatão. No primeiro milênio a.C. a fronteira entre as duas profissões ficou ainda mais difusa, e a mesma pessoa podia exercer as duas funções. Curar e exorcizar eram especialidades vizinhas do mesmo sistema de saúde.
O protocolo do asipu era elaborado. Um encantamento acádico contra Lamastu, preservado em tábuas, exige uma figurinha de argila, oferenda de pão, água derramada, um cão preto carregando o objeto, coração de leitão na boca, recitação tripla por dia durante três dias e enterro junto ao muro ao anoitecer do terceiro dia. A sanção vinha sempre de um deus invocado contra outro poder: curar era, literalmente, vencer uma batalha espiritual com o arsenal correto.
Em Ugarit, as potências do caos
Ao norte, nos textos alfabéticos cuneiformes de Ugarit (séc. 14-13 a.C., atual Síria), numa língua aparentada ao hebraico, o mesmo edifício tem outro andar. O Ciclo de Baal, o conjunto de tábuas de argila mais extenso da literatura cananeia, mostra as potências anti-cósmicas como personagens ativos: Yam, o mar caótico, quer dominar os deuses, e Mot, a Morte personificada, engole o próprio Baal, o deus da tempestade e da fertilidade. Nesse universo, a Morte não é um estado passivo: é um inimigo com boca e garganta.
19 Um lábio na terra e outro no céu,
20 ele estica a língua até as estrelas.
21 Baal entra na boca dele,
22 desce por sua garganta como um bolo de azeitona,
23 como o produto da terra e o fruto das árvores.
A relevância não é que a Bíblia copiou Ugarit. É que o vocabulário cósmico de Canaã, a Morte como adversário ativo, o caos como força que precisa ser subjugada, é o solo semântico de onde brota a linguagem bíblica posterior sobre forças hostis. Israel respirou esse ar por séculos antes de qualquer dos profetas escrever.
Por que curar e expulsar se sobrepõem nos Evangelhos
Esse contexto explica o que muitas vezes parece confuso nos Evangelhos: Jesus curar e expulsar demônios no mesmo gesto. A mulher que estava encurvada havia dezoito anos não é descrita como doente, mas como tendo um "espírito de enfermidade", e Jesus diz que Satanás a mantinha presa. O menino com convulsões que não falava é descrito como dominado por um espírito que o lança ao fogo e à água. A possessão se manifesta como doença; a cura é uma expulsão. Para um observador do primeiro século, formado no mesmo mapa cognitivo do Oriente, essa dupla não era estranha. Era o único modo de falar de certas aflições.
10 E ensinava no sábado, numa das sinagogas.
11 E eis que estava ali uma mulher que tinha um espírito de enfermidade, havia já dezoito anos; e andava curvada, e não podia de modo algum endireitar-se.
12 E, vendo-a Jesus, chamou-a a si, e disse-lhe: Mulher, estás livre da tua enfermidade.
13 E pôs as mãos sobre ela, e logo se endireitou, e glorificava a Deus.
14 E, tomando a palavra o príncipe da sinagoga, indignado porque Jesus curava no sábado, disse à multidão: Seis dias há em que é mister trabalhar; nestes, pois, vinde para serdes curados, e não no dia de sábado.
15 Respondeu-lhe, porém, o Senhor, e disse: Hipócrita, no sábado não desprende da manjedoura cada um de vós o seu boi, ou jumento, e não o leva a beber?
16 E não convinha soltar desta prisão, no dia de sábado, esta filha de Abraão, a qual há dezoito anos Satanás tinha presa?
17 E, dizendo ele isto, todos os seus adversários ficaram envergonhados, e todo o povo se alegrava por todas as coisas gloriosas que eram feitas por ele.
17 E um da multidão, respondendo, disse: Mestre, trouxe-te o meu filho, que tem um espírito mudo;
18 E este, onde quer que o apanhe, despedaça-o, e ele espuma, e range os dentes, e vai definhando; e eu disse aos teus discípulos que o expulsassem, e não puderam.
19 E ele, respondendo-lhes, disse: Ó geração incrédula! até quando estarei convosco? até quando vos sofrerei ainda? Trazei-mo.
20 E trouxeram-lho; e quando ele o viu, logo o espírito o agitou com violência, e, caindo o endemoninhado por terra, revolvia-se, escumando.
21 E perguntou ao pai dele: Quanto tempo há que lhe sucede isto? E ele disse-lhe: Desde a infância.
22 E muitas vezes o tem lançado no fogo, e na água, para o destruir; mas, se tu podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós, e ajuda-nos.