O geraseno e os porcos

Um lugar com três nomes

O episódio do endemoninhado e da manada de porcos traz um problema geográfico antigo. Os três Evangelhos e os manuscritos não concordam sobre onde a cena aconteceu. Há três leituras em circulação: gerasenos, gadarenos e gergesenos. O texto crítico, baseado nos manuscritos mais antigos, traz "gerasenos" em Marcos e Lucas. A tradição bizantina, que está por trás da Almeida Corrigida Fiel, traz "gadarenos" em Marcos e Lucas e "gergesenos" em Mateus.

O problema é de distância. Gerasa, a atual Jerash, fica a uns cinquenta quilômetros do mar da Galileia, longe demais para uma manada se precipitar no lago. Gadara fica mais perto, a uns dez quilômetros, e seu território talvez chegasse à margem. Gergesa, a atual Kursi, é a única situada na própria beira do lago. Já no século 3 o teólogo Orígenes notou a dificuldade e defendeu que o lugar correto seria Gergesa.

Um ou dois endemoninhados

Há ainda outra divergência entre os relatos. Mateus fala em dois endemoninhados, enquanto Marcos e Lucas concentram a narrativa em um só, descrito em grande detalhe. É uma das diferenças clássicas entre as versões sinóticas do mesmo episódio.

Por que porcos

A presença de uma grande manada de porcos é, ela mesma, um dado de cenário. O porco é animal impuro na lei de Israel, e criá-lo aos milhares só fazia sentido em território de população gentia, como era a região da Decápole, na margem oriental do lago. O ambiente todo, sepulcros, porcos e espíritos imundos, é uma zona de impureza.

A manada e a Legião

O nome que o espírito dá é "Legião", o termo de uma unidade militar romana, "porque somos muitos". Os demônios pedem para entrar na manada, que se precipita no mar: cerca de dois mil porcos se afogam. A cena tem mais de uma camada. Há a ironia de que os espíritos destroem aquilo que ocupam. Há o prejuízo econômico, que leva a cidade a pedir que Jesus vá embora. E há a leitura, defendida por parte dos estudiosos e que convém manter como hipótese, de que o vocabulário militar de "Legião" e o afogamento da manada no mar funcionam como uma imagem da derrota de um poder de ocupação.

O endemoninhado geraseno com correntes partidas, entre túmulos e porcos, à beira do mar
O endemoninhado "Legião", entre os túmulos e a manada de porcos.

11 E andava ali pastando no monte uma grande manada de porcos.

12 E todos aqueles demônios lhe rogaram, dizendo: Manda-nos para aqueles porcos, para que entremos neles.

13 E Jesus logo lho permitiu. E, saindo aqueles espíritos imundos, entraram nos porcos; e a manada se precipitou por um despenhadeiro no mar (eram quase dois mil), e afogaram-se no mar.

14 E os que apascentavam os porcos fugiram, e o anunciaram na cidade e nos campos; e saíram muitos a ver o que era aquilo que tinha acontecido.

15 E foram ter com Jesus, e viram o endemoninhado, o que tivera a legião, assentado, vestido e em perfeito juízo, e temeram.

16 E os que aquilo tinham visto contaram-lhes o que acontecera ao endemoninhado, e acerca dos porcos.

17 E começaram a rogar-lhe que saísse dos seus termos.