Cartago, o maniqueísmo e Cícero: a juventude de Agostinho

Cartago, o caldeirão

Aos dezessete anos, Agostinho foi estudar em Cartago, a grande cidade do norte da África. A frase com que descreve a chegada virou célebre: caiu num caldeirão de amores torpes. Era jovem, talentoso e faminto de prazer e de fama. Ali começou um relacionamento longo, teve um filho e mergulhou na vida que depois lamentaria.

1 Cheguei a Cartago, e ao meu redor crepitava por toda parte uma frigideira de amores torpes. Ainda não amava, e amava amar, e, por uma carência mais secreta, odiava-me a mim mesmo por carecer menos. Buscava o que pudesse amar, amando o amar, e odiava a segurança e o caminho sem armadilhas, pois dentro de mim havia uma fome do alimento interior, de Vós mesmo, meu Deus; e dessa fome eu não tinha fome, mas estava sem desejo dos alimentos incorruptíveis, não porque deles estivesse cheio, mas porque, quanto mais vazio, mais enfastiado. E por isso a minha alma não andava bem de saúde e, chagada, lançava-se para fora, miseravelmente ávida de ser coçada pelo contato das coisas sensíveis. Mas se elas não tivessem alma, certamente não seriam amadas. Amar e ser amado era-me doce, e mais ainda se eu gozasse também do corpo de quem amava. Eu maculava, pois, a veia da amizade com as imundícies da concupiscência, e enublava o seu brilho com o tártaro da libido; e, no entanto, sórdido e desonesto, eu ansiava por ser elegante e cortês, por abundante vaidade. Lancei-me também naquele amor pelo qual desejava ser capturado. Meu Deus, minha misericórdia, com quanto fel aspergistes para mim aquela doçura, e quão bondoso o fizestes, pois fui amado, e cheguei ocultamente ao vínculo do gozo, e era ligado, alegre, com laços angustiosos, para ser açoitado com varas de ferro ardentes do ciúme, das suspeitas, dos temores, das iras e das rixas.

A primeira faísca: Cícero

No meio dessa vida, um livro o atravessou. Lendo o Hortênsio, uma obra hoje perdida do orador romano Cícero, Agostinho foi tomado pelo amor à sabedoria, ao saber pelo saber. Não era ainda fé cristã; era a descoberta de que havia algo mais alto que prazer e dinheiro. Esse desejo nunca mais o largou, e é a linha que conecta cada etapa da busca dele.

7 Entre tais homens, naquela idade ainda inconstante, eu aprendia os livros da eloquência, na qual desejava sobressair, com um fim condenável e vaidoso, pelo gozo da vaidade humana. E, pela ordem habitual dos estudos, eu chegara a um livro de um certo Cícero, cuja língua quase todos admiram, mas o coração não tanto. Esse livro, porém, contém uma exortação à filosofia e chama-se "Hortênsio". Ora, aquele livro mudou o meu afeto, e para Vós mesmo, Senhor, mudou as minhas preces, e fez outros os meus votos e desejos. De repente toda esperança se aviltou para mim, e eu cobiçava a imortalidade da sabedoria com um incrível ardor do coração, e começava a levantar-me para retornar a Vós. Pois não era para aguçar a língua, coisa que eu parecia comprar com os recursos de minha mãe, quando cursava o décimo nono ano de idade, morto meu pai dois anos antes, não era, portanto, para aguçar a língua que eu lia aquele livro: não foi o modo de falar, mas o que ele dizia que me persuadiu.

O desvio: o maniqueísmo

Faminto por respostas, Agostinho aderiu ao maniqueísmo, uma seita que dividia o universo entre dois deuses eternos, um do bem e um do mal, em guerra. A doutrina o seduziu por quase dez anos porque parecia explicar o sofrimento sem culpar o homem: se o mal é uma força externa, eu não sou responsável por ele. Mais tarde Agostinho enxergaria nisso justamente a armadilha, e a recusa do dualismo maniqueu seria uma das chaves da conversão.