Confissões - Livro III 4

Livro III: Cartago, a leitura do Hortênsio de Cícero e a sedução do maniqueísmo

Entre tais homens, naquela idade ainda inconstante, eu aprendia os livros da eloquência, na qual desejava sobressair, com um fim condenável e vaidoso, pelo gozo da vaidade humana. E, pela ordem habitual dos estudos, eu chegara a um livro de um certo Cícero, cuja língua quase todos admiram, mas o coração não tanto. Esse livro, porém, contém uma exortação à filosofia e chama-se "Hortênsio". Ora, aquele livro mudou o meu afeto, e para Vós mesmo, Senhor, mudou as minhas preces, e fez outros os meus votos e desejos. De repente toda esperança se aviltou para mim, e eu cobiçava a imortalidade da sabedoria com um incrível ardor do coração, e começava a levantar-me para retornar a Vós. Pois não era para aguçar a língua, coisa que eu parecia comprar com os recursos de minha mãe, quando cursava o décimo nono ano de idade, morto meu pai dois anos antes, não era, portanto, para aguçar a língua que eu lia aquele livro: não foi o modo de falar, mas o que ele dizia que me persuadiu.