Confissões - Livro III 1
Livro III: Cartago, a leitura do Hortênsio de Cícero e a sedução do maniqueísmo
Cheguei a Cartago, e ao meu redor crepitava por toda parte uma frigideira de amores torpes. Ainda não amava, e amava amar, e, por uma carência mais secreta, odiava-me a mim mesmo por carecer menos. Buscava o que pudesse amar, amando o amar, e odiava a segurança e o caminho sem armadilhas, pois dentro de mim havia uma fome do alimento interior, de Vós mesmo, meu Deus; e dessa fome eu não tinha fome, mas estava sem desejo dos alimentos incorruptíveis, não porque deles estivesse cheio, mas porque, quanto mais vazio, mais enfastiado. E por isso a minha alma não andava bem de saúde e, chagada, lançava-se para fora, miseravelmente ávida de ser coçada pelo contato das coisas sensíveis. Mas se elas não tivessem alma, certamente não seriam amadas. Amar e ser amado era-me doce, e mais ainda se eu gozasse também do corpo de quem amava. Eu maculava, pois, a veia da amizade com as imundícies da concupiscência, e enublava o seu brilho com o tártaro da libido; e, no entanto, sórdido e desonesto, eu ansiava por ser elegante e cortês, por abundante vaidade. Lancei-me também naquele amor pelo qual desejava ser capturado. Meu Deus, minha misericórdia, com quanto fel aspergistes para mim aquela doçura, e quão bondoso o fizestes, pois fui amado, e cheguei ocultamente ao vínculo do gozo, e era ligado, alegre, com laços angustiosos, para ser açoitado com varas de ferro ardentes do ciúme, das suspeitas, dos temores, das iras e das rixas.