Ambrósio de Milão e os livros dos platônicos: a virada de Agostinho

O bispo que o desarmou

Em Milão, Agostinho conheceu Ambrósio, o bispo da cidade, um dos maiores pregadores da época. Foi ouvindo Ambrósio que ele começou a perceber que o cristianismo não era a fé ingênua que imaginava: havia ali uma profundidade que o maniqueísmo não tinha. Curiosamente, o que mais o impressionou foi um detalhe pequeno: Ambrósio lia em silêncio, os olhos correndo a página sem mover os lábios, algo raro o bastante naquele tempo para Agostinho registrar com espanto.

3 Nem gemia orando para que me socorrésseis, mas o meu ânimo estava intento em buscar e inquieto em discutir; e ao próprio Ambrósio eu reputava um homem feliz segundo o século, que tamanhas potestades o honravam: somente o seu celibato me parecia penoso. Mas que esperança ele trazia consigo, e que luta travava contra as tentações da própria excelência, ou que consolo nas adversidades, e que alegrias saborosas a boca oculta dele, que estava em seu coração, ruminava do vosso pão, isto eu nem sabia conjecturar nem o experimentara; nem ele conhecia os meus ardores nem o fosso do meu perigo. Pois não podia perguntar-lhe o que queria, como queria, que me apartavam do seu ouvido e da sua boca as turbas de homens ocupados, a cujas fraquezas ele servia. Quando não estava com eles, o que era pouquíssimo tempo, ou refazia o corpo com os sustentos necessários ou o ânimo com a leitura. Mas quando lia, os olhos eram conduzidos pelas páginas e o coração perscrutava o sentido, ao passo que a voz e a língua repousavam. Muitas vezes, quando ali estávamos (pois a ninguém se proibia entrar, nem era costume anunciar-lhe quem chegava), assim o víamos ler em silêncio, e nunca de outro modo; e, sentados em longo silêncio (pois quem ousaria perturbar tão intenta aplicação?), retirávamo-nos, conjecturando que, naquele pouco tempo que conseguia para refazer o seu espírito, livre do estrépito das causas alheias, não queria ser desviado para outra coisa, e acautelava-se talvez de que, estando o ouvinte suspenso e atento, se o autor que lia tivesse posto algo de modo mais obscuro, fosse necessário também expô-lo ou discorrer sobre questões mais difíceis, e, gasto o tempo nesse trabalho, percorresse menos volumes do que desejava; embora também a razão de preservar a voz, que muito facilmente se lhe enrouquecia, pudesse ser causa mais justa de ler em silêncio. Mas com qualquer intenção que o fizesse, certamente aquele homem o fazia para o bem.

Os livros dos platônicos

Outra peça caiu no lugar quando Agostinho leu certos livros de filósofos platônicos. Eles lhe deram algo que faltava: a ideia de uma realidade espiritual, imaterial, que o maniqueísmo, preso ao mundo físico, não concebia. Por eles Agostinho passou a entender que Deus não é uma matéria sutil espalhada pelo espaço, mas Espírito. Foi um avanço enorme, e ao mesmo tempo incompleto: a filosofia lhe mostrou o destino, mas não o caminho, que para ele só Cristo daria.

13 E primeiro, querendo mostrar-me como resistis aos soberbos e dais graça aos humildes, e com quanta misericórdia vossa foi demonstrada aos homens o caminho da humildade, porquanto vosso Verbo se fez carne e habitou entre os homens, providenciastes para mim, por meio de certo homem inchado de monstruosíssima soberba, alguns livros dos platônicos vertidos da língua grega para a latina. E ali li, não decerto com estas palavras, mas exatamente isto mesmo, persuadido por muitas e múltiplas razões, que no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Este estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. O que nele foi feito é vida, e a vida era a luz dos homens; e a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. E que a alma do homem, ainda que testemunho da luz, não é contudo ela mesma a luz, mas o Verbo, Deus, é a verdadeira luz que ilumina todo homem que vem a este mundo. E que ele estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. Mas que veio para o que era seu, e os seus não o receberam; e que a todos quantos o receberam, deu poder de se tornarem filhos de Deus, aos que creem no seu nome: isto ali não li.

Faltava o último passo. Agostinho já estava convencido pela razão, mas não conseguia mudar de vida. Sabia o que era certo e não tinha forças para querer de fato. Essa guerra entre a mente que entende e a vontade que resiste é o tema da próxima página, a cena da conversão.