Contra Celso - Livro V 4

Anjos, ressurreição e o culto a um só Deus

Parece-me, de fato, que Celso compreendeu mal algumas das razões mais profundas relativas à organização dos assuntos terrestres, algumas das quais são tocadas até na história grega, quando se apresentam certos dos que são tidos por deuses como tendo disputado entre si a posse da Ática; ao passo que, também nos escritos dos poetas gregos, alguns que são chamados deuses são representados reconhecendo que certos lugares aqui são por eles preferidos a outros. A história das nações bárbaras, além disso, e especialmente a do Egito, contém algumas alusões desse tipo à divisão dos chamados nomos egípcios, quando afirma que Atena, que obteve Saís por sorte, é a mesma que também possui a Ática. E os sábios entre os egípcios podem enumerar inumeráveis exemplos desse tipo, embora eu não saiba se incluem os judeus e seu país nessa divisão. E agora, no que se refere a testemunhos de fora da palavra de Deus relativos a este ponto, foram apresentados o bastante por ora. Dizemos, ademais, que nosso profeta de Deus e seu genuíno servo Moisés, em seu cântico no livro de Deuteronômio, faz uma afirmação sobre a repartição da terra nos seguintes termos: Quando o Altíssimo dividiu as nações, quando dispersou os filhos de Adão, fixou os limites dos povos segundo o número dos anjos de Deus; e a porção dele foi seu povo Jacó, e Israel o cordel de sua herança. E, sobre a distribuição das nações, o mesmo Moisés, em sua obra intitulada Gênesis, exprime-se assim no estilo de uma narrativa histórica: E toda a terra tinha uma língua e uma fala; e aconteceu que, partindo eles do oriente, acharam uma planície na terra de Sinar, e ali habitaram. Um pouco adiante ele continua: E desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam. E disse o Senhor: Eis que o povo é um, e todos têm uma língua; e isto é o que começam a fazer: e agora nada lhes será vedado do que imaginarem fazer. Vinde, desçamos, e confundamos ali a língua deles, para que não entendam a fala uns dos outros. E o Senhor os espalhou dali sobre a face de toda a terra: e cessaram de edificar a cidade e a torre. Por isso se chama o nome dela Confusão; porque ali confundiu o Senhor a língua de toda a terra: e dali os espalhou o Senhor sobre a face de toda a terra. No tratado de Salomão sobre a Sabedoria, ademais, e sobre os acontecimentos no tempo da confusão das línguas, quando se deu a divisão da terra, encontramos o seguinte a respeito da Sabedoria: Além disso, estando as nações confundidas em sua conspiração perversa, ela encontrou o justo e o conservou irrepreensível diante de Deus, e o manteve forte em sua terna compaixão para com o filho. Mas sobre esses assuntos muito, e de tipo místico, poderia ser dito; em harmonia com o seguinte: É bom guardar em segredo o segredo de um rei, para que a doutrina da entrada das almas nos corpos (não, no entanto, a da transmigração de um corpo para outro) não seja lançada diante do entendimento comum, nem o que é santo seja dado aos cães, nem se lancem pérolas aos porcos. Pois tal procedimento seria ímpio, equivalente a uma traição das declarações misteriosas da sabedoria de Deus, da qual bem se disse: Em uma alma maliciosa a sabedoria não entrará, nem habitará num corpo sujeito ao pecado. Basta, no entanto, representar no estilo de uma narrativa histórica o que se destina a transmitir um sentido secreto sob as vestes da história, para que os que têm capacidade desenvolvam por si mesmos tudo o que se relaciona com o assunto. (A narrativa, então, pode ser entendida da seguinte forma.)