Contra Celso - Livro V 3
Anjos, ressurreição e o culto a um só Deus
Mas, já que nossas opiniões a respeito da ressurreição foram, na medida em que o tempo permitiu, expostas em parte na presente ocasião (pois examinamos o assunto de modo sistemático e com mais detalhe em outras partes de nossos escritos), e como agora devemos, por meio de um raciocínio sólido, refutar as falácias de Celso, que nem entende o sentido de nossa Escritura, nem tem a capacidade de julgar que o sentido de nossos homens sábios não há de ser determinado por aqueles indivíduos que não professam nada além de uma fé (simples) no sistema cristão, mostremos que homens, que não devem ser tidos em pouca conta por causa de seu poder de raciocínio e de suas sutilezas dialéticas, deram expressão a opiniões muito absurdas. E, se devemos zombar deles como contos desprezíveis de velhas, é deles, antes que de nossa narrativa, que devemos zombar. Os discípulos do Pórtico afirmam que, depois de um período de anos, haverá uma conflagração do mundo, e depois disso um arranjo das coisas em que tudo será inalterado, em comparação com o arranjo anterior do mundo. Aqueles dentre eles, contudo, que demonstraram respeito por esta doutrina disseram que haverá uma mudança, ainda que extremamente leve, no fim do ciclo, em relação ao que prevalecia no anterior. E esses homens sustentam que, no ciclo seguinte, ocorrerão as mesmas coisas, e Sócrates será de novo o filho de Sofronisco, e natural de Atenas; e Fenarete, casada com Sofronisco, tornará a ser sua mãe. E, embora não mencionem a palavra ressurreição, mostram na prática que Sócrates, que derivou sua origem de uma semente, brotará da de Sofronisco, e será formado no ventre de Fenarete; e, criado em Atenas, praticará o estudo da filosofia, como se sua filosofia anterior tivesse ressurgido, e não fosse em nada diferente do que era antes. Anito e Meleto, também, surgirão de novo como acusadores de Sócrates, e o Conselho do Areópago o condenará à morte! Mas o que é ainda mais ridículo é que Sócrates se vestirá com roupas em nada diferentes das que usou durante o ciclo anterior, e viverá no mesmo inalterado estado de pobreza, e na mesma inalterada cidade de Atenas! E Fálaris tornará a fazer-se tirano, e seu touro de bronze derramará seus mugidos a partir das vozes das vítimas em seu interior, sem mudança em relação aos que foram condenados no ciclo anterior! E Alexandre de Feras, também, tornará a agir como tirano, com uma crueldade inalterada em relação ao tempo anterior, e condenará à morte os mesmos indivíduos inalterados de antes. Mas que necessidade há de entrar em detalhe sobre a doutrina sustentada pelos filósofos estoicos a respeito de tais coisas, a qual escapa do ridículo de Celso, e talvez seja até venerada por ele, já que ele considera Zenão um homem mais sábio que Jesus?
Os discípulos de Pitágoras e de Platão, ainda que pareçam sustentar a incorruptibilidade do mundo, caem em erros semelhantes. Pois, segundo eles afirmam, assim como os planetas, depois de ciclos definidos, voltam às mesmas posições e mantêm entre si as mesmas relações, também todas as coisas sobre a terra serão como foram no tempo em que existiu no mundo aquele mesmo estado de relações planetárias. Dessa ideia se segue necessariamente que, quando, após um longo ciclo, os planetas voltarem a ocupar entre si as mesmas relações que tinham no tempo de Sócrates, Sócrates nascerá de novo dos mesmos pais e sofrerá o mesmo tratamento, sendo acusado por Ânito e Meleto e condenado pelo Conselho do Areópago. Os sábios entre os egípcios também sustentam ideias semelhantes, e ainda assim são tratados com respeito e não atraem o ridículo de Celso e dos que pensam como ele. Já nós, que sustentamos que todas as coisas são administradas por Deus na proporção em que se relacionam com o livre-arbítrio de cada indivíduo, e que estão sempre sendo conduzidas a uma condição melhor, na medida em que isso é possível, e que sabemos que a natureza do nosso livre-arbítrio admite a ocorrência de eventos contingentes (pois é incapaz de receber o caráter inteiramente imutável de Deus), nós não parecemos dizer nada digno de um exame rigoroso.
Que ninguém, no entanto, suspeite que, ao falar como falamos, pertencemos àqueles que de fato são chamados cristãos, mas que põem de lado a doutrina da ressurreição tal como é ensinada na Escritura. Pois essas pessoas não conseguem, dentro dos próprios princípios, estabelecer de modo algum que a haste ou a árvore que brota vem do grão de trigo, ou de qualquer outra coisa que foi lançada à terra. Nós, ao contrário, cremos que o que é semeado não ganha vida se não morrer, e que não se semeia o corpo que há de existir (pois Deus lhe dá um corpo como lhe agrada, levantando-o em incorrupção depois de semeado em corrupção; e depois de semeado em desonra, levantando-o em glória; e depois de semeado em fraqueza, levantando-o em poder; e depois de semeado corpo natural, levantando-o corpo espiritual). Assim preservamos tanto a doutrina da Igreja de Cristo quanto a grandeza da promessa divina, provando também a possibilidade de seu cumprimento não por mera afirmação, mas por argumentos. Sabemos que, embora o céu e a terra, e as coisas que neles há, possam passar, as palavras dele a respeito de cada coisa, sendo, como partes de um todo ou espécies de um gênero, as declarações daquele que era Deus, o Verbo, que no princípio estava com Deus, de modo nenhum passarão. Pois desejamos ouvir aquele que disse: O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão.
Não sustentamos, portanto, que o corpo que sofreu corrupção retoma sua natureza original, assim como o grão de trigo que apodreceu não retorna à sua condição anterior. Mas sustentamos que, assim como acima do grão de trigo se ergue uma haste, também certo poder é implantado no corpo, poder que não se destrói, e a partir do qual o corpo é levantado em incorrupção. Os filósofos do Pórtico, no entanto, em razão das opiniões que sustentam sobre a imutabilidade das coisas após certo ciclo, afirmam que o corpo, depois de sofrer corrupção completa, voltará à sua condição original e assumirá de novo aquela primeira natureza da qual passou a um estado de dissolução, estabelecendo esses pontos, como pensam, por argumentos irresistíveis. Nós, no entanto, não recorremos a um refúgio absurdíssimo, dizendo que para Deus todas as coisas são possíveis, pois sabemos como entender esta palavra todas como não se referindo a coisas inexistentes nem a coisas inconcebíveis. Mas sustentamos, ao mesmo tempo, que Deus não pode fazer o que é vergonhoso, pois então ele seria capaz de deixar de ser Deus; porque, se ele fizer algo vergonhoso, não é Deus. Já que, no entanto, Celso estabelece como princípio que Deus não deseja o que é contrário à natureza, temos de fazer uma distinção e dizer o seguinte: se alguém afirma que a maldade é contrária à natureza, ao passo que nós sustentamos que Deus não deseja o que é contrário à natureza (aquilo que nasce da maldade ou de um princípio irracional), ainda assim, se tais coisas acontecem segundo a palavra e a vontade de Deus, devemos imediatamente e por necessidade sustentar que elas não são contrárias à natureza. Portanto, as coisas que são feitas por Deus, embora possam ser, ou possam parecer a alguns ser, incríveis, não são contrárias à natureza. E, se devemos forçar o sentido das palavras, diríamos que, em comparação com o que geralmente se entende por natureza, há certas coisas que estão além do poder dela, coisas que Deus poderia fazer a qualquer momento; por exemplo, ao elevar o homem acima do nível da natureza humana e fazê-lo passar a uma condição melhor e mais divina, e mantê-lo nessa condição, enquanto aquele que é objeto de seu cuidado mostra por suas ações que deseja a continuação dessa ajuda.
Além disso, como já dissemos que Deus desejar algo impróprio de si mesmo destruiria sua existência como Divindade, acrescentamos que, se o homem, conforme a maldade de sua natureza, desejar algo abominável, Deus não pode concedê-lo. E não é por espírito de contenda que respondemos às afirmações de Celso, mas é no espírito da verdade que as investigamos, concordando com sua ideia de que Deus é o Deus não de desejos desordenados, nem do erro e da desordem, mas de uma natureza justa e reta, porque ele é a fonte de todo bem. E reconhecemos que ele é capaz de prover uma vida eterna para a alma; e que possui não só o poder, mas a vontade. Diante, portanto, dessas considerações, não nos perturba de modo algum a afirmação de Heráclito, adotada por Celso, de que os corpos mortos devem ser lançados fora como mais desprezíveis que esterco. E, no entanto, mesmo quanto a isso, alguém poderia dizer que o esterco, de fato, deve ser lançado fora, mas os corpos mortos dos homens, por causa da alma que os habitou, sobretudo se ela foi virtuosa, não devem ser lançados fora. Pois, em harmonia com aquelas leis que se baseiam nos princípios da equidade, os corpos são considerados dignos de sepultura, com as honras concedidas em tais ocasiões, para que nenhum insulto, na medida do possível, seja feito à alma que dentro deles habitou, lançando-se fora o corpo (depois que a alma partiu) como o dos animais. Que não se sustente, então, contra a razão, que é vontade de Deus declarar que o grão de trigo não é imortal, mas sim a haste que dele brota, e que o corpo semeado em corrupção não é imortal, mas sim aquele que por ele é levantado em incorrupção. Mas, segundo Celso, o próprio Deus é a razão de todas as coisas, ao passo que, segundo nosso entendimento, é o seu Filho, de quem dizemos em linguagem filosófica: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus; e, em nosso juízo também, Deus não pode fazer nada que seja contrário à razão ou contrário a si mesmo.
Notemos a seguir as afirmações de Celso que vêm depois das anteriores, e que são estas: Assim como os judeus, então, se tornaram um povo peculiar e promulgaram leis de acordo com os costumes de seu país, e as mantêm até o presente, e observam um modo de culto que, qualquer que seja sua natureza, deriva de seus antepassados, eles agem nesses pontos como os outros homens, porque cada nação conserva seus costumes ancestrais, quaisquer que sejam, se foram estabelecidos entre eles. E tal arranjo parece ser vantajoso, não só porque ocorreu à mente de outras nações decidir algumas coisas de modo diferente, mas também porque é um dever proteger o que foi estabelecido para o bem público; e também porque, com toda probabilidade, as várias regiões da terra foram desde o princípio distribuídas a diferentes espíritos supervisores, e assim repartidas entre certos poderes governantes, e desse modo se realiza a administração do mundo. E tudo o que se faz em cada nação dessa maneira seria feito corretamente, sempre que estivesse de acordo com os desejos dos poderes supervisores, ao passo que seria um ato de impiedade abolir as instituições estabelecidas desde o princípio nos vários lugares. Com essas palavras, Celso mostra que os judeus, que antes eram egípcios, depois se tornaram um povo peculiar e promulgaram leis que preservam com cuidado. E, para não repetir suas afirmações, que já estão diante de nós, ele diz que é vantajoso aos judeus observar seu culto ancestral, assim como as outras nações cuidam do seu. E declara ainda uma razão mais profunda pela qual é vantajoso aos judeus cultivar seus costumes ancestrais, insinuando vagamente que aqueles a quem coube o ofício de supervisionar o país que estava sendo legislado promulgaram as leis de cada terra em cooperação com seus legisladores. Ele parece, então, indicar que tanto o país dos judeus quanto a nação que o habita são supervisionados por um ou mais seres, os quais, fossem um ou muitos, cooperaram com Moisés e promulgaram as leis dos judeus.
Devemos, diz ele, observar as leis, não só porque ocorreu à mente de outros decidir algumas coisas de modo diferente, mas porque é um dever proteger o que foi promulgado para o bem público, e também porque, com toda probabilidade, as várias regiões da terra foram desde o princípio distribuídas a diferentes espíritos supervisores e repartidas entre certos poderes governantes, e desse modo se realiza a administração do mundo. Assim Celso, como se tivesse esquecido o que dissera contra os judeus, agora os inclui no elogio geral que faz a todos os que observam seus costumes ancestrais, observando: E tudo o que se faz em cada nação dessa maneira seria feito corretamente sempre que estivesse de acordo com os desejos dos supervisores. E note aqui se ele não expressa abertamente, na medida em que pode, o desejo de que o judeu viva na observância de suas próprias leis e não se afaste delas, porque cometeria um ato de impiedade se apostatasse; pois suas palavras são: Seria um ato de impiedade abolir as instituições estabelecidas desde o princípio nos vários lugares. Ora, eu gostaria de perguntar a ele, e aos que partilham de suas ideias, quem foi que distribuiu desde o princípio as várias regiões da terra entre os diferentes espíritos supervisores; e, especialmente, quem deu o país dos judeus, e o próprio povo judeu, ao supervisor ou supervisores a quem coube. Foi, como Celso diria, Júpiter que designou o povo judeu e seu país a certo espírito ou espíritos? E foi desejo daquele a quem assim foram designados promulgar entre eles as leis que vigoram, ou foi contra sua vontade que isso se fez? Você notará que, qualquer que seja sua resposta, ele fica em apuros. Pois, se as várias regiões da terra não foram distribuídas por algum ser aos vários espíritos supervisores, então cada um, ao acaso e sem a supervisão de um poder superior, dividiu a terra por sorte; e tal ideia é absurda e destrói em não pequena medida a providência do Deus que preside todas as coisas.
Qualquer um, de fato, que queira, pode contar como as várias regiões da terra, distribuídas entre certos poderes governantes, são administradas por aqueles que as supervisionam; mas que ele nos diga também como o que se faz em cada nação é feito corretamente quando está de acordo com os desejos dos supervisores. Que ele nos diga, por exemplo, se as leis dos cítios, que permitem o assassinato dos pais, são leis corretas; ou as dos persas, que não proíbem o casamento de filhos com as mães, ou de filhas com os próprios pais. Mas que necessidade há de eu fazer seleções entre os que se ocuparam de promulgar leis nas diferentes nações, e investigar como as leis são corretamente promulgadas em cada uma, conforme agradam aos poderes supervisores? Que Celso, no entanto, nos diga como seria um ato de impiedade abolir aquelas leis ancestrais que permitem o casamento de mães e filhas; ou que declaram feliz o homem que põe fim à própria vida por enforcamento, ou que afirmam que se purificam por inteiro os que se entregam ao fogo e que assim terminam sua existência; e como é um ato de impiedade abolir aquelas leis que, por exemplo, vigoram na Quersoneso Táurica, sobre a oferta de estrangeiros em sacrifício a Diana, ou entre certas tribos líbias, sobre o sacrifício de crianças a Saturno. Além disso, segue-se do dito de Celso que é um ato de impiedade da parte dos judeus abolir aquelas leis ancestrais que proíbem o culto de qualquer outra divindade que não o Criador de todas as coisas. E seguir-se-á, segundo sua ideia, que a piedade não é divina por sua própria natureza, mas por certo arranjo e disposição externos. Pois é um ato de piedade entre certas tribos adorar um crocodilo e comer o que é objeto de adoração entre outras tribos; ao passo que, ainda, entre outras é um ato piedoso adorar um bezerro, e entre outras considerar o bode como um deus. E, desse modo, o mesmo indivíduo será visto como agindo piedosamente segundo um conjunto de leis e impiamente segundo outro; e este é o resultado mais absurdo que se pode conceber!
É provável, no entanto, que a tais observações como as acima a resposta dada fosse que era piedoso aquele que guardava as leis de seu próprio país, e de modo algum culpável de impiedade pela não observância das de outras terras; e que, por outro lado, aquele que era tido por culpado de impiedade entre certas nações não o era de fato quando adorava seus próprios deuses, de acordo com as leis de seu país, ainda que fizesse guerra contra aqueles que eram tidos por divindades entre as nações que possuíam leis de tipo oposto, e até se banqueteasse com eles. Ora, note aqui se essas afirmações não revelam a maior confusão de mente quanto à natureza do que é justo, santo e religioso; pois não se estabelece nenhuma definição precisa dessas coisas, nem se descrevem elas como tendo um caráter próprio que marque como religiosos os que agem segundo seus preceitos. Se, então, a religião, a piedade e a retidão pertencem àquelas coisas que o são apenas por comparação, de modo que o mesmo ato pode ser ao mesmo tempo piedoso e ímpio, segundo diferentes relações e diferentes leis, veja se não se seguirá que a temperança também é coisa de comparação, e a coragem igualmente, e a prudência, e as demais virtudes, do que nada poderia ser mais absurdo! O que dissemos, no entanto, basta para a classe mais geral e simples de respostas às alegações de Celso. Mas, como achamos provável que alguns dos que estão acostumados a investigações mais profundas venham a topar com este tratado, ousemos apresentar algumas considerações de tipo mais profundo, que transmitem uma visão mística e secreta sobre a distribuição original das várias regiões da terra entre diferentes espíritos supervisores; e provemos, o melhor que pudermos, que nossa doutrina está livre das consequências absurdas enumeradas acima.