Contra Celso - Livro V 2
Anjos, ressurreição e o culto a um só Deus
Mas nem mesmo esta luz racional deve ser adorada por aquele que contempla e compreende a luz verdadeira, ao partilhar da qual estes também são iluminados, nem por aquele que contempla a Deus, o Pai da luz verdadeira, de quem se disse: Deus é luz, e nele não há treva nenhuma. De fato, aqueles que adoram o sol, a lua e as estrelas porque sua luz é visível e celestial não se prostrariam diante de uma faísca de fogo ou de uma lâmpada sobre a terra, porque veem a incomparável superioridade daqueles objetos que são tidos como dignos de homenagem em relação à luz das faíscas e das lâmpadas. Assim, aqueles que entendem que Deus é luz, e que apreenderam que o Filho de Deus é a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem ao mundo, e que compreendem também como ele diz: Eu sou a luz do mundo, não ofereceriam, de modo racional, culto àquilo que é, por assim dizer, uma faísca no sol, na lua e nas estrelas, em comparação com Deus, que é luz da luz verdadeira. Nem é com o intuito de depreciar essas grandes obras do poder criador de Deus, ou de chamá-las, à maneira de Anaxágoras, de massas ígneas, que falamos assim do sol, da lua e das estrelas. É, antes, porque percebemos a inexprimível superioridade da divindade de Deus, e a do seu Filho unigênito, que supera todas as outras coisas. E, persuadidos de que o próprio sol, a lua e as estrelas oram ao Deus Supremo por meio do seu Filho unigênito, julgamos impróprio orar àqueles seres que eles mesmos elevam orações a Deus, visto que até eles mesmos prefeririam que enviássemos nossos pedidos ao Deus a quem oram, em vez de enviá-los para baixo, a eles mesmos, ou repartir nosso poder de oração entre Deus e eles. E aqui posso empregar esta ilustração, por se aplicar a este ponto: nosso Senhor e Salvador, ao ouvir-se uma vez chamado de Bom Mestre, remetendo aquele que assim o chamou ao seu próprio Pai, disse: Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão um, que é Deus, o Pai. E, já que estava de acordo com a sã razão que isto fosse dito pelo Filho do amor de seu Pai, por ser a imagem da bondade de Deus, por que o sol não diria, com maior razão, aos que se prostram diante dele: Por que me adoras? Pois adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás; pois é a ele que eu e todos os que estão comigo servimos e adoramos. E, embora alguém possa não ser tão elevado quanto o sol, que tal pessoa ore, ainda assim, ao Verbo de Deus (que é capaz de curá-la), e ainda mais ao seu Pai, que também aos justos dos tempos antigos enviou a sua palavra, e os curou, e os livrou de suas ruínas.
Deus, portanto, em sua bondade, condescende com a humanidade, não em nenhum sentido local, mas por meio de sua providência. Já o Filho de Deus, não só (quando estava na terra), mas em todos os tempos, está com seus próprios discípulos, cumprindo a promessa: Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo. E, se um ramo não pode dar fruto a menos que permaneça na videira, é evidente que também os discípulos do Verbo, que são os ramos racionais da verdadeira videira do Verbo, não podem produzir os frutos da virtude a menos que permaneçam na verdadeira videira, o Cristo de Deus, que está conosco, localmente, aqui embaixo sobre a terra, e que está com aqueles que se apegam a ele em todas as partes do mundo, e está também em todos os lugares com aqueles que não o conhecem. Outro é manifestado por aquele João que escreveu o Evangelho quando, falando na pessoa de João Batista, disse: No meio de vós está um a quem vós não conheceis; é ele quem vem após mim. E é absurdo que, estando aquele que enche o céu e a terra, e que disse: Não encho eu o céu e a terra? Diz o Senhor, conosco e perto de nós (pois eu creio nele quando diz: Sou um Deus que está perto, e não longe, diz o Senhor), se busque orar ao sol, ou à lua, ou a uma das estrelas, cuja influência não alcança o mundo inteiro. Mas, para usar as próprias palavras de Celso, concedamos que o sol, a lua e as estrelas de fato predizem a chuva, o calor, as nuvens e os trovões. Por que, então, se eles de fato predizem coisas tão grandes, não deveríamos antes prestar homenagem a Deus, de quem eles são servos ao proferir essas predições, e mostrar reverência a ele em vez de a seus profetas? Que predigam, então, a aproximação dos relâmpagos, dos frutos e de todo tipo de produção, e que todas essas coisas estejam sob a sua administração. Ainda assim não adoraremos, por causa disso, aqueles que eles mesmos oferecem culto, assim como não adoramos nem Moisés nem os profetas que vieram de Deus depois dele, e que predisseram coisas melhores do que a chuva, o calor, as nuvens, os trovões, os relâmpagos, os frutos e todo tipo de produção visível aos sentidos. Mais ainda: mesmo que o sol, a lua e as estrelas fossem capazes de profetizar coisas melhores do que a chuva, nem mesmo então os adoraríamos, mas adoraríamos o Pai das profecias que há neles, e o Verbo de Deus, seu ministro. Mas concedamos que eles são seus arautos e, de fato, mensageiros do céu. Por que, mesmo então, não deveríamos adorar o Deus que eles apenas proclamam e anunciam, em vez daqueles que são os arautos e mensageiros?
Celso, ademais, supõe que o sol, a lua e as estrelas são tidos por nós como de nenhum valor. Ora, com respeito a estes, reconhecemos que eles também aguardam a manifestação dos filhos de Deus, estando por ora sujeitos à vaidade de seus corpos materiais, por causa daquele que os sujeitou em esperança. Mas, se Celso tivesse lido as inúmeras outras passagens em que falamos do sol, da lua e das estrelas, e em especial estas, Louvai-o, todas as estrelas, e tu, ó luz, e Louvai-o, céus dos céus, ele não teria dito de nós que consideramos tais seres poderosos, que grandemente louvam o Senhor Deus, como de nenhum valor. Tampouco conhecia Celso a passagem: Pois a ardente expectação da criatura aguarda a manifestação dos filhos de Deus. Pois a criatura ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou em esperança, porque a própria criatura também será libertada da escravidão da corrupção para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. E com estas palavras encerremos nossa defesa contra a acusação de não adorarmos o sol, a lua e as estrelas. E tragamos agora à tona aquelas afirmações dele que se seguem, para que possamos, se Deus quiser, dirigir-lhe em resposta os argumentos que nos forem sugeridos pela luz da verdade.
Eis, então, as suas palavras: É loucura da parte deles supor que, quando Deus, como se fosse um cozinheiro, introduzir o fogo (que há de consumir o mundo), todo o resto da raça humana será queimado, enquanto eles sozinhos permanecerão, não só os que então estiverem vivos, mas também os que há muito morreram, os quais surgirão da terra revestidos da mesmíssima carne (que tinham em vida). Pois tal esperança é simplesmente uma que vermes poderiam nutrir. Pois que tipo de alma humana é essa que ainda ansiaria por um corpo que esteve sujeito à corrupção? Daí, também, esta opinião de vocês não ser partilhada por alguns dos cristãos, que a declaram sumamente vil, repugnante e impossível. Pois que tipo de corpo é esse que, depois de completamente corrompido, pode voltar à sua natureza original e àquela mesmíssima primeira condição da qual caiu na dissolução? Incapazes de dar qualquer resposta, eles recorrem a um refúgio dos mais absurdos, a saber, que todas as coisas são possíveis a Deus. E, contudo, Deus não pode fazer coisas vergonhosas, nem deseja fazer coisas contrárias à sua natureza. Nem, se (de acordo com a maldade do seu próprio coração) vocês desejassem algo mau, Deus o realizaria. Nem devem vocês crer de imediato que será feito. Pois Deus não governa o mundo para satisfazer desejos desregrados, ou para permitir desordem e confusão, mas para governar uma natureza que é reta e justa. Pois à alma, de fato, ele poderia ser capaz de prover uma vida eterna, ao passo que os corpos mortos, ao contrário, são, como observa Heráclito, mais desprezíveis que esterco. Deus, no entanto, nem pode nem quer declarar, contra toda a razão, que a carne, que está cheia daquelas coisas que não é sequer honroso mencionar, há de existir para sempre. Pois ele é a razão de todas as coisas que existem, e por isso nada pode fazer que seja contrário à razão ou contrário a si mesmo.
Observe, agora, aqui no começo mesmo, como, ao ridicularizar a doutrina de uma conflagração do mundo, sustentada por certos gregos que trataram do assunto num espírito filosófico nada desprezível, ele nos faria, representando Deus, por assim dizer, como um cozinheiro, sustentar a crença numa conflagração geral. Ele não percebe que, como alguns gregos eram de opinião (talvez tendo recebido sua informação da antiga nação dos hebreus), é um fogo purificador o que é trazido sobre o mundo, e provavelmente também sobre cada um daqueles que precisam de castigo pelo fogo e de cura ao mesmo tempo. Pois ele de fato queima, mas não consome, os que estão sem um corpo material, que precisa ser consumido por aquele fogo. E ele queima e consome aqueles que, por suas ações, palavras e pensamentos, edificaram madeira, ou feno, ou palha, naquilo que é figuradamente chamado de edifício. E as Escrituras sagradas dizem que o Senhor, como fogo de fundidor e sabão de lavandeiro, visitará cada um daqueles que precisam de purificação, por causa da mistura, neles, de uma enxurrada de matéria perversa que procede de sua natureza má. São esses, quero dizer, que precisam de fogo para refinar, por assim dizer, (a escória) daqueles que estão misturados com cobre, estanho e chumbo. E quem quiser pode aprender isto do profeta Ezequiel. Mas que nós dizemos que Deus traz fogo sobre o mundo, não como um cozinheiro, mas como um Deus, que é o benfeitor dos que precisam da disciplina do fogo, será atestado pelo profeta Isaías, em cujos escritos se relata que uma nação pecadora foi assim interpelada: Já que tendes brasas de fogo, sentai-vos sobre elas; elas vos servirão de auxílio. Ora, a Escritura está apropriadamente adaptada às multidões dos que hão de lê-la, porque fala obscuramente de coisas tristes e sombrias, a fim de aterrorizar aqueles que não podem por nenhum outro meio ser salvos da enxurrada de seus pecados, embora mesmo então o leitor atento descubra claramente o fim que há de ser alcançado por esses castigos tristes e dolorosos sobre os que os suportam. É suficiente, contudo, para o presente, citar as palavras de Isaías: Por amor do meu nome mostrarei a minha ira, e a minha glória trarei sobre vós, para que eu não vos destrua. Vimo-nos, assim, na necessidade de nos referir em termos obscuros a questões não adequadas à capacidade dos simples crentes, que requerem uma instrução mais simples em palavras, para que não parecêssemos deixar sem refutação a acusação de Celso, de que Deus introduz o fogo (que há de destruir o mundo) como se fosse um cozinheiro.
Do que foi dito, ficará manifesto aos ouvintes inteligentes como temos de responder ao seguinte: Todo o resto da raça será completamente queimado, e só eles permanecerão. Não é de admirar, de fato, se tais pensamentos foram nutridos por aqueles dentre nós que são chamados na Escritura de as coisas loucas do mundo, e as coisas vis, e as coisas desprezadas, e as coisas que não são, porque pela loucura da pregação aprouve a Deus salvar os que nele creem, depois que, na sabedoria de Deus, o mundo pela sabedoria não conheceu a Deus, porque tais indivíduos são incapazes de ver com clareza o sentido de cada passagem particular, ou não estão dispostos a dedicar o tempo necessário à investigação da Escritura, apesar da ordem de Jesus: Examinai as Escrituras. Eis, ademais, as ideias dele a respeito do fogo que há de ser trazido sobre o mundo por Deus, e dos castigos que hão de recair sobre os pecadores. E talvez, assim como é apropriado às crianças que algumas coisas lhes sejam dirigidas de um modo conveniente à sua condição infantil, para convertê-las, por serem de tenra idade, a um curso de vida melhor, assim também, àqueles a quem a palavra chama de as coisas loucas do mundo, e as vis, e as desprezadas, o sentido justo e óbvio das passagens relativas aos castigos é adequado, visto que eles não podem receber outro modo de conversão senão aquele que é pelo medo e pela apresentação do castigo, e assim ser salvos dos muitos males (que recairiam sobre eles). A Escritura, por conseguinte, declara que só aqueles que ficam ilesos do fogo e dos castigos hão de permanecer, isto é, aqueles cujas opiniões, costumes e mente foram purificados ao mais alto grau. Por outro lado, aqueles de natureza diferente, isto é, aqueles que, segundo o que merecem, requerem a administração do castigo pelo fogo, serão envolvidos nesses sofrimentos com vistas a um fim que é adequado a Deus trazer sobre os que foram criados à sua imagem, mas que viveram em oposição à vontade daquela natureza que é segundo a sua imagem. E esta é a nossa resposta à afirmação: Todo o resto da raça será completamente queimado, mas só eles hão de permanecer.
Em seguida, tendo ou ele mesmo entendido mal as Escrituras sagradas, ou aqueles intérpretes por quem elas não foram entendidas, ele passa a afirmar que dizemos que permanecerão, no tempo da visitação que há de vir sobre o mundo pelo fogo da purificação, não só os que então estiverem vivos, mas também os que morreram há muito tempo. Ele não percebe que foi com um tipo secreto de sabedoria que isto foi dito pelo apóstolo de Jesus: Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, à última trombeta; pois a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Ora, ele deveria ter notado qual era o sentido daquele que proferiu essas palavras, sendo alguém que de modo algum estava morto, que fazia uma distinção entre si mesmo e os que eram como ele e os mortos, e que disse depois: Os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. E, como prova de que tal era o sentido do apóstolo ao escrever aquelas palavras que citei da primeira Epístola aos Coríntios, citarei também da primeira aos Tessalonicenses, na qual Paulo, como alguém que está vivo e desperto, e diferente dos que dormem, fala assim: Pois isto vos dizemos pela palavra do Senhor: que nós, os que vivermos e ficarmos até a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem; pois o próprio Senhor descerá do céu com um brado, com a voz do arcanjo, e com a trombeta de Deus. Então, de novo, depois disso, sabendo que havia outros mortos em Cristo além de si mesmo e dos que eram como ele, ele acrescenta as palavras: Os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois nós, os que vivermos e ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para encontrar o Senhor nos ares.
Mas, já que ele ridicularizou longamente a doutrina da ressurreição da carne, que tem sido pregada nas Igrejas, e que é compreendida com mais clareza pelo crente mais inteligente, e como é desnecessário citar de novo as suas palavras, que já foram apresentadas, exponhamos e estabeleçamos, com respeito ao problema (como numa obra apologética dirigida a um estranho à fé, e em favor daqueles que ainda são crianças, levados de um lado para outro e arrastados por todo vento de doutrina, pelo engano dos homens e pela astúcia com que enganam ardilosamente), o melhor que pudermos, alguns pontos destinados expressamente aos nossos leitores. Nem nós, então, nem as Escrituras sagradas afirmamos que com os mesmos corpos, sem uma mudança para uma condição superior, aqueles que há muito morreram surgirão da terra e viverão de novo. Pois, ao falar assim, Celso faz uma acusação falsa contra nós. Pois podemos atentar a muitas passagens da Escritura que tratam da ressurreição de modo digno de Deus, embora possa bastar, para o presente, citar a linguagem de Paulo da primeira Epístola aos Coríntios, onde ele diz: Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? E com que corpo vêm? Insensato, o que tu semeias não é vivificado, a menos que morra. E o que tu semeias, não semeias o corpo que há de ser, mas o simples grão, pode ser de trigo, ou de algum outro; mas Deus lhe dá um corpo como lhe aprouve, e a cada semente o seu próprio corpo. Ora, observe como nestas palavras ele diz que se semeia não o corpo que há de ser, mas que, do corpo que é semeado e lançado nu na terra (dando Deus a cada semente o seu próprio corpo), ocorre como que uma ressurreição: da semente que foi lançada ao solo surgindo um talo, por exemplo, entre plantas como as seguintes, isto é, a planta da mostarda, ou de uma árvore maior, como a oliveira, ou uma das árvores frutíferas.
Deus, então, dá a cada coisa o seu próprio corpo conforme lhe apraz: como no caso das plantas que são semeadas, assim também no caso daqueles seres que são, por assim dizer, semeados ao morrer, e que, no devido tempo, recebem, daquilo que foi semeado, o corpo atribuído por Deus a cada um segundo o que merece. E podemos, ademais, ouvir a Escritura ensinando-nos longamente a diferença entre aquilo que é, por assim dizer, semeado e aquilo que é, por assim dizer, ressuscitado dele, nestas palavras: Semeia-se em corrupção, ressuscita em incorrupção; semeia-se em desonra, ressuscita em glória; semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder; semeia-se um corpo natural, ressuscita um corpo espiritual. E que aquele que tem a capacidade entenda o sentido das palavras: Qual o terreno, tais também os que são terrenos; e qual o celestial, tais também os que são celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, traremos também a imagem do celestial. E, embora o apóstolo desejasse ocultar o sentido secreto da passagem, que não era adequado à classe mais simples dos crentes, e ao entendimento da gente comum, que é levada pela sua fé a entrar num curso de vida melhor, ele foi, contudo, obrigado a dizer depois (para que não interpretássemos mal o seu sentido), após Tragamos a imagem do celestial, também estas palavras: Ora, digo isto, irmãos, que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus; nem a corrupção herda a incorrupção. Então, sabendo que havia um sentido secreto e místico na passagem, como convinha a alguém que deixava, em suas Epístolas, palavras cheias de significado para os que viriam após ele, ele acrescenta o seguinte: Eis que vos mostro um mistério, que é o seu estilo habitual ao introduzir assuntos de natureza mais profunda e mais mística, e que são convenientemente ocultados da multidão, como está escrito no livro de Tobias: É bom guardar em segredo o segredo de um rei, mas honroso revelar as obras de Deus, de um modo coerente com a verdade e com a glória de Deus, e de maneira a ser de proveito para a multidão. Nossa esperança, então, não é a esperança de vermes, nem a nossa alma anseia por um corpo que viu a corrupção. Pois, embora ela possa precisar de um corpo, para o fim de se mover de um lugar para outro, ela entende (por ter meditado na sabedoria que vem do alto, de acordo com a declaração A boca do justo falará sabedoria) a diferença entre a casa terrestre, na qual está o tabernáculo do edifício que há de ser desfeito, e aquela na qual os justos gemem, sobrecarregados, não desejando despir o tabernáculo, mas ser revestidos dele, para que, ao serem revestidos, o que é mortal seja absorvido pela vida. Pois, em virtude de toda a natureza do corpo ser corruptível, o tabernáculo corruptível deve revestir-se da incorrupção; e a sua outra parte, sendo mortal e tornando-se sujeita à morte que segue o pecado, deve revestir-se da imortalidade, a fim de que, quando o corruptível se revestir da incorrupção, e o mortal da imortalidade, então se cumpra o que foi predito há muito pelos profetas: a aniquilação da vitória da morte (porque ela havia vencido e nos sujeitado ao seu domínio), e do seu aguilhão, com o qual ela aguilhoa a alma imperfeitamente defendida, e lhe inflige as feridas que resultam do pecado.