Contra Celso - Livro V 2
Anjos, ressurreição e o culto a um só Deus
Eis, então, as suas palavras: É loucura da parte deles supor que, quando Deus, como se fosse um cozinheiro, introduzir o fogo (que há de consumir o mundo), todo o resto da raça humana será queimado, enquanto eles sozinhos permanecerão, não só os que então estiverem vivos, mas também os que há muito morreram, os quais surgirão da terra revestidos da mesmíssima carne (que tinham em vida). Pois tal esperança é simplesmente uma que vermes poderiam nutrir. Pois que tipo de alma humana é essa que ainda ansiaria por um corpo que esteve sujeito à corrupção? Daí, também, esta opinião de vocês não ser partilhada por alguns dos cristãos, que a declaram sumamente vil, repugnante e impossível. Pois que tipo de corpo é esse que, depois de completamente corrompido, pode voltar à sua natureza original e àquela mesmíssima primeira condição da qual caiu na dissolução? Incapazes de dar qualquer resposta, eles recorrem a um refúgio dos mais absurdos, a saber, que todas as coisas são possíveis a Deus. E, contudo, Deus não pode fazer coisas vergonhosas, nem deseja fazer coisas contrárias à sua natureza. Nem, se (de acordo com a maldade do seu próprio coração) vocês desejassem algo mau, Deus o realizaria. Nem devem vocês crer de imediato que será feito. Pois Deus não governa o mundo para satisfazer desejos desregrados, ou para permitir desordem e confusão, mas para governar uma natureza que é reta e justa. Pois à alma, de fato, ele poderia ser capaz de prover uma vida eterna, ao passo que os corpos mortos, ao contrário, são, como observa Heráclito, mais desprezíveis que esterco. Deus, no entanto, nem pode nem quer declarar, contra toda a razão, que a carne, que está cheia daquelas coisas que não é sequer honroso mencionar, há de existir para sempre. Pois ele é a razão de todas as coisas que existem, e por isso nada pode fazer que seja contrário à razão ou contrário a si mesmo.