Contra Celso - Livro V 1

Anjos, ressurreição e o culto a um só Deus

Não é, meu reverendo Ambrósio, porque buscamos muitas palavras (algo que é proibido e em que é impossível não pecar) que agora começamos o quinto livro de nossa resposta ao tratado de Celso. É, antes, com o esforço de, dentro do que estiver ao nosso alcance, não deixar nenhuma de suas afirmações sem exame, e em especial aquelas em que poderia parecer a alguns que ele atacou com habilidade a nós e aos judeus. Se me fosse possível, de fato, entrar com minhas palavras na consciência de cada um, sem exceção, que esta obra, e arrancar cada dardo que fere quem não está plenamente protegido com toda a armadura de Deus, e aplicar um remédio racional que cure a ferida infligida por Celso, a qual impede que os que ouvem suas palavras permaneçam firmes na fé, eu o faria. Mas, que cabe somente a Deus, conforme o seu próprio Espírito e junto com o de Cristo, habitar invisivelmente naquelas pessoas que ele julga dignas de serem visitadas, nosso objetivo, por outro lado, é tentar, por meio de argumentos e tratados, confirmar os homens em sua e merecer o nome de obreiros que não têm do que se envergonhar, que manejam bem a palavra da verdade. E uma coisa acima de tudo que nos parece dever fazer, se quisermos cumprir com fidelidade a tarefa que você nos impôs: derrubar, o melhor que pudermos, as afirmações confiantes de Celso. Citemos, então, as afirmações dele que seguem àquelas que refutamos (o leitor deve julgar se o fizemos com êxito ou não), e respondamos a elas. E queira Deus que não nos aproximemos de nosso tema com o entendimento e a razão vazios e desprovidos de inspiração divina, para que a daqueles a quem desejamos ajudar não dependa da sabedoria humana. Antes, recebendo a mente de Cristo de seu Pai, o único que pode concedê-la, e sendo fortalecidos por participar da palavra de Deus, possamos derrubar toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e a imaginação de Celso, que se exalta contra nós, contra Jesus, e também contra Moisés e os profetas. Assim, aquele que deu a palavra aos que a proclamaram com grande poder nos supra também a nós, e nos conceda grande poder, para que a na palavra e no poder de Deus seja implantada na mente de todos os que lerem nossa obra.
Temos agora, então, de refutar aquela afirmação dele que diz o seguinte: Ó judeus e cristãos, nenhum Deus ou filho de um Deus desceu ou descerá à terra. Mas, se vocês querem dizer que certos anjos o fizeram, então como vocês os chamam? São deuses, ou alguma outra espécie de seres? Alguma outra espécie de seres (sem dúvida), e com toda a probabilidade demônios. Ora, como Celso aqui é culpado de se repetir (pois nas páginas anteriores tais afirmações foram apresentadas por ele com frequência), é desnecessário discutir a questão por mais tempo, visto que o que dissemos sobre este ponto pode bastar. Mencionaremos, contudo, algumas poucas considerações dentre muitas, que julgamos em harmonia com nossos argumentos anteriores, mas que não têm exatamente o mesmo alcance deles, e pelas quais mostraremos que, ao afirmar de modo geral que nenhum Deus, ou filho de Deus, jamais desceu entre os homens, ele derruba não as opiniões sustentadas pela maioria da humanidade a respeito da manifestação da Divindade, mas também o que ele próprio antes admitira. Pois, se a afirmação geral de que nenhum Deus ou filho de Deus desceu ou descerá for verdadeiramente sustentada por Celso, fica claro que com isso derrubamos a crença na existência de deuses sobre a terra que tenham descido do céu, seja para predizer o futuro à humanidade, seja para curá-la por meio de respostas divinas. E nem o Apolo Pítio, nem Esculápio, nem qualquer outro dentre os que supostamente fizeram isso, seria um deus descido do céu. Ele poderia, na verdade, ou ser um deus a quem coube por sorte a obrigação de morar na terra para sempre, sendo assim como que um fugitivo da morada dos deuses, ou ser alguém que não tinha poder para partilhar da companhia dos deuses no céu. Caso contrário, Apolo, Esculápio e aqueles outros que se crê realizarem atos na terra não seriam deuses, mas apenas certos demônios, muito inferiores aos homens sábios da humanidade que, por causa de sua virtude, sobem à abóbada do céu.
Mas observe como, em seu desejo de subverter nossas opiniões, ele, que nunca reconheceu ao longo de todo o seu tratado ser um epicurista, é flagrado como um desertor para aquela seita. E agora é a hora de você, leitor, que percorre as obras de Celso e seu assentimento ao que foi proposto, ou derrubar a crença num Deus que visita a raça humana e exerce uma providência sobre cada homem em particular, ou conceder isto e provar a falsidade das afirmações de Celso. Se você, então, aniquilar por completo a providência, falsificará aquelas afirmações dele em que ele concede a existência de Deus e de uma providência, para que você possa manter a verdade de sua própria posição. Mas se, por outro lado, você ainda admitir a existência da providência, por não concordar com a sentença de Celso de que nem um Deus nem o filho de um Deus desceu ou de descer à humanidade, por que não averiguar antes com cuidado, a partir das afirmações feitas a respeito de Jesus e das profecias proferidas acerca dele, quem é aquele que devemos considerar como tendo descido à raça humana como Deus e Filho de Deus? Aquele Jesus que tanto disse e ministrou, ou aqueles que, sob o pretexto de oráculos e adivinhações, não reformam os costumes de seus adoradores, mas que, além disso, apostataram do culto e da honra puros e santos devidos ao Criador de todas as coisas, e que arrancam as almas dos que lhes dão atenção do único Deus visível e verdadeiro, sob o pretexto de prestar honra a uma multidão de divindades?
Mas, que ele diz, em seguida, como se os judeus ou os cristãos tivessem respondido, a respeito daqueles que descem para visitar a raça humana, que eram anjos: Mas, se vocês dizem que são anjos, como vocês os chamam? Ele continua: São deuses, ou alguma outra espécie de seres? E então nos apresenta de novo como se respondêssemos: Alguma outra espécie de seres, e provavelmente demônios. Passemos a observar essas observações. Pois nós, de fato, reconhecemos que os anjos são espíritos ministradores, e dizemos que são enviados para servir em favor daqueles que hão de herdar a salvação. Dizemos que eles sobem, levando as súplicas dos homens, aos mais puros lugares celestiais do universo, ou mesmo a regiões supracelestes ainda mais puras, e que de descem, transmitindo a cada um, segundo o que merece, algo que Deus ordenou que fosse conferido por eles aos que hão de receber os seus benefícios. Tendo aprendido a chamar esses seres de anjos por causa de suas funções, descobrimos que, por serem divinos, eles às vezes são chamados de deus nas Escrituras sagradas, mas não de modo que nos seja ordenado honrar e adorar, no lugar de Deus, aqueles que nos servem e nos trazem as suas bênçãos. Pois toda oração, súplica, intercessão e ação de graças deve ser elevada ao Deus Supremo por meio do Sumo Sacerdote, que está acima de todos os anjos, o Verbo vivo e Deus. E ao próprio Verbo também oraremos e faremos intercessões, e a ele ofereceremos ações de graças e súplicas, se tivermos a capacidade de distinguir entre o uso correto e o abuso da oração.
Pois invocar anjos sem ter obtido um conhecimento de sua natureza maior do que o que os homens possuem seria contrário à razão. Mas, conforme nossa hipótese, suponha-se que este conhecimento deles, que é algo admirável e misterioso, seja obtido. Então este conhecimento, ao nos dar a conhecer a natureza deles e os ofícios para os quais cada um é designado, não nos permitirá orar com confiança a outro que não o Deus Supremo, que é suficiente para todas as coisas, e isto por meio de nosso Salvador, o Filho de Deus, que é o Verbo, e a Sabedoria, e a Verdade, e tudo o mais que os escritos dos profetas de Deus e os apóstolos de Jesus lhe atribuem. E basta, para garantir que os santos anjos de Deus nos sejam propícios e que façam todas as coisas em nosso favor, que a disposição de nossa mente para com Deus imite, tanto quanto está ao alcance da natureza humana, o exemplo desses santos anjos, que, por sua vez, seguem o exemplo do seu Deus. Basta também que as concepções que temos do seu Filho, o Verbo, na medida em que nos são acessíveis, não se oponham às concepções mais claras dele que os santos anjos possuem, mas que dia a dia se aproximem delas em clareza e nitidez. Mas, porque Celso não leu nossas Escrituras sagradas, ele a si mesmo uma resposta como se viesse de nós, dizendo que afirmamos que os anjos que descem do céu para conferir benefícios à humanidade são uma espécie diferente dos deuses, e acrescenta que, com toda a probabilidade, seriam chamados de demônios por nós. Ele não percebe que o nome demônios não é um termo de sentido indiferente, como o de homens, entre os quais alguns são bons e alguns maus, nem é um termo de excelência como o de deuses, que se aplica não a demônios perversos, ou a estátuas, ou a animais, mas (por aqueles que conhecem as coisas divinas) ao que é verdadeiramente divino e bem-aventurado. o termo demônios sempre se aplica àquelas potestades perversas, livres do peso de um corpo mais grosseiro, que desviam os homens, enchem-nos de inquietações e os arrastam para baixo, de Deus e dos pensamentos supracelestes, para as coisas daqui de baixo.
Ele passa, em seguida, a fazer a seguinte afirmação a respeito dos judeus: O primeiro ponto relativo aos judeus que é próprio para causar espanto é que eles adoram o céu e os anjos que nele habitam, e contudo desprezam e negligenciam suas partes mais veneráveis e poderosas, como o sol, a lua e os demais corpos celestes, tanto as estrelas fixas quanto os planetas, como se fosse possível que o todo fosse Deus, mas suas partes não fossem divinas, ou (como se fosse razoável) tratar com o maior respeito aqueles que se diz aparecerem aos que estão na escuridão em algum lugar, cegos por alguma feitiçaria torta, ou que sonham sonhos sob a influência de espectros sombrios, enquanto aqueles que profetizam de modo tão claro e impressionante a todos os homens, por meio dos quais se produzem a chuva, o calor, as nuvens e o trovão (aos quais eles oferecem culto), e os relâmpagos, e os frutos, e todo tipo de fertilidade, por meio dos quais Deus lhes é revelado, os arautos mais proeminentes entre os seres que estão no alto, aqueles que são verdadeiramente anjos celestiais, são tidos como de nenhum valor! Ao fazer essas afirmações, Celso parece ter caído em confusão e tê-las escrito a partir de ideias falsas de coisas que ele não compreendia. Pois é evidente a todos os que investigam as práticas dos judeus e as comparam com as dos cristãos que os judeus que seguem a lei, a qual, falando na pessoa de Deus, diz: Não terás outros deuses diante de mim; não farás para ti imagem, nem semelhança de nada que esteja no céu acima, ou na terra abaixo, ou nas águas debaixo da terra; não te prostrarás diante delas, nem as servirás, esses judeus não adoram nada além do Deus Supremo, que fez os céus e todas as demais coisas. Ora, é evidente que os que vivem segundo a lei e adoram o Criador do céu não adorarão o céu ao mesmo tempo que a Deus. Além disso, ninguém que obedece à lei de Moisés se prostrará diante dos anjos que estão no céu. E, do mesmo modo que não se prostram diante do sol, da lua e das estrelas, o exército do céu, eles se abstêm de prestar reverência ao céu e a seus anjos, obedecendo à lei que declara: Para que não levantes os teus olhos ao céu e, ao veres o sol, a lua e as estrelas, todo o exército do céu, sejas arrastado a adorá-los e a servi-los, os quais o Senhor teu Deus repartiu entre todas as nações.
Tendo, ademais, suposto que os judeus consideram o céu como Deus, ele acrescenta que isso é absurdo, criticando aqueles que se prostram diante do céu, mas não também diante do sol, da lua e das estrelas, dizendo que os judeus fazem isso, como se fosse possível que o todo fosse Deus e suas várias partes não fossem divinas. E ele parece chamar o céu de todo, e o sol, a lua e as estrelas de suas várias partes. Ora, certamente nem judeus nem cristãos chamam o céu de Deus. Mas concedamos que, como ele alega, o céu seja chamado de Deus pelos judeus, e suponhamos que o sol, a lua e as estrelas sejam partes do céu (o que de modo algum é verdade, pois nem os animais e plantas sobre a terra são porção dela). Como é verdade, mesmo segundo as opiniões dos gregos, que, se Deus for um todo, suas partes também sejam divinas? Certamente eles dizem que o Cosmos, tomado como o todo, é Deus, chamando-o os estoicos de Primeiro Deus, os seguidores de Platão de Segundo, e alguns deles de Terceiro. Segundo esses filósofos, então, visto que o Cosmos inteiro é Deus, suas partes também são divinas, de modo que não os seres humanos são divinos, mas toda a criação irracional, por serem porções do Cosmos. E, além desses, as plantas também são divinas. E, se os rios, as montanhas e os mares são porções do Cosmos, então, que o Cosmos inteiro é Deus, os rios e os mares também são deuses? Mas nem isso os gregos afirmarão. Aqueles, contudo, que presidem rios e mares (sejam demônios ou deuses, como eles os chamam), eles os chamariam de deuses. Ora, daí se segue que a afirmação geral de Celso, mesmo segundo os gregos que sustentam a doutrina da Providência, é falsa: a de que, se algum todo for um deus, suas partes necessariamente são divinas. Mas, da doutrina de Celso, segue-se que, se o Cosmos for Deus, tudo o que nele é divino, por serem partes do Cosmos. Ora, segundo essa visão, os animais, como moscas, mosquitos e vermes, e toda espécie de serpente, assim como de aves e peixes, serão divinos, uma afirmação que não seria feita nem mesmo por aqueles que sustentam que o Cosmos é Deus. Mas os judeus, que vivem segundo a lei de Moisés, ainda que talvez não saibam como receber o sentido secreto da lei, transmitido em linguagem obscura, não sustentarão que o céu ou os anjos sejam Deus.
Como afirmamos, no entanto, que ele caiu em confusão por causa das noções falsas que absorveu, venha, e mostremos isso o melhor que pudermos, e demonstremos que, embora Celso considere ser um costume judaico prostrar-se diante do céu e dos anjos que nele estão, tal prática não é de modo algum judaica, mas é uma violação do judaísmo, assim como o é prestar reverência ao sol, à lua e às estrelas, bem como a imagens. Você encontrará ao menos no livro de Jeremias as palavras de Deus, que, pela boca do profeta, censura o povo judeu por prestar reverência a tais objetos e por sacrificar à rainha do céu e a todo o exército do céu. Os escritos dos cristãos, ademais, mostram, ao censurar os pecados cometidos entre os judeus, que, quando Deus abandonou aquele povo por causa de certos pecados, estes pecados (de adoração a ídolos) também foram cometidos por eles. Pois se relata nos Atos dos Apóstolos, a respeito dos judeus, que Deus se voltou e os entregou a adorar o exército do céu, como está escrito no livro dos profetas: Ó casa de Israel, vós me oferecestes animais imolados e sacrifícios pelo espaço de quarenta anos no deserto? Sim, vós tomastes o tabernáculo de Moloque e a estrela do vosso deus Renfã, figuras que fizestes para adorá-las. E nos escritos de Paulo, que foi cuidadosamente instruído nos costumes judaicos e depois convertido ao cristianismo por uma aparição milagrosa de Jesus, podem-se ler as seguintes palavras na Epístola aos Colossenses: Ninguém vos prive do vosso galardão, numa pretensa humildade e adoração de anjos, metendo-se em coisas que não viu, vãmente inchado pela sua mente carnal, e não se ligando à Cabeça, da qual todo o corpo, abastecido e ligado pelas juntas e ligamentos, cresce com o crescimento de Deus. Mas Celso, não tendo lido esses versículos nem aprendido o seu conteúdo de qualquer outra fonte, representou, não sei como, os judeus como não transgressores de sua lei ao se prostrarem diante dos céus e dos anjos que neles há.
E, ainda continuando um pouco confuso, e sem o cuidado de ver o que era pertinente ao assunto, ele expressou sua opinião de que os judeus foram induzidos pelos encantamentos empregados na trapaça e na feitiçaria (em consequência dos quais certos fantasmas aparecem, em obediência aos feitiços usados pelos magos) a se prostrarem diante dos anjos no céu. Ele não percebe que isto era contrário à lei deles, que dizia aos que praticavam tais observâncias: Não vos volteis para os que têm espíritos familiares, nem busqueis os adivinhos, para vos contaminardes com eles: eu sou o Senhor vosso Deus. Ele deveria, portanto, ou não ter de modo algum atribuído essa prática aos judeus, que observou que eles guardam a sua lei e os chamou de aqueles que vivem segundo a sua lei, ou, se a atribuiu, deveria ter mostrado que os judeus faziam isso em violação de seu código. Mas, de novo, assim como transgridem a lei aqueles que oferecem culto aos que se diz aparecerem aos que estão envolvidos na escuridão e cegos pela feitiçaria, e que sonham sonhos por causa de fantasmas obscuros que se apresentam, do mesmo modo transgridem a lei aqueles que oferecem sacrifício ao sol, à lua e às estrelas. E há, assim, uma grande incoerência num mesmo indivíduo ao dizer que os judeus têm o cuidado de guardar a sua lei por não se prostrarem diante do sol, da lua e das estrelas, mas não têm o mesmo cuidado de guardá-la no que diz respeito ao céu e aos anjos.
E, se for necessário oferecermos uma defesa de nossa recusa em reconhecer como deuses, em igualdade com os anjos, o sol, a lua e as estrelas, aqueles que são chamados pelos gregos de divindades manifestas e visíveis, responderemos que a lei de Moisés sabe que estes últimos foram repartidos por Deus entre todas as nações sob o céu, mas não entre aqueles que foram escolhidos por Deus como o seu povo eleito acima de todas as nações da terra. Pois está escrito no livro de Deuteronômio: E para que não levantes os teus olhos ao céu e, ao veres o sol, a lua e as estrelas, todo o exército do céu, sejas arrastado a adorá-los e a servi-los, os quais o Senhor teu Deus repartiu entre todas as nações sob todo o céu. Mas o Senhor vos tomou e vos tirou da fornalha de ferro, do Egito, para serdes para ele um povo de herança, como sois hoje. O povo hebreu, então, chamado por Deus de geração eleita, sacerdócio real, nação santa e povo adquirido, a respeito de quem foi predito a Abraão pela voz do Senhor que lhe foi dirigida: Olha agora para o céu e conta as estrelas, se as podes contar; e disse-lhe: Assim será a tua descendência, e tendo assim a esperança de que se tornariam como as estrelas do céu, não era provável que se prostrassem diante daqueles objetos a que deveriam assemelhar-se como resultado de compreenderem e observarem a lei de Deus. Pois foi-lhes dito: O Senhor nosso Deus nos multiplicou; e eis que sois hoje como as estrelas do céu em multidão. No livro de Daniel, também, encontram-se as seguintes profecias relativas àqueles que hão de partilhar da ressurreição: E naquele tempo o teu povo será livrado, todo aquele que for achado escrito no livro. E muitos dos que dormem no da terra acordarão, uns para a vida eterna, e outros para a vergonha e o desprezo eterno. E os que forem sábios resplandecerão como o resplendor do firmamento, e os muitos justos como as estrelas, para todo o sempre, e assim por diante. E daí Paulo, também, quando fala da ressurreição, diz: E corpos celestiais e corpos terrestres; mas uma é a glória dos celestiais e outra a dos terrestres. Uma é a glória do sol, outra a glória da lua, e outra a glória das estrelas; pois uma estrela difere de outra em glória. Assim também é a ressurreição dos mortos. Não era, portanto, conforme à razão que aqueles que haviam sido ensinados, de modo sublime, a ascender acima de todas as coisas criadas, e a esperar o gozo das mais gloriosas recompensas com Deus por causa de suas vidas virtuosas, e que haviam ouvido as palavras Vós sois a luz do mundo e Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que eles, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos céus, e que possuíam, pela prática, essa sabedoria brilhante e inextinguível, ou que haviam assegurado até o próprio reflexo da luz eterna, fossem de tal modo impressionados pela luz (meramente) visível do sol, da lua e das estrelas que, por causa daquela luz sensível, se julgassem (embora dotados de tão grande luz racional do conhecimento, da luz verdadeira, da luz do mundo e da luz dos homens) de algum modo inferiores a eles, e se prostrassem diante deles. Pois eles deveriam ser adorados, se é que hão de receber adoração, não por causa da luz sensível admirada pela multidão, mas por causa da luz racional e verdadeira, se de fato as estrelas no céu são seres racionais e virtuosos, e foram iluminadas com a luz do conhecimento por aquela sabedoria que é o reflexo da luz eterna. Pois aquela luz sensível deles é obra do Criador de todas as coisas, ao passo que aquela luz racional deriva talvez do princípio do livre-arbítrio que dentro deles.